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	<title>lobato &amp;laquo; WordPress.com Tag Feed</title>
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	<description>Feed of posts on WordPress.com tagged "lobato"</description>
	<pubDate>Mon, 07 Jul 2008 08:15:44 +0000</pubDate>

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<title><![CDATA[O Comprador de Fazendas]]></title>
<link>http://contosdocovil.wordpress.com/?p=449</link>
<pubDate>Tue, 24 Jun 2008 18:03:18 +0000</pubDate>
<dc:creator>Snaga</dc:creator>
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<description><![CDATA[Pior fazenda que a “Espiga”, nenhuma. Já arruinara três donos, o que fazia dizer aos praguento]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Pior fazenda que a “Espiga”, nenhuma. Já arruinara três donos, o que fazia dizer aos praguentos: Espiga é o que aquilo é!</p>
<p>O detentor último, um David Moreira de Souza, arrematara-a em praça, convicto de negócio da China. Mas já lá andava, também ele, escalavrado de dívidas, coçando a cabeça, num desânimo.</p>
<p>Os cafezais em vara, batidos de pedra ou esturrados de geada ano sim ano não, nunca deram de si colheita de entupir tulha. Os pastos ensapezados, enguanxumados, ensamambaiados nos topes, eram acampamentos de cupins com entremeios de macegas mortiças, formigantes de carrapatos. Boi entrado ali punha-se logo de costelas à mostra, encaroçado de bernes, triste e dolorido de meter dó.</p>
<p>As capoeiras substitutas das matas nativas revelavam, pela indiscrição das tabocas, a mais safada das terras secas. Em tal solo a mandioca bracejava a medo varetinhas nodosas; a cana caiana assumia aspecto de caninha, e esta virava uma taquariça magrela, das que passam incólumes por entre os cilindros moedores.</p>
<p>Piolhavam os cavalos. Os porcos escapos à peste encruavam na magrém faraônica das vacas egípcias.<br />
Por todos os cantos imperava soberano o ferrão das saúvas, dia e noite entregues à tosa dos capins, para que em outubro se toldasse o céu de nuvens de içás, em saracoteios amorosos com enamorados savitus.<br />
Caminhos por fazer, cercas no chão, casas de agregados engoteiradas, combalidas de cumieira, prenunciando feias taperas. Até na moradia senhorial insinuava-se a breca, aluindo panos de reboco, carcomendo assoalhos. Vidraças sem vidro, mobília capengante, paredes lagarteadas... Intacto, que é que havia lá?</p>
<p>Dentro dessa esborcinada moldura, o fazendeiro, avelhuscado por força de sucessivas decepções e, a mais, roído pelo cancro dos juros, sem esperança e sem concerto, coçava cem vezes ao dia a coroa da cabeça grisalha.</p>
<p>Sua mulher, a pobre dona Isaura, perdido o viço do outono, agrumava no rosto quanta sarda e pé-de-galinha inventam os anos, de mãos dadas à trabalhosa vida.</p>
<p>Zico, o filho mais velho, saíra-se um pulha, amigo de erguer-se às dez, ensebar a gaforinha até às onze e consumir o resto do dia em namoricos mal-azarados.</p>
<p>Afora este malandro, tinham a Zilda, então nos dezessete, menina galante, porém sentimental mais do que manda a razão e pede o sossego dos pais. Era um ler Escrich, a rapariga, e um cismar amores de Espanha...<br />
Em tal situação só havia uma aberta: vender a fazenda maldita para respirar a salvo de credores. Coisa difícil, entretanto, em quadra de café a cinco mil réis, pôr unhas num tolo das dimensões requeridas. Iludidos por núncios manhosos, alguns pretendentes já haviam abicado à Espiga, mas franziam o nariz, indo-se arrenegar da pernada, sem abrir oferta.</p>
<p>— De graça é caro! — cochichavam de si para consigo.</p>
<p>O redemoinho capilar do Moreira, ao cabo de coçadelas, sugeriu-lhe um engenhoso plano mistificatório: entreverar de caetés, cambarás, unhas-de-vaca e outros padrões de terra boa, transplantados das vizinhanças, a fímbria das capoeiras e uma ou outra entrada acessível aos visitantes. Fê-lo, o maluco, e mais: meteu em certa grota um pau d’alho trazido da terra roxa, e adubou os cafeeiros margeantes ao caminho, no suficiente para encobrir a mazela do resto. Onde um raio de sol denunciava com mais viveza um vício da terra, ali o alucinado velho botava a peneirinha...</p>
<p>Um dia recebeu carta de seu agente de negócios, anunciando novo pretendente: “Você tempere o homem — aconselhava o pirata — e saiba manobrar os padrões, que este cai. Chama-se Pedro Trancoso, é muito rico, muito moço, muito prosa, e quer fazenda de recreio. Depende tudo de você espigá-lo com arte de barganhista ladino”.</p>
<p>Preparou-se o Moreira para a empresa. Advertiu primeiro aos agregados para que estivessem a postos, afiadíssimos de língua. Industriados pelo patrão, estes homens respondiam com manha consumada às perguntas dos visitantes, de jeito a transmutar em maravilhas as ruindades locais. Como lhes é suspeita a informação dos proprietários, costumam os pretendentes interrogar à socapa os encontradiços. Ali, se isso acontecia — e acontecia sempre, porque era o Moreira em pessoa o maquinista do acaso — havia diálogos desta ordem:</p>
<p>— Tem geada por aqui?</p>
<p>— Coisinha, e isso mesmo só em ano brabo.</p>
<p>— O feijão dá bem?</p>
<p>— Nossa Senhora! Inda este ano plantei cinco quartas e malhei cinqüenta alqueires. E que feijão!</p>
<p>— Berneia o gado?</p>
<p>— Qual o quê! Lá um ou outro carocinho, de vez em quando. Para criar, não existe terra melhor. Nem erva nem feijão bravo. O patrão é porque não tem força. Tivesse ele os meios, e isto virava um fazendão. Avisados os espoletas, debateram-se à noite os preparativos da hospedagem, alegres todos com o reviçar das esperanças emurchecidas.</p>
<p>— Estou com palpite que desta feita a coisa vai! — disse o filho maroto. E declarou necessitar, à sua parte, de três contos de réis para estabelecer-se.</p>
<p>— Estabelecer-se em quê? — perguntou admirado o pai.</p>
<p>— Com armazém de secos e molhados na Volta Redonda.</p>
<p>— Na Volta Redonda?.. Já me estava espantando de uma idéia boa nessa cabeça de vento. Para vender fiado à gente da Tudinha, não é?</p>
<p>O rapaz, se não corou, calou-se. Tinha razões para isso. Já a mulher queria casa na cidade. De há muito trazia d’olho uma de porta e janela, em certa rua humilde, casa baratinha, de arranjados. Zilda queria um piano, mais caixões e caixões de Escrich.</p>
<p>Dormiram felizes essa noite, e no dia seguinte mandaram cedo à vila em busca de gulodices de hospedagem — manteiga, um queijo, biscoitos. Na manteiga houve debate:</p>
<p>— Não vale a pena — reguingou a mulher. — Sempre são seis mil réis. Antes se comprasse com esse dinheiro a peça de algodãozinho que tanta falta me faz.</p>
<p>— É preciso, filha! Às vezes uma coisa de nada engambela um homem e facilita um negócio. Manteiga é graxa, e a graxa engraxa!</p>
<p>Venceu a manteiga.</p>
<p>Enquanto não vinham os ingredientes, meteu dona Isaura unhas à casa, varrendo, espanando e arrumando o quarto dos hóspedes; matou o menos magro dos frangos e uma leitoa manquitola; temperou a massa do pastel de palmito; estava a folheá-la quando:</p>
<p>— Lá vem ele! — gritou Moreira da janela, onde se postara desde cedo, muito nervoso, a devassar a estrada por um velho binóculo; e sem deixar o posto de observação, foi transmitindo à ocupadíssima esposa os pormenores divisados. — É moço... Bem trajado... Chapéu panamá... Parece o Chico Canhambora...</p>
<p>Chegou afinal o homem. Apeou-se. Deu cartão: Pedro Trancoso de Carvalhais Fagundes. Bem apessoado. Ares de muito dinheiro. Mocetão e bem falante, mais que quantos até ali aparecidos. Contou logo mil coisas, com o desembaraço de quem no mundo está de pijama em sua casa — a viagem, os incidentes, um mico que vira pendurado num galho de embaúva.</p>
<p>Entrados que foram para a saleta de espera, Zico, incontinenti, grudou-se de ouvido ao buraco da fechadura, a cochichar para as mulheres ocupadas na arrumação da mesa o que ia pilhando à conversa. Súbito, esganiçou para a irmã, numa careta sugestiva:</p>
<p>— É solteiro, Zilda!</p>
<p>A menina largou disfarçadamente os talheres e sumiu-se. Meia hora depois voltava, trazendo o melhor vestido, e no rosto duas redondinhas rosas de carmim. Quem entrasse a essa hora no oratório da fazenda notaria, nas vermelhas rosas de papel de seda que enfeitavam o Santo Antonio, a ausência de várias pétalas, e aos pés da imagem uma velinha acesa, pois na roça o “rouge” e o casamento saem do mesmo oratório.</p>
<p>Trancoso dissertava sobre variados temas agrícolas:</p>
<p>— O canastrão? Pff! Raça tardia, meu caro senhor, muito agreste. Eu sou pelo Poland Chine. Também não é mau o Large Black. Mas o Poland! Que preciosidade! Que raça!</p>
<p>Moreira, chucro na matéria, só conhecedor das pelhanças famintas, sem nome nem raça, que lhe grunhiam nos pastos, abria insensivelmente a boca pasmada.</p>
<p>— Como em matéria de pecuária bovina — continuava Trancoso — tenho para mim que, de Barreto a Prado, andam todos erradíssimos. Pois não! E-rra-dí-ssi-mos! Nem seleção, nem cruzamento. Quero a adoção i-me-di-a-ta das mais finas raças, o Polled Angus, o Red Lincoln. Não temos pasto? Façamo-lo. Plantemos alfafa. Fenemos. Ensilemos. O Assis Brasil confessou-me uma vez...</p>
<p>O Assis Brasil! Aquele homem confessava os mais altos paredros da agricultura! Era íntimo de todos eles — o Antonio Prado, o Luís Pereira Barreto, o Eduardo Cotrim, homens de muita autoridade em assuntos de pecuária. E de ministros!</p>
<p>— Eu já aleguei isso ao José Bezerra...</p>
<p>Nunca se honrara a fazenda com a presença de cavalheiro mais distinto, assim bem relacionado e tão viajado. Falava da Argentina e de Chicago como quem veio ontem de lá. Maravilhoso!</p>
<p>A boca do Moreira abria, abria, e acusava o grau máximo da abertura permitida a ângulos maxilares, quando uma voz feminina anunciou o almoço.</p>
<p>Apresentações.</p>
<p>Mereceu Zilda louvores nunca sonhados, que a puseram de coração aos pinotes. Também os tiveram a galinha ensopada, o tutu com torresmos, o pastel e até a água do pote.</p>
<p>— Na cidade, senhor Moreira, uma água assim, pura, cristalina, absolutamente potável, vale o melhor dos vinhos. Felizes os que podem bebê-la!</p>
<p>A família entreolhou-se; nunca imaginaram possuir em casa semelhante preciosidade, e cada um insensivelmente sorveu o seu golezinho, como se naquele instante travassem conhecimento com o precioso néctar. Zico chegou a estalar a língua...</p>
<p>Quem não cabia em si de gozo era dona Isaura. Os elogios à culinária puseram-na rendida. Por metade daquilo já se daria por bem paga da trabalheira.</p>
<p>— Aprenda, Zico — cochichava ao filho — o que é educação fina!</p>
<p>Após o café brindado com um “delicioso!”, convidou Moreira o hóspede para um giro a cavalo.</p>
<p>— Impossível, meu caro, não monto em seguida às refeições; dá-me cefalalgia — Zilda corou. Zilda corava sempre que não entendia uma palavra. — À tarde sairemos, não tenho pressa. Prefiro agora um passeiozinho pedestre pelo pomar, a bem do quilo.</p>
<p>Enquanto os dois homens se dirigiram para lá em pausados passos, Zilda e Zico correram ao dicionário.</p>
<p>— Não é com S — disse o rapaz.</p>
<p>— Veja com C — alvitrou a menina.</p>
<p>Com algum trabalho encontraram a palavra.</p>
<p>— “Dor de cabeça!” Ora! Uma coisa tão simples...</p>
<p>À tarde, no giro a cavalo, Trancoso admirou e louvou tudo quanto ia vendo, com grande espanto do fazendeiro que, pela primeira vez, ouvia gabos às coisas suas. Os pretendentes em geral malsinam de tudo, com olhos abertos só para defeitos; diante de uma barroca, abrem-se em exclamações quanto ao perigo das terras frouxas; acham más e poucas as águas; se enxergam um boi, não despegam a vista dos bernes.<br />
Trancoso, não: gabava! E quando Moreira, nos trechos mistificados, com dedo trêmulo assinalou os padrões, o moço abriu a boca:</p>
<p>— Caquera? Mas isto é fantástico!</p>
<p>Em face do pau d’alho, culminou-lhe o assombro.</p>
<p>— É maravilhoso o que vejo! Nunca supus encontrar nesta zona vestígios de semelhante árvore! — disse, metendo na carteira uma folha como lembrança.</p>
<p>Em casa, abriu-se com a velha:</p>
<p>— Pois, minha senhora, a qualidade destas terras excedeu de muito à minha expectativa. Até pau d’alho! Isto é positivamente famoso!...</p>
<p>Dona Isaura baixou os olhos.</p>
<p>A cena passava-se na varanda. Era noite. Noite trilada de grilos, coaxada de sapos, com muitas estrelas no céu e muita paz na terra. Refestelado numa cadeira preguiçosa, o hóspede transfez o sopor da digestão em quebreira poética.</p>
<p>— Este cricri de grilos, como é encantador! Eu adoro as noites estreladas, o bucólico viver campesino, tão sadio e feliz...</p>
<p>— Mas é muito triste!... — aventurou Zilda.</p>
<p>— Acha? Gosta mais do canto estridente da cigarra, modulando cavatinas em plena luz? — disse ele, amelaçando a voz. — É que no seu coraçãozinho há qualquer nuvem a sombreá-lo...<br />
Vendo Moreira assim atiçado o sentimentalismo, e desta feita passível de conseqüências matrimoniais, houve por bem dar uma pancada na testa e berrar:</p>
<p>— Oh, diabo! Não é que eu ia me esquecendo do... — Não disse do quê, nem era preciso. Saiu precipitadamente, deixando-os sós.</p>
<p>Continuou o diálogo, mais mel e rosas.</p>
<p>— O senhor é um poeta! — exclamou Zilda a um regorjeio dos mais sucados.</p>
<p>— Quem o não é, debaixo das estrelas do céu, ao lado de uma estrela da terra?</p>
<p>— Pobre de mim! — suspirou a menina, palpitante.</p>
<p>Também do peito de Trancoso subiu um suspiro. Seus olhos alçaram-se a uma nuvem que fazia no céu as vezes da Via Láctea, e sua boca murmurou em solilóquio um rabo d’arraia, desses que derrubam meninas:</p>
<p>— O amor!... A Via Láctea da vida!... O aroma das rosas, a gaze da aurora! Amar, ouvir estrelas... Amai, pois só quem ama entende o que elas dizem.</p>
<p>Era zurrapa de contrabando; não obstante, ao paladar inexperto da menina, soube a fino moscatel. Zilda sentiu subir à cabeça um vapor. Quis retribuir. Deu busca aos ramalhetes retóricos da memória, em procura da flor mais bela. Só achou um bogari humílimo:</p>
<p>— Lindo pensamento para um cartão postal!</p>
<p>Ficaram no bogari. O café com bolinhos de frigideira veio interromper o idílio nascente.</p>
<p>Que noite aquela! Dir-se-ia que o anjo da bonança distendera suas asas de ouro por sobre a casa triste. Via Zilda realizar-se todo o Escrich deglutido. Dona Isaura gozava da possibilidade de casá-la rica. Moreira sonhava quitações de dívidas, com sobras fartas a tilintar-lhe no bolso. Imaginariamente transfeito em comerciante, Zico ficou a noite inteira em sonhos com a gente da Tudinha, que, cativa de tanta gentileza, lhe concedia afinal a ambicionada mão da pequena.</p>
<p>Só Trancoso dormiu o sono das pedras, sem sonhos nem pesadelos. Que bom é ser rico!</p>
<p>No dia imediato visitou o resto da fazenda, cafezais e pastos, examinou criação e benfeitorias. E como o gentil mancebo continuasse no enlevo, Moreira, deliberado na véspera a pedir quarenta contos pela Espiga, julgou de bom aviso elevar o preço. Após a cena do pau d’alho, suspendeu-o mentalmente para quarenta e cinco; findo o exame do gado, já estava em sessenta. E quando foi abordada a magna questão, o velho declarou corajosamente, na voz firme de um alea jacta est:</p>
<p>— Sessenta e cinco — e esperou de pé atrás a ventania.</p>
<p>Trancoso, porém, achou razoável o preço.</p>
<p>— Pois não é caro — disse. Está um preço bem mais razoável do que imaginei.</p>
<p>O velho mordeu os lábios e tentou emendar a mão:</p>
<p>— Sessenta e cinco, mas... o gado fora!</p>
<p>— É justo — respondeu Trancoso.</p>
<p>— E... e fora também os porcos!...</p>
<p>— Perfeitamente.</p>
<p>— ...e a mobília!</p>
<p>— É natural.</p>
<p>O fazendeiro engasgou. Não tinha mais o que excluir, e confessou-se de si para consigo que era uma cavalgadura. Por que não pedira logo oitenta?<br />
Informada do caso, a mulher chamou-o de “pax-vobis”.</p>
<p>— Mas, criatura, por quarenta já era um negocião! — justificou-se o velho.</p>
<p>— Por oitenta seria o dobro. Melhor. Não se defenda. Eu nunca vi Moreira que não fosse palerma e sarambé. É do sangue. Você não tem culpa.</p>
<p>Amuaram um bocado. Mas a ânsia de arquitetar castelos com a imprevista dinheirama varreu para longe a nuvem. Zico aproveitou a aura para insistir nos três contos do estabelecimento, e obteve-os. Dona Isaura desistiu da tal casinha. Lembrava agora outra maior, em rua de procissão — a casa do Eusébio Leite.</p>
<p>— Mas essa é de doze contos — advertiu o marido.</p>
<p>— Mas é outra coisa que não aquele casebre! Muito mais bem repartida. Só não gosto da alcova pegada à copa. Escura...</p>
<p>— Abre-se uma clarabóia.</p>
<p>— Também o quintal precisa de reforma em vez do cercado das galinhas...<br />
Até noite alta, enquanto não vinha o sono, foram remendando a casa, pintando-a, transformando-a na mais deliciosa vivenda da cidade. Estava o casal nos últimos retoques, dorme-não-dorme, quando Zico bateu à porta.</p>
<p>— Três contos não bastam, papai. São precisos cinco. Há a armação, de que não me lembrei, e os direitos, e o aluguel da casa, e mais coisinhas...</p>
<p>Entre dois bocejos o pai concedeu-lhe generosamente seis.</p>
<p>E Zilda? Essa vogava em alto mar de um romance de fadas. Deixemo-la vogar.</p>
<p>Chegou enfim o momento da partida. Trancoso despediu-se. Sentia muito não poder prolongar a deliciosa visita, mas interesses de monta o chamavam. A vida do capitalista não é tão livre como parece... Quanto ao negócio, considerava-o quase feito; daria a palavra definitiva dentro de semana.</p>
<p>Partiu Trancoso, levando um pacote de ovos. Gostara muito da raça de galinhas criadas ali. Também um saco de carás, petisco de que era mui guloso. Levou ainda uma bonita lembrança, o Rosilho do Moreira, o melhor cavalo da fazenda. Tanto gabara o animal durante os passeios, que o fazendeiro se viu na obrigação de recusar uma barganha proposta, e dar-lho de presente.</p>
<p>— Vejam vocês! — disse Moreira, resumindo a opinião geral. — Moço, riquíssimo, direitão, instruído como um doutor, e no entanto amável, gentil, incapaz de torcer o focinho, como os pulhas que cá têm vindo. O que é ser gente!</p>
<p>À velha agradara sobretudo a sem-cerimônia do jovem capitalista. Levar ovos e carás! Que mimo! Todos concordaram, louvando-o cada um a seu modo. E assim, mesmo ausente, o gentil ricaço encheu a casa durante a semana inteira.</p>
<p>Mas a semana transcorreu sem que viesse a ambicionada resposta. E mais outra. E mais outra ainda.<br />
Escreveu-lhe Moreira, já apreensivo, e nada. Lembrou-se de um parente morador na mesma cidade, e endereçou-lhe carta pedindo que obtivesse do capitalista a solução definitiva. Quanto ao preço, abatia alguma coisa. Dava a fazenda por cinqüenta, e até por quarenta, com criação e mobília.</p>
<p>O amigo respondeu sem demora. Ao rasgar o envelope, os quatro corações da Espiga pulsaram violentamente: aquele papel encerrava o destino dos quatro.</p>
<p>Dizia a carta: “Moreira, ou muito me engano ou estás iludido. Não há por aqui nenhum Trancoso Carvalhais, capitalista. Há o Trancosinho, filho da Nha Veva, vulgo Sacatrapo. É um espertalhão que vive de barganhas e sabe iludir aos que o não conhecem. Ultimamente tem corrido o Estado de Minas, de fazenda em fazenda, sob vários pretextos. Finge-se às vezes de comprador, passa uma semana em casa do fazendeiro, a caceteá-lo com passeios pelas roças e exames de divisas; come e bebe do bom, namora as criadas, ou a filha, ou o que encontra — é um vassoura de marca! — e no melhor da festa some-se. Tem feito isto um cento de vezes, mudando sempre de zona. Gosta de variar de tempero, o patife. Como aqui Trancoso só há este, deixo de apresentar ao pulha a tua proposta. Ora, o Sacatrapo a comprar fazenda! Tinha graça”.</p>
<p>O velho caiu numa cadeira, aparvalhado, com a missiva sobre os joelhos. Depois o sangue lhe avermelhou as faces e seus olhos chisparam.</p>
<p>— Cachorro!</p>
<p>As quatro esperanças da casa ruíram com fragor, entre lágrimas da menina, raiva da velha e cólera dos homens. Zico propôs-se a partir incontinenti na pegada do biltre, a fim de quebrar-lhe a cara.</p>
<p>— Deixa, menino! O mundo dá voltas. Um dia cruzo-me com o ladrão e ajusto contas.</p>
<p>Pobres castelos! Nada há mais triste que estes repentinos desmoronamentos de ilusões. Os formosos palácios d’Espanha, erigidos durante um mês à custa da mirífica dinheirama, fizeram-se taperas sombrias. Dona Isaura chorou até os bolinhos, a manteiga e os frangos.</p>
<p>Quanto a Zilda, o desastre operou como um pé-de-vento através da paineira florida. Caiu de cama, febricitante. Encovaram-se-lhe as faces. Todas as passagens trágicas dos romances lidos desfilaram-lhe na memória; reviu-se na vítima de todos eles. E dias a fio pensou no suicídio. Por fim, habituou-se a essa idéia e continuou a viver. Teve azo de verificar que isso de morrer de amores, só em Escrich.</p>
<p>Acaba-se aqui a história. Para a platéia, apenas. Para as torrinhas, segue ainda por meio palmo. As platéias costumam impor umas tantas finuras de bom gosto e tom, muito de rir; entram no teatro depois de começada a peça, e saem mal a ameaça o epílogo.</p>
<p>Já as galerias querem a coisa pelo comprido, a jeito de aproveitar o rico dinheirinho até ao derradeiro vintém. Nos romances e contos, pedem esmiuçamento completo do enredo; e se o autor, levado por fórmulas de escola, lhes arruma para cima, no melhor da festa, com a caudinha reticenciada a que chama “nota impressionista”, franzem o nariz. Querem saber — e fazem muito bem — se Fulano morreu, se a menina casou e foi feliz, se o homem afinal vendeu a fazenda, a quem e por quanto.<br />
Sã, humana e respeitabilíssima curiosidade!</p>
<p>Vendeu a fazenda o pobre Moreira? Pesa-me confessá-lo: não! E não a vendeu por artes do mais inconcebível qüiproquó de quantos tem armado neste mundo o diabo. Sim, porque afora o diabo, quem é capaz de intrincar os fios da meada, com laços e nós cegos, justamente quando vai a feliz remate o crochê?<br />
O acaso deu a Trancoso uma sorte de cinqüenta contos na loteria. Não se riam. Por que motivo não havia Trancoso de ser o escolhido, se a sorte é cega e ele tinha no bolso um bilhete? Ganhou os cinqüenta contos, dinheiro que para um pé-atrás daquela marca era significativo de grande riqueza.</p>
<p>De posse da maquia, após semanas de tonteira, deliberou afazendar-se. Queria tapar a boca ao mundo realizando uma coisa jamais passada pela sua cabeça: comprar fazenda. Correu em revista quantas visitara durante os anos de malandragem, propendendo, afinal, para a Espiga. Ia nisso, sobretudo, a lembrança da menina, dos bolinhos da velha e a idéia de meter na administração o sogro, de jeito a folgar-se uma vida vadia de regalos, embalada pelo amor da Zilda e os requintes culinários da sogra. Escreveu, pois, ao Moreira anunciando-lhe a volta, a fim de fechar-se o negócio.</p>
<p>Ai, ai, ai! Quando tal carta penetrou na Espiga, houve rugidos de cólera, entremeio a bufos de vingança.</p>
<p>— É agora! — berrou o velho. — O ladrão gostou da pândega, e quer repetir a dose. Mas desta feita curo-lhe a balda, ora se curo! — concluiu, esfregando as mãos no antegosto da vingança.</p>
<p>No murcho coração da pálida Zilda, entretanto, bateu um raio de esperança. A noite de su’alma alvorejou ao luar de um “quem sabe?”. Não se atreveu, todavia, a arrostar a cólera do pai e do irmão, concertados ambos num tremendo ajuste de contas. Confiou no milagre. Acendeu outra velinha a Santo Antonio...<br />
O grande dia chegou. Trancoso rompeu à tarde pela fazenda, caracolando o Rosilho. Desceu Moreira a esperá-lo embaixo da escada, de mãos às costas.</p>
<p>Antes de sofrear as rédeas, já o amável patife abria-se em exclamações:</p>
<p>— Ora viva, caro Moreira! Chegou enfim o grande dia. Desta vez, compro-lhe a fazenda.</p>
<p>Moreira tremia. Esperou que o biltre apeasse, e mal Trancoso, lançando as rédeas, dirigiu-se-lhe de braços abertos, todo risos, o velho saca de sob o paletó um rabo de tatu e rompe-lhe para cima ímpeto de queixada.</p>
<p>— Queres fazenda, grandessíssimo tranca? Toma, toma fazenda, ladrão! — E lépt, lépt, finca-lhe rijas rabadas coléricas.</p>
<p>O pobre rapaz, tonteado pelo imprevisto da agressão, corre ao cavalo e monta às cegas, de passo que Zico lhe sacode no lombo nova série de lambadas de agravadíssimo ex-quase-cunhado.</p>
<p>Dona Isaura atiça-lhe cães:</p>
<p>— Pega, Brinquinho! Ferra, Joli!</p>
<p>O mal-azarado comprador de fazendas, acuado como raposa em terreiro, dá de esporas e foge a toda, sob uma chuva de insultos e pedras. Ao cruzar a porteira, inda teve ouvidos para distinguir na grita os desaforos esganiçados da velha:</p>
<p>— Comedor de bolinhos! Papa-manteiga! Toma! Em outra não hás de cair, ladrão de ovo e cará!</p>
<p>E Zilda?</p>
<p>Atrás da vidraça, com os olhos pisados do muito chorar, a triste menina viu desaparecer para sempre, envolto em nuvens de pó, o cavaleiro gentil dos seus dourados sonhos.<br />
Moreira, o caipora, perdia assim naquele dia o único negócio bom que durante a vida inteira lhe deparara a fortuna: o duplo descarte — da filha e da Espiga...</p>
<p><strong>Monteiro Lobato<br />
</strong>Extraído do blog <a href="http://contosbemcontados.blogspot.com" target="_blank">Contos bem Contados</a></p>
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</item>
<item>
<title><![CDATA[GP de Canadá - Clasificación en diferido]]></title>
<link>http://f1zado.wordpress.com/?p=64</link>
<pubDate>Sat, 07 Jun 2008 15:46:48 +0000</pubDate>
<dc:creator>Lochi</dc:creator>
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<description><![CDATA[¿Qué le pasa a Telecinco? ¿Tan mal le ha sentado que laSexta se haya hecho con los derechos de la]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>¿Qué le pasa a <a href="http://www.telecinco.es/" target="_blank">Telecinco</a>? ¿Tan mal le ha sentado que <a href="http://www.lasexta.com/" target="_blank">laSexta</a> se haya hecho con los derechos de la Fórmula 1 para el año que viene?</p>
<p>Si ya de por sí la cadena nos ha maltratado muchas veces a los seguidores fieles no retransmitiendo las ruedas de prensa porsteriores a clasificaciones y carreras en caso de no estar Alonso en ella, ahora encima nos van a meter esta tarde la clasificación para el GP de Canadá en diferido tal y como se puede ver por las horas de retransmisión que aparecen en la siguiente imagen que he recopilado yo con las webs de Telecinco,<a href="http://www.tv3.cat/" target="_blank"> TV3</a> y la <a href="http://www.formula1.com/" target="_blank">oficial de la Fórmula 1</a> (como siempre, pinchad en la imagen para verla en grande):</p>
<p style="text-align:center;"><a href="http://img411.imageshack.us/img411/5469/telesmt5.jpg" target="_blank"><img src="http://img411.imageshack.us/img411/5469/telesmt5.jpg" alt="" width="460" height="134" /></a></p>
<p style="text-align:left;">Así que hoy tenemos dos opciones. La gente que viva en Cataluña (no es mi caso) puede ver los entrenamientos por su cadena autonómica y el resto o nos aguantamos con la retransmisión en diferido o, aún mejor, podemos ver los entrenamientos <a href="http://stream.ra1kkonen.com/simulcastPlayer_02.swf" target="_blank">aquí</a> mientras utilizamos el <a href="http://www.formula1.com/services/live_timing/" target="_blank">Live Timing</a> de la web oficial para tener acceso a todos los tiempos. Yo voy a tratar de utilizar Internet para seguir todo lo que suceda hoy ya que me parece vergonzoso que hagan esto.</p>
<p style="text-align:left;">¿No quieren coincidir con ese "partidazo" inaugural de la Eurocopa entre Suiza y la República Checa? Por Dios, que no es un partido que vaya a romper moldes, señores.</p>
<p style="text-align:left;">
Al menos Lobato ha dado la cara en <a href="http://antoniolobatof1.blogspot.com/2008/06/mal-mal-mal-pero-no-tanto.html" target="_blank">su blog</a> y se ha disculpado un poco por algo que a él tampoco le gusta:</p>
<p style="text-align:left;padding-left:30px;"><em>Mañana la clasificación la vamos a emitir con un 45 minutos de diferido. Sí, lo sé, a mí tampoco me gusta, pero el departamento de programación de Telecinco ha decidido esto y no hay más que hablar. Sus razones tendrán para hacerlo y ellos saben mucho más que yo. A cambio, vamos a hacer un previo de unos quince minutos para poneros al corriente de todo lo que haya pasado.</em></p>
<p style="text-align:left;">Ya de paso aprovecho para pasar <a href="http://www.petitiononline.com/tele9915/petition.html" target="_blank">este enlace</a> a los que quieran luchar por lograr que veamos los entrenamientos libres. Dudo que sirva para algo, pero el que no llora, no mama.</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[¡Lobato se sube en un F1!]]></title>
<link>http://ruedascalientes.wordpress.com/?p=35</link>
<pubDate>Thu, 05 Jun 2008 15:40:05 +0000</pubDate>
<dc:creator>Daniel</dc:creator>
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<description><![CDATA[
Antonio Lobato, el comentarista de la Fórmula 1 de Telecinco, se ha subido a un Fórmula 1 en el c]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://ruedascalientes.files.wordpress.com/2008/06/brief.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-36" src="http://ruedascalientes.wordpress.com/files/2008/06/brief.jpg" alt="Lobato" width="400" height="300" /></a></p>
<p>Antonio Lobato, el comentarista de la Fórmula 1 de Telecinco, se ha subido a un Fórmula 1 en el circuito de Paul Ricard gracias a una invitación de ING, hecho que ha descrito como "uno de los días más divertidos de mi vida profesional".</p>
<p>Dice que "mi experiencia con el F1 la podréis ver en el previo del domingo".</p>
<p>En Telecinco veremos como lo pasó Lobato en un F1. Seguro que ha tenido un poco de miedo, pero a la vez se lo habrá pasado bien  por la gran experiencia que ha vivido.</p>
<p>El coche es un híbrido. Un chasis de un Renault R23, con motor de un R25 y aerodinámica del 2006, limitado.</p>
<p><a href="http://ruedascalientes.files.wordpress.com/2008/06/corto.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-37" src="http://ruedascalientes.wordpress.com/files/2008/06/corto.jpg" alt="Lobato" width="400" height="300" /></a></p>
<p>Antonio ha dicho que "cuando esté en Montreal y tenga tiempo ya os contaré la historia". Vaya suerte que tiene.</p>
<p>Aquí podéis ver unos vídeos de otras experiencias que ha tenido Antonio:</p>
<p><span style='text-align:center; display: block;'><object width='425' height='350'><param name='movie' value='http://www.youtube.com/v/_DQUg4g2t5k'></param><param name='wmode' value='transparent'></param><embed src='http://www.youtube.com/v/_DQUg4g2t5k&rel=0' type='application/x-shockwave-flash' wmode='transparent' width='425' height='350'></embed></object></span></p>
<p><span style='text-align:center; display: block;'><object width='425' height='350'><param name='movie' value='http://www.youtube.com/v/AbqR-KmLJ_w'></param><param name='wmode' value='transparent'></param><embed src='http://www.youtube.com/v/AbqR-KmLJ_w&rel=0' type='application/x-shockwave-flash' wmode='transparent' width='425' height='350'></embed></object></span></p>
<p><span style='text-align:center; display: block;'><object width='425' height='350'><param name='movie' value='http://www.youtube.com/v/dEljyVOiwJo'></param><param name='wmode' value='transparent'></param><embed src='http://www.youtube.com/v/dEljyVOiwJo&rel=0' type='application/x-shockwave-flash' wmode='transparent' width='425' height='350'></embed></object></span></p>
<p>Es un comentarista con mucha suerte.</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Alonso decimo y hamilton ganador]]></title>
<link>http://desface.wordpress.com/?p=1041</link>
<pubDate>Sun, 25 May 2008 16:18:53 +0000</pubDate>
<dc:creator>omega666</dc:creator>
<guid>http://desface.wordpress.com/?p=1041</guid>
<description><![CDATA[Bueno pues tras una apasionante y accidentada carrera en monaco Alonso a acabado en la decima posici]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Bueno pues tras una apasionante y accidentada carrera en monaco Alonso a acabado en la decima posicion mientras k el hamilton a acabado primero. Tras una salida en la que Alonso a conseguido salir sexto ya que Kovalainen se a quedado parado en la vuelta de calentamiento y que escalo una posicion al pasar a rosberg en la salida, hamilton paso a raikonen en la salida. En cuanto empezo la lluvia empezaron los problemas, Alonso entro en boxes y pueso ruedas de lluvia extrema, hamilton tuvo un accidente en el k perdio una rueda pero al final consiguio entrar a boxes y salvar la carrera (suerte k tiene el muy......) raikonen tuvo que soportar un drive throught por un problema con las ruedas. Alonso sufrio un pinchazo que le hizo perder posiciones y despues tras haber recuperado muchos puestos y al tratar de pasar a Heidfield que tenia problemas con su coche a tenido un toque con el en el que Alonso a roto el aleron delantero y tuvo que entrar a boxes para que se lo cambiaran, quedando asi el ultimo. Mas tarde remonto puestos a base de adelantamientos y abandonos. Nelsinho Piquet sigue con su mala racha ya que ha vuelto a romper al estrellarse contra un muro.</p>
<p>Una carrera llena de trompos, accidentes pero tambien de buena conduccion, en definitiva una gran carrera aunk no se hayan completado todas las vueltas.</p>
<p>Al final acabaron la carrera 15 pilotos.</p>
<p>Los que acabaron fuera fueron: Sutil(que estaba haciendo una gran carrera), Rosberg, Piquet, Coulthard, Fisichella y Bourdais.</p>
<p>Buena carrera tambien de Kovalainen.</p>
<p>Podio: Hamilton, Kubica, Massa</p>
<p><img class="alignnone" src="http://laf1.nireblog.com/blogs/laf1/files/loews.JPG" alt="" width="440" height="286" /></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Pai do Dois Bicos]]></title>
<link>http://contosdocovil.wordpress.com/?p=151</link>
<pubDate>Sat, 17 May 2008 19:48:41 +0000</pubDate>
<dc:creator>Snaga</dc:creator>
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<description><![CDATA[Um morcego estonteado pousou certa vez no ninho da coruja, e ali ficaria de dentro se a coruja ao re]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Um morcego estonteado pousou certa vez no ninho da coruja, e ali ficaria de dentro se a coruja ao regressar não investisse contra ele.</p>
<p>- Miserável bicho! Pois te atreves a entrar em minha casa, sabendo que odeio a família dos ratos?</p>
<p>- Achas então que sou rato? Não tenho asas e não vôo como tu? Rato, eu? Essa é boa!...</p>
<p>A coruja não sabia discutir e, vencida de tais razões, poupou-lhe a pele.</p>
<p>Dias depois, o finório morcego planta-se no casebre do gato-do-mato. O gato entra, dá com ele e chia de cólera.</p>
<p>- Miserável bicho! Pois te atreves a entrar em minha toca, sabendo que detesto as aves?</p>
<p>- E quem te disse que sou ave? - retruca o cínico - sou muito bom bicho de pêlo, como tu, não vês?</p>
<p>- Mas voas!...</p>
<p>- Vôo de mentira, por fingimento...</p>
<p>- Mas tem asas!</p>
<p>- Asas? Que tolice! O que faz a asa são as penas e quem já viu penas em morcego? Sou animal de pêlo, dos legítimos, e inimigo das aves como tu. Ave, eu? É boa...</p>
<p>O gato embasbacou, e o morcego conseguiu retirar-se dali são e salvo.</p>
<p><em>Moral da Estória: </em><br />
O segredo de certos homens está nesta política do morcego. É vermelho? Tome vermelho. É branco? Viva o branco!</p>
<p><strong>Monteiro Lobato</strong><br />
Extraído do site <a href="http://br.geocities.com/universodasfabulas/" target="_blank">Universo das Fábulas</a></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Os Dois Ladrões]]></title>
<link>http://contosdocovil.wordpress.com/?p=150</link>
<pubDate>Sat, 17 May 2008 19:47:00 +0000</pubDate>
<dc:creator>Snaga</dc:creator>
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<description><![CDATA[Dois ladrões de animais furtaram certa vez um burro, e como não pudessem reparti-lo em dois pedaç]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Dois ladrões de animais furtaram certa vez um burro, e como não pudessem reparti-lo em dois pedaços surgiu a briga.</p>
<p>- O burro é meu! - alegava um - o burro é meu porque eu o vi primeiro...</p>
<p>- Sim - argumentava o outro - você o viu primeiro; mas quem primeiro o segurou fui eu. Logo, é meu...</p>
<p>Não havendo acordo possível, engalfinharam-se, rolaram na poeira aos socos e dentadas.</p>
<p>Enquanto isso um terceiro ladrão surge, monta no burro e foge a galope.</p>
<p>Finda a luta, quando os ladrões se ergueram, moídos da sova, rasgados, esfolados...</p>
<p>- Que é do burro? Nem sombra! Riam-se - risadinha amarela - e um deles, que sabia latim, disse:</p>
<p>- Inter duos litigantes tertius gaudet.</p>
<p>Que quer dizer: quando dois brigam, lucra um terceiro mais esperto.</p>
<p><strong>Monteiro Lobato</strong><br />
Extraído do site <a href="http://br.geocities.com/universodasfabulas/" target="_blank">Universo das Fábulas</a></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Os Dois Burrinhos]]></title>
<link>http://contosdocovil.wordpress.com/?p=149</link>
<pubDate>Sat, 17 May 2008 19:44:57 +0000</pubDate>
<dc:creator>Snaga</dc:creator>
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<description><![CDATA[Muito lampeiros, dois burrinhos de tropa seguiam trotando pela estrada além. O da frente conduzia b]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Muito lampeiros, dois burrinhos de tropa seguiam trotando pela estrada além. O da frente conduzia bruacas de ouro em pó; e o de trás, simples sacos de farelo. Embora burros da mesma igualha, não queria ser o primeiro que o segundo lhe caminhasse ao lado.</p>
<p>- Alto lá! - dizia ele - não se emparelhe comigo, que quem carrega ouro não é do mesmo naipe de quem conduz feno. Guarde cinco passos de distância e caminhe respeitoso como se fosse um pajem.</p>
<p>O burrinho do farelo submetia-se e lá trotava, de orelhas murchas, roendo-se de inveja do fidalgo...</p>
<p>De repente...</p>
<p>Osh! Oah! São ladrões da montanha que surgem de trás de um tronco e agarram os burrinhos pelos cabrestos.</p>
<p>Examinam primeiramente a carga do burro humilde e, - Farelo! - exclamaram desapontados - o demo o leve! Vejamos se há coisa de mais valor no da frente.</p>
<p>- Ouro, ouro! - gritam, arregalando os olhos. E atiram-se ao saque.</p>
<p>Mas o burrinho resiste. Desfere coices e dispara pelo campo afora. Os ladrões correm atrás, cercam-no e lhe dão em cima, de pau e pdra. Afinal saqueiam-no.</p>
<p>Terminada a festa, o burrinho do ouro, mais morto que vivo e tão surrado que nem suster-se em pé podia, reclama o auxílio do outro que muito fresco da vida tosava o capim sossegadamente.</p>
<p>- Socorro, amigo! Venha acudir-me que estou descadeirado...</p>
<p>O burrinho do farelo respondeu zombeteiramente:</p>
<p>- Mas poderei por acaso aproximar-me de Vossa Excelência?</p>
<p>- Como não? Minha fidalguia estava dentro da bruaca e lá se foi nas mãos daqueles patifes. Sem as brucas de ouro no lombo, sou uma pobre besta igual a você...</p>
<p>- Bem sei. Você é como certos grandes homens do mundo que só valem pelo cargo que ocupam. No fundo, simples bestas de carga, eu, tu, eles...</p>
<p>E ajudou-o a regressar para casa, decorando, para uso próprio, a lição que ardia no lombo do vaidoso.</p>
<p><strong>Monteiro Lobato<br />
</strong>Extraído do site <a href="http://br.geocities.com/universodasfabulas/" target="_blank">Universo das Fábulas</a></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Os Animais e a Peste]]></title>
<link>http://contosdocovil.wordpress.com/?p=148</link>
<pubDate>Sat, 17 May 2008 19:41:14 +0000</pubDate>
<dc:creator>Snaga</dc:creator>
<guid>http://contosdocovil.wordpress.com/?p=148</guid>
<description><![CDATA[Em certo ano terrível de peste entre os animais, o leão, mais apreensivo, consultou um macaco de b]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Em certo ano terrível de peste entre os animais, o leão, mais apreensivo, consultou um macaco de barbas brancas.</p>
<p>- Esta peste é um castigo do céu - respondeu o macaco - e o remédio é aplacarmos a cólera divina sacrificando aos deuses um de nós.</p>
<p>- Qual? - perguntou o leão.</p>
<p>- O mais carregado de crimes.</p>
<p>O leão fechou os olhos, concentrou-se e, depois duma pausa, disse aos súditos reunidos em redor:</p>
<p>- Amigos! É fora de dúvida que quem deve sacrificar-se sou eu. Cometi grandes crimes, matei centenas de veados, devorei inúmeras ovelhas e até vários pastores. Ofereço-me, pois, para o acrifício necessário ao bem comum.</p>
<p>A raposa adiantou-se e disse:</p>
<p>- Acho conveniente ouvir a confissão das outras feras. Porque, para mim, nada do que Vossa Majestade alegou constitui crime. São coisas que até que honram o nosso virtuosíssimo rei Leão.</p>
<p>Grandes aplausos abafaram as últimas palavras da bajuladora e o leão foi posto de lado como impróprio para o sacrifício.</p>
<p>Apresentou-se em seguida o tigre e repete-se a cena. Acusa-se de mil crimes, mas a raposa mostra que também ele era um anjo de inocência.</p>
<p>E o mesmo aconteceu com todas as outras feras.</p>
<p>Nisto chega a vez do burro. Adianta-se o pobre animal e diz:</p>
<p>- A consciência só me acusa de haver comido uma folha de couve da horta do senhor vigário.</p>
<p>Os animais entreolharam-se. Era muito sério aquilo. A raposa toma a palavra:</p>
<p>- Eis amigos, o grande criminoso! Tão horrível o que ele nos conta, que é inútil prosseguirmos na investigação. A vítima a sacrificar-se aos deuses não pode ser outra porque não pode haver crime maior do que furtar a sacratíssima couve do senhor vigário.</p>
<p>Toda a bicharada concordou e o triste burro foi unanimamente eleito para o sacrifício.</p>
<p><em>Moral da Estória: </em><br />
Aos poderosos, tudo se desculpa...<br />
Aos miseráveis, nada se perdoa.</p>
<p><strong>Monteiro Lobato</strong><br />
Extraído do site <a href="http://br.geocities.com/universodasfabulas/" target="_blank">Universo das Fábulas</a></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[O Rabo do Macaco]]></title>
<link>http://contosdocovil.wordpress.com/?p=147</link>
<pubDate>Sat, 17 May 2008 19:37:35 +0000</pubDate>
<dc:creator>Snaga</dc:creator>
<guid>http://contosdocovil.wordpress.com/?p=147</guid>
<description><![CDATA[Era um macaco que resolveu sair pelo mundo a fazer negócios. Pensou, pensou e foi colocar-se numa e]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Era um macaco que resolveu sair pelo mundo a fazer negócios. Pensou, pensou e foi colocar-se numa estrada, por onde vinha vindo, lá longe, um carro de boi. Atravessou a cauda na estrada e ficou esperando.  Quando o carro chegou e o carreiro viu aquele rabo atravessado, deteve-se e disse:</p>
<p>- Macaco, tire o rabo da estrada, senão passo por cima!</p>
<p>- Não tiro! - respondeu o macaco - e o carreiro passou e a roda cortou o rabo do macaco.</p>
<p>O bichinho fez um barulho medonho.</p>
<p>- Eu quero o meu rabo, eu quero o meu rabo ou então uma faca!</p>
<p>Tanto atormentou o carreiro que este sacou da cintura a faca e disse:</p>
<p>- Tome lá, seu macaco dos quintos, mas pare com esse berreiro, que está me deixando zonzo.</p>
<p>O macaco lá se foi, muito contente da vida, com a sua faca de ponta na mão.</p>
<p>- Perdi meu rabo, ganhei uma faca! Tinglin, tinglin, vou agora para Angola!</p>
<p>Seguiu caminho.</p>
<p>Logo adiante deu com um tio velho que estava fazendo balaios e cortava o cipó com os dentes.</p>
<p>- Olá amigo! - berrou o macaco - estou com dó de você, palavra! Tome esta faca de ponta.</p>
<p>O negro pegou a faca mas quando foi cortar o primeiro cipó a faca se partiu pelo meio.</p>
<p>O macaco botou a boca no mundo - eu quero, eu quero minha faca ou então um balaio!</p>
<p>O negro, tonto com aquela gritaria, acabou dando um balaio velho para aquela peste de macaco que, muito contente da vida, lá se foi cantarolando:</p>
<p>- Perdi meu rabo, ganhei uma faca; perdi minha faca, pilhei um balaio! Tinglin, tinglin, vou agora para Angola!</p>
<p>Seguiu caminho.</p>
<p>Mais adiante encontrou uma mulher tirando pães do forno, que recolhia na saia.</p>
<p>- Ora, minha sinhá - disse o macaco, onde já se viu recolher pão no colo? Ponha-os neste balaio.</p>
<p>A mulher aceitou o balaio, mas quando começou a botar os pães dentro, o balaio furou.</p>
<p>O macaco pôs a boca no mundo.</p>
<p>- Eu quero, eu quero o meu balaio ou então me dê um pão.</p>
<p>Tanto gritou que a mulher, atordoada, deu-lhe um pão. E o macaco saiu a pular, cantarolando:</p>
<p>- Perdi meu rabo, ganhei uma faca; perdi minha faca, pilhei um balaio; perdi meu balaio, ganhei um pão. Tinglin, tinglin, vou agora para Angola!</p>
<p>E lá se foi muito contente da vida, comendo o pão.</p>
<p><strong>Monteiro Lobato<br />
</strong>Extraído do site <a href="http://br.geocities.com/universodasfabulas/" target="_blank">Universo da Fábulas</a></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[O Macaco e o Coelho]]></title>
<link>http://contosdocovil.wordpress.com/?p=146</link>
<pubDate>Sat, 17 May 2008 19:32:50 +0000</pubDate>
<dc:creator>Snaga</dc:creator>
<guid>http://contosdocovil.wordpress.com/?p=146</guid>
<description><![CDATA[Um macaco e um coelho fizeram a combinação de um matar as borboletas e outro matar as cobras. Logo]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Um macaco e um coelho fizeram a combinação de um matar as borboletas e outro matar as cobras. Logo depois o coelho dormiu. O macaco veio e puxou-lhe as orelhas.</p>
<p>- O que é isso? - gritou o coelho, acordando num pulo.</p>
<p>O macaco deu uma risada.</p>
<p>- Ah, ah! Pensei que fossem duas borboletas...</p>
<p>O coelho danou com a brincadeira e disse lá consigo: "Espere que te curo."</p>
<p>Logo depois o macaco se sentou numa pedra para comer uma banana. O coelho veio por trás, com um pau e lept! - pregou-lhe uma grande paulada no rabo.</p>
<p>O macaco deu um berro, pulando para cima duma árvore, a gemer.</p>
<p>- Desculpe, amigo - disse lá embaixo o coelho - vi aquele rabo torcidinho em cima da pedra e pensei que fosse cobra.</p>
<p>Foi desde aí que o coelho, de medo do macaco vingar-se, passou a morar em buracos.</p>
<p><strong>Monteiro Lobato</strong><br />
Extraído do site <a href="http://br.geocities.com/universodasfabulas/" target="_blank">Universo das Fábulas</a></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[O Jabuti e a Peúva]]></title>
<link>http://contosdocovil.wordpress.com/?p=145</link>
<pubDate>Sat, 17 May 2008 19:30:12 +0000</pubDate>
<dc:creator>Snaga</dc:creator>
<guid>http://contosdocovil.wordpress.com/?p=145</guid>
<description><![CDATA[Brigaram certa vez o jabuti e a peúva.
- Deixa estar! - disse esta furiosa - deixa estar que te cur]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Brigaram certa vez o jabuti e a peúva.</p>
<p>- Deixa estar! - disse esta furiosa - deixa estar que te curo, meu malandro! Prego-te uma peça das boas, verás...</p>
<p>E ficou de sobreaviso, com os olhos no astucioso bichinho que lá se ria dela sacudindo os ombros. O tempo foi correndo... o jabuti esqueceu-se do caso; e um belo dia, distraidamente, passou ao alcance da peúva. A árvore incontinenti torceu-se, estalou e caiu em cima dela.</p>
<p>- Toma! Quero ver agora como te arrumas. Estás entalado e, como sabes, sou pau que dura para cem anos...</p>
<p>O jabuti não se deu por vencido.</p>
<p>Encorujou-se dentro da casca, cerrou os olhos como para dormir e disse filosoficamente:</p>
<p>- Pois como eu durmo mais de cem, esperarei que apodreças...</p>
<p><em>Moral da Estória: </em><br />
A paciência da conta dos maiores obstáculos.</p>
<p><strong>Monteiro Lobato</strong><br />
Extraído do site <a href="http://br.geocities.com/universodasfabulas/" target="_blank">Universo das Fábulas</a></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[O Gato Vaidoso]]></title>
<link>http://contosdocovil.wordpress.com/?p=144</link>
<pubDate>Sat, 17 May 2008 19:27:15 +0000</pubDate>
<dc:creator>Snaga</dc:creator>
<guid>http://contosdocovil.wordpress.com/?p=144</guid>
<description><![CDATA[Moravam na mesma casa dois gatos iguaizinhos no pêlo mas desiguais na sorte. Um, amimado pela dona,]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Moravam na mesma casa dois gatos iguaizinhos no pêlo mas desiguais na sorte. Um, amimado pela dona, dormia em almofadões. Outro, no borralho. Um passava a leite e comia em colo. O outro, por feliz, se dava com as espinhas de peixe do lixo.</p>
<p>Certa vez, cruzaram-se no telhado e o bichano de luxo arrepiou-se todo, dizendo:</p>
<p>- Passa ao largo, vagabundo! Não vês que és pobre e eu sou rico? Que és gato de cozinha e eu sou gato de salão? Respeita-me, pois, e passa ao largo...</p>
<p>- Alto lá, senhor orgulhoso! Lembra-te de que somos irmãos, criados no mesmo ninho.</p>
<p>- Sou nobre. Sou mais que tu!</p>
<p>- Em quê? Não mias como eu?</p>
<p>- Mio.</p>
<p>- Não tens rabo como eu?</p>
<p>- Tenho.</p>
<p>- Não caças ratos como eu?</p>
<p>- Caço.</p>
<p>- Não comes rato como eu?</p>
<p>- Como.</p>
<p>- Logo, não passas dum simples gato igual a mim. Abaixa, pois a crista desse orgulho e lembra-te que mais nobreza do que eu não tens - o que tens é apenas um bocado mais de sorte...</p>
<p><strong>Monteiro Lobato</strong><br />
Extraído do site <a href="http://br.geocities.com/universodasfabulas/" target="_blank">Universo das Fábulas</a></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Mal Maior]]></title>
<link>http://contosdocovil.wordpress.com/?p=143</link>
<pubDate>Sat, 17 May 2008 19:23:50 +0000</pubDate>
<dc:creator>Snaga</dc:creator>
<guid>http://contosdocovil.wordpress.com/?p=143</guid>
<description><![CDATA[- O Sol vai casar-se! - anunciou um bem-te-vi boateiro - viva o Sol!
- Viva? - exclamaram as rãs, a]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>- O Sol vai casar-se! - anunciou um bem-te-vi boateiro - viva o Sol!</p>
<p>- Viva? - exclamaram as rãs, assustadas - não diga isso, pelo amor de Deus... Um Sol apenas já nos dá o que fazer. Seca os brejos e nos deixa às vezes a ponto de morrermos de sede. E é um só... imaginem agora que se casa e além do senhor Sol também teremos que aturar dona Sol e os sóis filhinhos... Será a maior das calamidades, porque então unicamente as pedras poderão resistir à fúria da família de fogo.</p>
<p><em>Moral da Estória: </em><br />
1. Assim é. O mundo está bem equilibrado e qualquer coisa que rompa a sua ordem resulta em males para os viventes. Fique solteiro o Sol e não enviúve quem é casado.</p>
<p>2. Qualquer mudança pode prejudicar alguém.</p>
<p><strong>Monteiro Lobato</strong><br />
Extraído do site <a href="http://br.geocities.com/universodasfabulas/" target="_blank">Universo das Fábulas</a></p>
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</item>
<item>
<title><![CDATA[As Duas Panelas]]></title>
<link>http://contosdocovil.wordpress.com/?p=142</link>
<pubDate>Sat, 17 May 2008 19:21:52 +0000</pubDate>
<dc:creator>Snaga</dc:creator>
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<description><![CDATA[Duas panelas, uma de ferro, orgulhosa, outra de barro, humilde, moravam na mesma cozinha; e como est]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Duas panelas, uma de ferro, orgulhosa, outra de barro, humilde, moravam na mesma cozinha; e como estivessem vazias, a bocejarem de vadiação, disse a graúda:</p>
<p>- Bela tarde para um giro pela horta! A cozinheira não está e até que venha, teremos tempo de dizer adeus à alface e fazer uma visita aos repolhos. Queres ir?</p>
<p>- Com todo o prazer! - respondeu a panela de barro lisonjeadíssima de honrosa companhia.</p>
<p>- Dá-me o braço então, e vamo-nos depressa antes que "ela" venha.</p>
<p>Assim fizeram, e lá se foram as duas desajeitadonas gingando os corpos ventrudos, cheias de amabilidade para com as hortaliças.</p>
<p>- Bom dia, dona Couve! Comendador Repolho, como passas! Coentrinho, adeus!</p>
<p>No melhor da festa, porém, a panela de ferro falseou o pé e esbarrou na amiga.</p>
<p>- Ai que me trincas! exclamou esta.</p>
<p>- Não foi nada, não foi nada...</p>
<p>Uns passos a mais e novo choque.</p>
<p>- Ai que desbeiças, amiga!</p>
<p>- Em casa arruma-se, não é nada...</p>
<p>Minutos depois terceiro esbarrão, esse formidável.</p>
<p>- Ai! Ai! Ai! Ai! Fizeste-me em pedaços, ingrata!</p>
<p>E a mísera panela de barro caiu por terra a gemer, reduzida a cacos.</p>
<p><strong>Monteiro Lobato</strong><br />
Extraído do site <a href="http://br.geocities.com/universodasfabulas/" target="_blank">Universo das Fábulas</a></p>
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</item>
<item>
<title><![CDATA[As Duas Cachorras]]></title>
<link>http://contosdocovil.wordpress.com/?p=141</link>
<pubDate>Sat, 17 May 2008 19:18:14 +0000</pubDate>
<dc:creator>Snaga</dc:creator>
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<description><![CDATA[Moravam no mesmo bairro. Uma era boa e caridosa; outra, má e ingrata.
A boa, como fosse diligente, ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Moravam no mesmo bairro. Uma era boa e caridosa; outra, má e ingrata.<br />
A boa, como fosse diligente, tinha a casa bem arranjadinha; a má, como fosse vagabunda, vivia ao léu, sem eira nem beira.<br />
Certa vez... a má, em véspera de dar cria, foi pedir agasalho à boa:<br />
- Fico aqui num cantinho até que meus filhotes possam sair comigo. É por eles que peço...<br />
A boa cedeu-lhe a casa inteira, generosamente.<br />
Nasceu a ninhada, e os cachorrinhos já estavam de olhos abertos quando a dona da casa voltou.<br />
- Podes entregar-me a casa agora?<br />
A má pôs-se a choramingar.<br />
- Ainda não, generosa amiga. Como posso viver na rua com filhinhos tão novos? Conceda-me um novo prazo.<br />
A boa concedeu mais quinze dias, ao termo dos quais voltou.<br />
- Vai sair agora?<br />
- Paciência, minha velha, preciso de mais um mês.<br />
A boa concedeu mais quinze dias; e ao terminar o último prazo voltou.<br />
Mas desta vez a intrusa, rodeada dos filhos já crescidos, robustos e de dentes arreganhados, recebeu-a com insolência:<br />
- Quer a casa? Pois venha tomá-la, se é capaz...</p>
<p><em>Moral da Estória: </em><br />
Para os maus, pau!</p>
<p>Monteiro Lobato<br />
Extraído do site <a href="http://br.geocities.com/universodasfabulas/" target="_blank">Universo das Fábulas</a></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[A Garça Velha]]></title>
<link>http://contosdocovil.wordpress.com/?p=140</link>
<pubDate>Sat, 17 May 2008 19:17:05 +0000</pubDate>
<dc:creator>Snaga</dc:creator>
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<description><![CDATA[Certa garça nascera, crescera e sempre vivera à margem duma lagoa de águas turvas, muito rica em ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Certa garça nascera, crescera e sempre vivera à margem duma lagoa de águas turvas, muito rica em peixes. Mas o tempo corria e ela envelhecia. Seus músculos cada vez mais emperrados, os olhos cansados - com que dificuldade ela pescava!</p>
<p>- Estou mal de sorte, e se não topo com um viveiro de peixes em águas bem límpidas, certamente que morrerei de fome. Já se foi o tempo feliz em que meus olhos penetrantes zombavam do turvo desta lagoa...</p>
<p>E de pé num pé só, o longo bico pendurado, pôs-se a matutar naquilo até que lhe ocorreu uma idéia.</p>
<p>- Caranguejo, venha cá ! - disse ela a um caranguejo que tomava sol à porta do seu buraco.</p>
<p>- Às ordens. Que deseja?</p>
<p>- Avisar a você duma coisa muito séria. A nossa lagoa está condenada. O dono das terras anda a convidar os vizinhos para assistirem ao seu esvaziamento e o ajudarem a apanhar a peixaria toda. Veja que desgraça! Não vai escapar nem um miserável guaru.</p>
<p>O caranguejo arrepiou-se com a má notícia. Entrou na água e foi contá-la aos peixes.</p>
<p>Grande rebuliço. Graúdos e pequeninos, todos começaram a pererecar às tontas, sem saberem como agir. E vieram para a beira d'água.</p>
<p>- Senhora dona do bico longo, dê-nos um conselho, por favor, que nos livre da grande calamidade.</p>
<p>- Um conselho?</p>
<p>E a matreira fingiu refletir. Depois respondeu.</p>
<p>- Só vejo um caminho. É mudarem-se todos para o poço da Pedra Branca.</p>
<p>- Mudar-se como, se não há ligação entre a lagoa e o poço?</p>
<p>- Isso é o de menos. Cá estou eu para resolver a dificuldade. Transporto a peixaria inteira no meu bico.</p>
<p>Não havendo outro remédio, aceitaram os peixes aquele alvitre - e a garça os mudou a todos para o tal poço, que era um tanque de pedra, pequenininho, de águas sempre límpidas e onde ela sossegadamente poderia pescá-los até o fim da vida.</p>
<p><em>Moral da Estória: </em><br />
Ninguém acredite em conselho de inimigo.</p>
<p><strong>Monteiro Lobato</strong><br />
Extraído do site <a href="http://br.geocities.com/universodasfabulas/" target="_blank">Universo das Fábulas</a></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[O Burro Juiz]]></title>
<link>http://contosdocovil.wordpress.com/?p=103</link>
<pubDate>Thu, 15 May 2008 21:04:45 +0000</pubDate>
<dc:creator>Snaga</dc:creator>
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<description><![CDATA[Disputava a gralha com o sabiá, afirmando que a sua voz valia a dele. Como as outras aves rissem da]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Disputava a gralha com o sabiá, afirmando que a sua voz valia a dele. Como as outras aves rissem daquela pretensão, a bulhenta matraca de penas, furiosa, disse:<br />
— Nada de brincadeiras. Isto é uma questão muito séria, que deve ser decidida por um juiz. Canta o sabiá, canto eu, e a sentença do julgador decidirá quem é o melhor artista. Topam?— Topamos! piaram as aves. Mas quem servirá de juiz?<br />
Estavam a debater este ponto, quando zurrou um burro.<br />
— Nem de encomenda! exclamou a gralha. Está lá um juiz de primeiríssima para julgamento de música, pois nenhum animal possui maiores orelhas. Convidê-mo-lo.Aceitou o burro o juizado e veio postar-se no centro da roda.<br />
— Vamos lá, comecem! ordenou ele.<br />
O sabiá deu um pulinho, abriu o bico e cantou. Cantou como só cantam sabiás, garganteando os trinos mais melodiosos e límpidos. Uma pura maravilha, que deixou mergulhado em êxtase o auditório em peso.<br />
— Agora eu! disse a gralha, dando um passo à frente.<br />
E abrindo a bicanca matraqueou uma grita de romper os ouvidos aos próprios surdos.Terminada a justa, o meritíssimo juiz deu a sentença:<br />
— Dou ganho de causa à excelentíssima senhora dona Gralha, porque canta muito mais forte que mestre sabiá. (*)</p>
<p>Moral da História:<br />
*Quem burro nasce, togado ou não, burro morre.</p>
<p><strong>Monteiro Lobato</strong><br />
Extraído do <a href="http://www.releituras.com/mlobato_burro.asp" target="_blank">Projeto Releituras</a></p>
]]></content:encoded>
</item>
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<title><![CDATA[Urupês]]></title>
<link>http://contosdocovil.wordpress.com/?p=98</link>
<pubDate>Thu, 15 May 2008 20:26:14 +0000</pubDate>
<dc:creator>Snaga</dc:creator>
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<description><![CDATA[Esboroou-se o balsâmico indianismo de Alencar ao advento dos Rondons que, ao invés de imaginarem ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Esboroou-se o balsâmico indianismo de Alencar ao advento dos Rondons que, ao invés de imaginarem índios num gabinete, com reminiscências de Chateaubriand na cabeça e a <em>Iracema </em>aberta sobre os joelhos, metem-se a palmilhar sertões de Winchester em punho.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Morreu Peri, incomparável idealização dum homem natural como o sonhava Rousseau, protótipo de tantas perfeições humanas que no romance, ombro a ombro com altos tipos civilizados, a todos sobrelevava em beleza d'alma e corpo.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Contrapôs-lhe a cruel etnologia dos sertanistas modernos um selvagem real, feio e brutesco, anguloso e desinteressante, tão incapaz, muscularmente, de arrancar uma palmeira, como incapaz, moralmente, de amar Ceci.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Por felicidade nossa - a de D. Antonio de Mariz - não os viu Alencar; sonhou-os qual Rousseau. Do contrário lá teríamos o filho de Arará a moquear a linda menina num bom braseiro de pau brasil, em vez de acompanhá-la em adoração pelas selvas, como o Ariel benfazejo do Paquequer.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">A sedução do imaginoso romancista criou forte corrente. Todo o clã plumitivo deu de forjar seu indiozinho refegado de Peri e Atala. Em sonetos, contos e novelas, hoje esquecidos, consumiram-se tabas inteiras de aimorés sanhudos, com virtudes romanas por dentro e penas de tucano por fora.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Vindo o público a bocejar de farto, já céptico ante o crescente desmantelo do ideal, cessou no mercado literário a procura de bugres homéricos, inúbias, tacapes, borés, piágas e virgens bronzeadas. Armas e heróis desandaram cabisbaixos, rumo ao porão onde se guardam os móveis fora de uso, saudoso museu de extintas pilhas elétricas que a seu tempo galvanizaram nervos. E lá acamam poeira cochichando reminiscências com a barba de D. João de Castro, com os frankisks de Herculano, com os frades de Garrett e que tais...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Não morreu, todavia.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Evoluiu.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">O indianismo está de novo a deitar copa, de nome mudado. Crismou-se de "caboclismo". O cocar de penas de arara passou a chapéu de palha rebatido à testa; o ocara virou rancho de sapé; o tacape afilou, criou gatilho, deitou ouvido e é hoje espingarda troxadal o boré descaiu lamentavelmente para pio de inambu; a tanga ascendeu a camisa aberta ao peito.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Mas o substrato psíquico não mudou: orgulho indomável, independência, fidalguia, coragem, virilidade heróica, todo o recheio em suma, sem faltar uma azeitona, dos Perís e Ubirajaras.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Estes setembrino rebrotar duma arte morta inda se não desbagoou de todos os frutos. Terá o seu "I Juca Pirama", o seu "Canto do Piaga" e talvez dê ópera lírica.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Mas, completado o ciclo, virão destroçar o inverno em flor da ilusão indianista os prosaicos demolidores de ídolos - gente má e sem poesia. Irão os malvados esgaravatar o ícone com as curetas da ciência. E que feias se hão de entrever as caipirinhas cor de jambo de Fagundes Varela! E que chambões e sornas os Peris de calça, camisa e faca à cinta!</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Isso, para o futuro. Hoje ainda há perigo em bulir no vespeiro: o caboclo é o "Ai Jesus!" nacional.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">É de ver o orgulhoso entono com que respeitáveis figurões batem no peito exclamando com altivez: sou raça de caboclo!</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Anos atrás o orgulho estava numa ascendência de tanga, inçada de penas de tucano, com dramas íntimos e flechaços de curare.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Dia virá em que os veremos, murchos de prosápia, confessar o verdadeiro avô: - um dos quatrocentos de Gedeão trazidos por Tomé de Souza¹ num barco daqueles tempos, nosso mui nobre e fecundo "Mayflower".</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Porque a verdade nua manda dizer que entre as raças de variado matiz, formadoras da nacionalidade e metidas entre o estrangeiro recente e o aborígene de tabuinha no beiço, uma existe a vegetar de cócoras, incapaz de evolução, impenetrável ao progresso. Feia e sorna, nada a põe de pé.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Quando Pedro I lança aos ecos o seu grito histórico e o país desperta estrouvinhado à crise duma mudança de dono, o caboclo ergue-se, espia e acocora-se de novo.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Pelo 13 de Maio, mal esvoaça o florido decreto da Princesa e o negro exausto larga num uf! o cabo da enxada, o caboclo olha, coça a cabeça, 'magina e deixa que do velho mundo venha quem nele pegue de novo.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">A 15 de Novembro troca-se um trono vitalício pela cadeira quadrienal. O país bestifíca-se ante o inopinado da mudança.² O caboclo não dá pela coisa.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Vem Florianol estouram as granadas de Custódiol Gumercidndo bate às portas de Roimal Incitatus derranca o país.³ O caboclo continua de cócoras, a modorrar...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Nada o esperta. Nenhuma ferrotoada o põe de pé. Social, como individualmente, em todos os atos da vida, Jéca, antes de agir, acocora-se.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Jéca Tatu é um piraquara do Paraíba, maravilhoso epítome de carne onde se resumem todas as características da espécie.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Hei-lo que vem falar ao patrão. Entrou, saudou. Seu primeiro movimento após prender entre os lábios a palha de milho, sacar o rolete de fumo e disparar a cusparada d'esguicho, é sentar-se jeitosamente sobre os calcanhares. Só então destrava a língua e a inteligência.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- "Não vê que...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">De pé ou sentado as idéias se lhe entramam, a língua emperra e não há de dizer coisa com coisa.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">De noite, na choça de palha, acocora-se em frente ao fogo para "aquentá-lo", imitado da mulher e da prole.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Para comer, negociar uma barganha, ingerir um café, tostas um cabo de foice, fazê-lo noutra posição será desastre infalível. Há de ser de cócoras.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Nos mercados, para onde leva a quitanda domingueira, é de cócoras, como um faquir do Bramaputra, que vigia os cachinhos de brejaúva ou o feixe de três palmitos.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Pobre J'[eca Tatu! Como és bonito no romance e feio na realidade!</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Jéca mercador, Jéca lavrador, Jéca fisólofo...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Quando comparece às feiras, todo mundo logo advinha o que ele traz: sempre coisas que a natureza derrama pelo mato e ao homem só custa o gesto de espichar a mão e colher - cocos de tucum ou jissara, guabirobas, bacuparis, maracujás, jataís, pinhões, orquídeas ou artefatos de taquara-poca - peneiras, cestinhas, samburás, tipitis, pios de caçador ou utensílios de madeira mole - gamelas, pilõesinhos, colheres de pau.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Nada Mais.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Seu grande cuidado é espremer todas as conseqüências da lei do menor esforço - e nisto vai longo.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Começa na morada. Sua casa de sapé e lama faz sorrir aos bichos que moram em toca e gargalhar ao joão-de-barro. Pura biboca de bosquimano. Mobília, nenhuma. A cama é uma espipada esteira de peri posta sobre o chão batido.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Às vezes se dá ao luxo de um banquinho de três pernas - para hospedes. Três pernas permitem equilíbrio inútil, portanto, meter a Quarta, o que ainda o obrigaria a nivelar o chão. Para que assentos, se a natureza os dotou de sólidos, rachados calcanhares sobre os quais se sentam?</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Nenhum talher. Não é a munheca um talher completo - colher, garfo e faca a um tempo?</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">No mais, umas cuias, gamelinhas, um pote esbeiçado, a pichorra e a panela de feijão.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Nada de armários ou baús. A roupa, guarda-a no corpo. Só tem dois parelhosl um que traz no uso e outro na lavagem.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Os mantimentos apaióla nos cantos da casa.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Inventou um cipó preso à cumieira, de gancho na ponta e um disco de lata no alto, alí pendura o toucinho, a salvo dos gatos e ratos.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Da parede pende a espingarda picapau, o polvarinho de chifre, o S. Benedito defumado, o rabo de tatu e as palmas bentas de queimar durante as fortes trovoadas. Servem de gaveta os buracos da parede.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Seus remotos avós não gozaram maiores comodidades. Seus netos não meterão Quarta perna ao banco. Para que? Vive-se bem sem isso.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Se pelotas de barro caem, abrindo seteiras na parede, Jéca não se move a repô-las. Ficam pelo resto da vida os buracos abertos, a entremostrarem nesgas de céu.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Quando a palha do teto, apodrecida, greta em fendas por onde pinga a chuva, Jéca, em vez de remendar a tortura, limita-se, cada vez que chove, a aparar numa gamelinha a água gotejante...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Remendo... Para que? Se uma casa dura dez anos e faltam "apenas " nove para que ele abandone aquela? Esta filosofia economiza reparos.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Na mansão de Jéca a parede dos fundos bojou para fora um ventre empanzinado, ameaçando ruir; os barrotes, cortados pela umidade, oscilam na podriqueira do baldrame. Afim de neutralizar o desaprumo e prevenir suas conseqüências, ele grudou na parede uma Nossa Senhora enquadrada em moldurinha amarela - santo de mascate.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- "Por que não remenda essa parede, homem de Deus?</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- "Ela não tem coragem de cair. Não vê a escora?</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Não obstante, "por via das dúvidas" , quando ronca a trovoada Jéca abandona a toca e vai agachar-se no ôco dum velho embirussu do quintal - para se saborear de longe com a eficácia da escora santa.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Um pedaço de pau dispensaria o milagre! mas entre pendurar o santo e tomar da foice, subir ao morro, cortar a madeira, atorá-la, baldeá-la e especar a parede, o sacerdote da Grande lei do Menor Esforço não vacila. É coerente. </span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Um terreirinho descalvado rodeia a casa. O mato o beira. Nem árvores frutíferas, nem horta, nem flores - nada revelador de permanência.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Há mil razões para isso; porque não é sua a terral porque se o "tocarem" não ficará nada que a outrem aproveite; porque para frutas há o mato; porque a "criação" come; porque...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- "Mas, criatura, com um vedozinho por ali... A madeira está à mão, o cipó é tanto..."</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Jéca, interpelado, olha para o morro coberto de moirões, olha para o terreiro nu, coça a cabeça e cuspilha.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- "Não paga a pena".</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Todo o inconsciente filosofar do caboclo grulha nessa palavra atravessada de fatalismo e modorra. Nada paga a pena. Nem culturas, nem comodidades. De qualquer jeito se vive.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Da terra só quer a mandioca, o milho e a cana. A primeira, por ser um pão já amassado pela natureza. Basta arrancar uma raiz e deitá-la nas brasas. Não impõe colheita, nem exige celeiro. O plantio se faz com um palmo de rama fincada em qualquer chão. Não pede cuidados. Não a ataca a formiga. A mandioca é sem vergonha.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Bem ponderado, a causa principal da lombeira do caboclo reside nas benemerências sem conta da mandioca. Talvez que sem ela se pusesse de pé e andasse. Mas enquanto dispuser de um pão cujo preparo se resume no plantar, colher e lançar sobre brasas, Jéca não mudará de vida. O vigor das raças humanas está na razão direta da hostilidade ambiente. Se a poder de estacas e diques o holandês extraiu de um brejo salgado a Holanda, essa jóia do esforço, é que ali nada o favorecia. Se a Inglaterra brotou das ilhas nevoentas da Caledônia, é que lá não medrava a mandioca. Medrasse, e talvez os víssemos hoje, os ingleses, tolhiços, de pé no chão, amarelentos, mariscando de peneira no Tamisa. Há bens que vêm para males. A mandioca ilustra este avesso de provérbio.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Outro precioso auxiliar da calaçaria é a cana. Dá rapadura, e para Jéca, simplificador da vida, dá garapa. Como não possui moenda, torce a pulso sobre a cuia de café um rolete, depois de bem massetados os nós; açucara assim a beberagem, fugindo aos trâmites condutores do caldo de cana à rapadura.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Todavia, <em>est modus in rebus. </em>E assim como ao lado do restolho cresce o bom pé de milho, contrasta com a cristianíssima simplicidade do Jéca a opulência de um seu vizinho e compadre que "está muito bem." A terra onde mora é sua. Possui ainda uma égua, monjolo e espingarda de dois canos. Pesa nos destinos políticos do país com o seu voto e nos econômicos com o polvilho azedo de que é fabricante, tendo amealhado com ambos, voto e polvilho, para mais de quinhentos mil réis no fundo da arca.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Vive num corrupio de barganhas nas quais exercita uma astúcia nativa muito irmã da de Bertoldo. A esperteza última foi a barganha de um cavalo cego por uma égua de passo picado. Verdade é que a égua mancava das mãos, mas ainda assim valia dez mil réis mais do que o rossinante zanaga.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Esta e outras celebrizaram-lhe os engrimanços potreiros num raio de mil braças, grangeando-lhe a incondicional e babosa admiração do Jéca, para quem, fino como o compadre, "home" ... nem mesmo o vigário de Itaóca!.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Aos domingos vai à vila bifurcado na magreza ventruda da Serena; leva apenso à garupa um filho e atrás o potrinho no trote, mais a mulher, com a criança nova enrolada no chale. Fecha o cortejo o indefectível Brinquinho, a resfolgar com um palmo de língua de fora. </span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">O fato mais importante de sua vida é sem dúvida votar no governo. Tira nesse dia da arca a roupa preta do casamento, sarjão furadinho de traça e todo vincado de dobras, entala os pés num alentado sapatão de bezerro; ata ao pescoço um colarinho de bico e, sem gravata, ringindo e mancando, vai pegar o diploma de eleitor às mãos do chefe Coisada, que lho retém para maior garantia da fidelidade partidária.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Vota. Não sabe em quam, mas vota. Esfrega a pena no livro eleitoral, arabescando o aranhol de gatafunhos a que chama "sua graça".</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Se há tumulto, chuchurrea de pé firme, com heroísmo, as porretadas oposicionistas, e ao cabo segue para a casa do chefe, de galo cívico na testa e colarinho sungado para trás, afim de novamente lhe depor nas mão o "diploma".</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Grato e sorridente, o morubixaba galardoa-lhe o heroísmo, flagrantemente documentado pelo latejar do couro cabeludo, com um aperto de munheca e a promessa, para logo, duma inspetoria de quarteirão.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Representa este freguês o tipo clássico do sitiante já com um pé fora da classe. Exceção, díscolo que é, não vem ao caso. Aqui tratamos da regra e a regra é Jéca Tatu.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">O mobiliário cerebral de Jéca, à parte o suculento recheio de superstições, vale o do casebre. O banquinho de três pés, as cuias, o gancho de toucinho, as gamelas, tudo se reedita dentro de seus miolos sob a forma de idéias: são as noções práticas da vida, que recebeu do pai e sem mudança transmitirá aos filhos.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">O sentimento de pátria lhe é desconhecido. Não tem sequer a noção do país em que vive. Sabe que o mundo é grande, que há sempre terras para diante, que muito longe está a Corte com os graúdos e mais distante ainda a Bahia, donde vêm baianos pernósticos e cocos. </span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Perguntem ao Jéca quem é o presidente da República.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- "O homem que manda em nós tudo?</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- "Sim.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- "Pois de certo que há de ser o imperador.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Em matéria de civismo não sobe de ponto.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- "Guerra? T'esconjuro! Meu pai viveu afundado no mato p'ra mais de cinco anos por causa da guerra grande. (4) Eu, para escapar do "reculutamento", sou inté capaz de cortar um dedo, como o meu tio Lourenço...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Guerra, defesa nacional, ação administrativa, tudo quanto cheira a governo resume-se para o caboclo numa palavra apavorante - "reculutamento".</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Quando em princípios da Presidência Hermes andou na balha um recenseamento esquecido a Offenbach, o caboclo tremeu e entrou a casar em massa. Aquilo "havera de ser reculutamento", e os casados, na voz corrente, escapavam à redada.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">A sua medicina corre parelhas com o civismo e a mobília - em qualidade. Quantitativamente, assombra. Da noite cerebral pirilampejam-lhe apozemas, cerotos, arrobes e eletuários escapos à sagacidade cômica de Mark Twain. Compendia-os um Chernoviz não escrito, monumento de galhofa onde não há rir, lúgubre como é o epílogo. A rede na qual dois homens levam à cova as vítimas de semelhante farmacopéia é o espetáculo mais triste da roça.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Quem aplica as mezinhas é o "curador", um Eusébio Macário de pé no chão e cérebro trancado como muita de taquaruçu. O veículo usual das drogas é sempre a pinga - meio honesto de render homenagem à deusa Cachaça, divindade que entre eles ainda não encontrou heréticos.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Doenças hajam que remédios não faltam.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Para bronquite, é um porrete cuspir o doente na boca de um peixe vivo e soltá-lo: o mal se vai com o peixe água abaixo...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Para "quebranto de ossos", já não é tão simples a medicação. Tomam-se três contas de rosário, três galhos de alecrim, três limas de bico, três iscas de palma benta, três raminhos de arruda, três ovos de pata preta (com casca; sem casca desanda) e um saquinho de picumã! mete-se tudo numa gamela d'água e banha-se naquilo o doente, fazendo-o tragar três goles da zurrapa. É infalível.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">O específico da brotoeja consiste em cozimento de beiço de pote para lavagens. Ainda há aqui um pormenor de monta; é preciso que antes do banho a mãe do doente molhe na água a ponta de sua trança. As brotoejas saram como por encanto.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Para dor de peito que "responde na cacunda", cataplasma de "jasmim de cachorro" é um porrete.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Além desta alopatia, para a qual contribui tudo quanto de mais repugnante e inócuo existe na natureza, há a medicação simpática, baseada na influição misteriosa de objetos, palavras e atos sobre o corpo humano. </span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">O ritual bizantino dentro de cujas maranhas os filhos do Jéca vêm ao mundo, e do qual não há fugir sob pena de gravíssimas conseqüências futuras, daria um in-fólio d'alto fôlego ao Sílvio Romero bastante operoso que se propusesse a compendiá-lo.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Num parto difícil nada tão eficaz como engolir três caroços de feijão mouro, de passo que a parturiente veste pelo avesso a camisa do marido e põe na cabeça, também pelo avesso, o seu chapéu. Falhando esta simpatia, há um derradeiro recurso: colar no ventre encruado a imagem de S. Benedito.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Nesses momentos angustiosos outra mulher não penetre no recinto sem primeiro defumar-se ao fogo, nem traga na mão caça ou peixe. A criança morreria pagã. A omissão de qualquer destes preceitos fará chover mil desgraças na cabeça do chorincas recém- nascido.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">A posse de certos objetos confere dotes sobrenaturais. A invulnerabilidade às facadas ou cargas de chumbo é obtida graças à flor da samambaia.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Esta planta, conta Jéca, só floresce uma vez por ano, e só produz em cada samambaial uma flor. Isto à meia noite, no dia de S. Bartolomeu. É preciso ser muito esperto para colhe-la, porque também o diabo anda à cata. Quem consegue pegar uma, ouve logo um estouro e tonteia ao cheiro de enxofre - mas livra-se de faca e chumbo pelo resto da vida.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Todos os volumes do Larousse não bastariam para catalogar-lhes as crendices, e como não há linhas divisórias entre estas e a religião, confundem-se ambas em maranhada teia, não havendo distinguir onde pára uma e começa outra.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">A idéia de Deus e dos santos torna-se jéco-cêntrica. São os santos os graúdos lá de cima, os coronéis celestes, debruçados no azul para espreitar-lhes a vidinha e intervir nela ajudando-os ou castigando-os, como os metediços deuses de Homero. Uma torcedura de pé, um estrepe, o feijão entornado, o pote que rachou, o bicho que arruinou - tudo diabruras da corte celeste, para castigo de más intenções ou atos.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Daí o fatalismo. Se tudo movem cordéis lá de cima, para que lutar, reagir? Deus quis. A maior catástrofe é recebida com esta exclamação, muito parenta do "Allah Kébir" do beduíno.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">E na arte?</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Nada.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">A arte rústica do campônio europeu é opulenta a ponto de constituir preciosa fonte de sugestões para os artistas de escol. Em nenhum país o povo vive sem a ela recorrer para um ingênuo embelezamento da vida. Já não se fala no camponês italiano ou teutônico, filho de alfobres mimosos, propícios a todas as florações estéticas. Mas o russo, o hirsuto mujique a meio atolado em barbarie crassa. Os vestuários nacionais da Ucrânia nos quais a cor viva e o sarapantado da ornamentação indicam a ingenuidade do primitivo, os isbas da Lituânia, sua cerâmica, os bordados, os móveis, os utensílios de cozinha, tudo revela no mais rude dos campônios o sentimento da arte.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">No samoieda, no pele-vermelha, no abexim, no Papua, un arabesco ingênuo costuma ornar-lhes as armas - como lhes ornam a vida canções repassadas de ritmos sugestivos.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Que nada é isso, sabido como já o homem pré-histórico, companheiro do urso das cavernas, entalhava perfis de mamutes em chifres de rena.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Egresso à regra, não denuncia o nosso caboclo o mais remoto traço de um sentimento nascido com o troglodita.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Esmerilhemos o seu casebre: que é que ali denota a existência do mais vago senso estético? Uma chumbada no cabo do relho e uns ziguezagues a canivete ou fogo pelo roliço do porretinho de guatambú. É tudo.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Às vezes surge numa família um gênio musical cuja fama esvoaça pelas redondezas. Ei-lo na viola concentra-se, tosse, cuspilha o pigarro, fere as cordase "tempera" , E fica nisso, no tempero.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Dirão: e a modinha?</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">A modinha, como as demais manifestações de arte popular existentes no país, é obra do mulato, em cujas veias o sangue recente do europeu, rico de atavismos estéticos, borbulha d'envolta com o sangue selvagem, alegre e são do negro.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">O caboclo é soturno.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Não canta senão rezas lúgubres.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Não dança senão o cateretê aladainhado.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Não esculpe o cabo da faca, como o cabila.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Não compõe sua canção, como o felá do Egito.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">No meio da natureza brasílica, tão rica de formas e cores, onde os ipês floridos derramam feitiços no ambiente e a infolhescência dos cedros, às primeiras chuvas de setembro, abre a dança dos tangarás; onde há abelhas de sol, esmeraldas vivas, cigarras, sabiás, luz, cor, perfume, vida dionisíaca em escachôo permanente, o caboclo é o sombrio urupê de pau podre a modorrar silencioso no recesso das grotas.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Só ele não fala, não canta, não ri, não ama.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Só ele, no meio da tanta vida, não vive...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;"><strong>Monteiro Lobato</strong><br />
Extraído do <a href="http://www.projetomemoria.art.br/" target="_blank">Projeto Memória</a></span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;"><strong>1-</strong> Tomé de Souza veio ao Brasil com um carregamento de 400 degredados e uns tantos jesuítas.</span><br />
<span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;"><strong>2-</strong> Aristides Lobo: "O país assistiu bestificado à proclamação da República".</span><br />
<span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;"><strong>3-</strong> O presidente Hermes da Fonseca</span><br />
<span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;"><strong>4-</strong> Guerra do Paraguai</span></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[A Facada Imortal]]></title>
<link>http://contosdocovil.wordpress.com/?p=97</link>
<pubDate>Thu, 15 May 2008 20:20:20 +0000</pubDate>
<dc:creator>Snaga</dc:creator>
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<description><![CDATA[Todos os tratados de xadrez descrevem a celebre partido jogada por Philidor no século XVIII, a mais]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Todos os tratados de xadrez descrevem a celebre partido jogada por Philidor no século XVIII, a mais romântica que ao anais enxadrísticos mencionam. Tão sábia foi, tão imprevista e audaciosa, que recebeu o nome de <em>Partida Imortal</em>. Embora depois dela se jogassem pelo mundo milhões de partidas de xadrez, nenhuma ofuscou a obra prima do famoso Philidor André Danican.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Também a "facada" do Indalício Ararigboia, um saudoso amigo morto, se vem perpetuando nos anais da alta malandragem como a <em>La Gioconda </em>do gênero ou como está admitido nas rodas técnicas - a <em>Facada Imortal.</em> Indalício foi positivamente o Philidor dos faquistas.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Lembro-me bem: era um rapaz lindo, de olhos azuis e voz suavíssima; as palavras vinham-lhe como pêssegos embrulhados em paina, e sabiamente camaralentadas, porque, dizia ele, o homem que fala depressa é um perdulário que deita fora o melhor ouro da sua herança. Ninguém dá tento ao que esse homem diz, porque <em>quod abundat nocet</em>. Se não valorizamos nós mesmos as nossas palavras, como pretendermos que os outros as prezem? Meu mestre nesse ponto foi o general Pinheiro Machado, num discurso que lhe ouvi certa vez. Que astuciosa e bem calculada lentidão! Entre uma palavra e outra o Pinheiro punha um intervalo de segundos, como se sua boca estivesse perdigotando pérolas. E a assistência o ouvia com religiosa unção absorvendo como pérolas era emitido. Substantivos, adjetivos, verbos, advérbios e conjunções caiam sobre os ouvintes como seixos lançados à lagoa; e antes que cada um chegasse bem lá no fundo, o general não soltava outro. Cacetíssimo, mas de alta eficiência.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Foi ele então o teu mestre na arte de falar valorizadamente...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Não. Nasci sonolento. O Pinheiro apenas me abriu os olhos quanto ao valor monetário do Dom que a natureza me dera. Depois de ouvir esse seu discurso é que passei a dedicar-me à nobre arte de fazer com os homens o que fazia Moisés nas rochas do deserto.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Fazê-los "sangrar"...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Exatamente. Vi que se somasse minha natural lentidão do falar com alguma psicologia vienense (Freud, Adler), o dinheiro dos homens me atenderia como as galinhas atendem ao <em>quit, quit</em> das donas de casa. Para cada bolso há uma chave Yale. Minha técnica se resume hoje em só abordar a vítima depois de descobrir a chave certa.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- E como consegue?</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Tenho minha álgebra. Considero os homens equações do terceiro grau - equações psicológicas, está claro. Estudo-os, deduzo, concluo - e esfaqueio com precisão praticamente absoluta. O mordedor comum é um ser indecoroso, digno do desprezo que lhe dá a sociedade. Pedincha, implora; apenas desenvolve, sem a menor preocupação estética, o surrado cantochão do mendigo: "Uma esmolinha pela amor de Deus!" Comigo, não! Assumi essa atitude (porque o pedir é uma atitude na vida), primeiro, por esporte; depois, com o fito de reabilitar uma das mais velhas profissões humanas.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Realmente, a intenção é nobilíssima...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Indalício racionalizara a "mordedura" ao ponto da sublimação. Citava filósofos gregos. Mobilizava músicos de fama.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Liszt, Mozart, Debussy, dizia ele, nobilitaram essa coisa comum chamada "som" à força de harmonizá-lo de certo modo. O escultor nobilitará até um paralelepípedo de rua, se lhe der forma estética. Por que não nobilitaria eu o deprimentíssimo ato de pedir? Quando lanço a minha facada, sempre depois de sérios estudos, a vítima não me dá o seu dinheiro, apenas <em>paga</em> a finíssima demonstração técnica com que o tonteio. Paga-me a facada do mesmo modo que o amador de pintura paga o arranjo de tintas que o pintor faz sobre uma estopa, um quadrado de papelão, uma relíssima tábua. O faquista comum, notem, nada dá em troca do miserável dinheirinho que tira. Eu dou emoções gratíssimas à sensibilidade das criaturas finas. Minha vítima tem que ser fina. O simples fato da minha escolha já é um honroso diploma, porque nunca me desonrei em esfaquear criaturas vulgares, de alma grosseira. Só procuro gente na altura de compreender as sutilezas das paisagens de Corot ou dos versos de Verlaine.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Como se requintava a formosura do Indalício nos momentos em que discorria assim! Envolvia-o a aura dos predestinados, dos apóstolos que se sacrificam para aumentar de alguma coisa a beleza do mundo. De sua barba loura, à Cristo, escapavam os suaves reflexos do cendre. As frases fluíam-lhe da boca de fino desenho como o óleo ou o mel escorre duma ânfora grega suavemente inclinada. Suas palavras traziam patins aos pés. Tudo no Indalício eram mancais de esferas. Talvez ajudasse a circunstância de ser surdinho. Isso de não ouvir bem põe veludos em certas pessoas, dá-lhes um macio de violoncelo. Como não se distraem com a vulgaridade dos sons que todos nós normalmente ouvimos, atentam mais em si próprios, "ouvem-se mais", concentram-se.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Nosso costume naquele tempo era reunir-nos todas as noites no velho "Café Guarany" com y grego - a reforma ortográfica ainda dormia no calcanhar do Medeiros e Albuquerque; ficávamos ali horas trabalhando para a Antártica e comentando as proezas de cada um. Rodinha muito interessante e vária, cada um com a sua mania, a sua arte ou a sua tara. Ligava-nos apenas uma coisa: o pendor comum pelas finuras mentais em qualquer campo que fosse, literatura, perfídia, oposição ao governo, arte de viver, amor. Um deles era absolutamente ladrão - desses que a sociedade trancafia. Mas que ladrão engraçado! Estou hoje convencido de que roubava unicamente com um fim: deslumbrar a rodinha com a primorosa estilização das proezas. Outro era bêbedo profissional - e talvez pela mesma razão: informar à roda sobre o que é a vida do clã de adoradores do álcool que passam a vida nos "botecos". Outro era o Indalício...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- E antes, Indalício? Que é que fazia?</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Ah, perdia o tempo numa escola do Rio como professor de meninos. Nada mais desinteressante. Fugi, farto e refarto. Odeio qualquer atividade vazia dessa "emoção da caça" que considero a coisa suprema da vida. Fomos caçadores durante milhões e milhões de anos, na nossa longuíssima fase de homens primitivos. A civilização agrícola é coisa de ontem, e por isso ainda espinoteiam com tanta vivacidade, dentro do nosso modernismo, os velhos instintos do caçador. Continuamos os caçadores que éramos, apenas mudados de caça. Como nestas cidades de hoje não existem aquele <em>Ursus speleus </em>que no período das cavernas nós caçávamos (ou nos caçavam), matamos a sede do instinto com as amáveis cacinhas da civilização. Uns caçam meninas bonitas, outros caçam negócios, outros caçam imagens e rimas. O Breno Ferraz caça boatos contra o governo...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- E eu que caço? Perguntei.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Antíteses, respondeu de pronto o Indalício. Fazes contos, e que é o conto senão um antítese estilizada? Eu caço otários, com a espingarda da psicologia. E como isso me dá para viver folgadamente, não quero outra profissão. Tenho prosperado. Calculo que nestes últimos três anos consegui remover do bolso alheio para o meu cerca de duzentos contos de réis.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Aquela revelação fez que o nosso respeito pelo Indalício aumentasse de dez pontos.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- E sem abusar, continuou ele, sem forçar a nota, porque meu intento nunca foi acumular dinheiro. Em dando para o passadio à larga, está ótimo. O lucro maior que obtenho, entretanto, está na contenteza de alma, na paz da consciência - coisas que nunca tive nos anos em que, como professor de educação moral, eu transmitia às inocentes crianças noções que hoje considero absolutamente falsas. As nevralgias da minha consciência naquela época, quando provava nas aulas, com infames sofismas, que a linha reta é o caminho mais curto entre dois pontos!</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Com o perpassar do tempo o Indalício desprezou completamente as facadas simples, ou do "primeiro grau", como dizia ele, isto é, as que apenas produzem dinheiro. Passou a interessar-se unicamente pelas que representavam "soluções de problemas psicológicos" e lhe davam, além do íntimo prazer da façanha, a mais pura glória ali da rodinha. Uma noite desenvolveu-nos o teorema do máximo...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Sim cada homem, em matéria de facada, tem o seu máximo; e o faquista que arranca 100 mil réis dum freguês cujo máximo é de um conto, lesa-se a si próprio - e ainda perturba a harmonia universal. Lesa-se em 900 mil réis e interfere na ordem preestabelecida do cosmos. Aqueles 900 mil réis estavam predestinados a mudarem-se de bolso <em>naquele dia, naquela hora, </em>por meio <em>daqueles agentes</em>; a inépcia do mau faquista perturba a predestinação, dess'arte criando uma ondulazinha de desarmonia que até ser reabsorvida contribui para o mal estar do Universo.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Essa filosofia ouvímo-la no dia do seu "grande deslize", quando o Indalício nos apareceu no Guarany seriamente incomodado com a perturbação que essa sua "mancada" podia estar determinando na harmonia das esferas.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Errei, disse ele. Meu assalto foi contra o Macedo, que, vocês sabem, é a maior vítima dos mordedores de S. Paulo. Mas fui precipitado em minhas conclusões quanto ao seu máximo, e dei-lhe um golpe de dois contos apenas. A prontidão com que atendeu, <em>reveladora de que estava ganhando três, </em>demonstrou-me, da maneira mais evidente, que o máximo do Macedo é de cinco contos! Perdi. Pois, três contos... E o peor não está nisso, mas na desconfiança em que fiquei de mim mesmo. Estarei por acaso decaindo? Nada mais grotesco do que ferir em oitenta ao otário cujo máximo é de cem. O bom atirador não gosta de acertar <em>perto </em>Há de enfiar as balas, exatinho, no centro geométrico do alvo.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Nesse dia foram necessários dez chopes para abafar a inquietação do Indalício; e ao recolher-nos, lá apela meia noite, saí com ele a pretexto de consolá-lo, mas na realidade para impedi-lo de passar pelo Viaduto. Mas afinal descobri a aspirina adequada ao caso.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Só vejo um meio de te restaurares na confiança perdida, meu caro Indalício: dares uma facada no Raul! Se o consegues, terás realizado a proeza suprema de tua vida. Que tal?</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Os olhos de Indalício iluminaram-se, como os do caçador que depois de perder um coatí dá de frente com um precioso veado - e foi assim que teve início a construção d grande obra prima do nosso saudoso Indalício Ararigboia.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">O Raul, velho companheiro de roda, tinha-se, e era tido, como absolutamente imune a facadas. Rapaz de modestas posses, vivia duns 400 mil réis mensalmente drenados do governo; mas tratava-se bem, vestia-se com singular apuro, usava lindas gravatas de seda, bons sapatos; para perpetuar semelhante proeza, entretanto, adquirira o hábito de não por fora dinheiro nenhum, e hermeticamente fechara o corpo à facadas, por mínimas que fossem. Recebido o ordenado no começo do mês, pagava as contas, as prestações, retinha os miúdos do bonde e pronto - ficava até o mês seguinte leve como um beija-flor. Em matéria de facadas sua teoria sempre fora de negação absoluta.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- "Morre" quem quer, dizia ele. Eu por exemplo não sangrarei nunca porque de há muito <em>deliberei </em>não sangrar! O mordedor pode atacar-me de qualquer lado, norte, sul, leste, oeste, a jusante ou a montante, e com uso de todas as armas inclusive as do arsenal do Indalício: inútil! Não sangro, pelo simples fato de haver deliberado não sangrar - além de que por sistema não ando com dinheiro no bolso.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Indalício não ignorava a inexpugnabilidade do Raul, mas como se tratasse dum companheiro de roda nunca pensou em tirar o ponto a limpo. Minha sugestão daquele dia, porém, fê-lo mudar de idéia. A inexpugnabilidade do Raul entrou a irritá-lo como intolerável desafio à sua genialidade.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Sim, disse o Indalício, porque verdadeiramente imune à facadas não creio que haja ninguém no mundo. E se alguém, como o Raul, faz essa idéia de si, é que nunca foi abordado por um verdadeiro mestre - um Balzac como eu. Hei de destruir a inexpugnabilidade do Raul; e se meu golpe vier a falhar, talvez até me suicide com a pistola de Vatel. Viver desonrado aos meus próprios olhos, nunca!</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">E Indalício pôs-se a estudar o Raul afim de descobrir-lhe o máximo - sim, porque até no caso do Raul aquele gênio insistia em ferir no máximo! Duas semanas depois confessou-me com a habitual suavidade:</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- O caso está resolvido. O Raul realmente jamais levou facadas e considera-se em absoluto imune - mas lá no fundo d alma, ou do inconsciente, está inscrito o seu máximo: cinco mil réis! Tenho orgulho em revelar a minha descoberta. Raul considera-se inesfaqueável, e jurou morrer sem a menor cicatriz no bolso; a sua consciência, portanto, não admite máximo nenhum. <em>Mas o máximo do Raul é de cinco! </em>Para chegar a essa conclusão tive de insinuar-me nos desvãos de sua alma com a gazua do Freud.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Só cinco?</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Sim. Só cinco - o máximo absoluto! Se o Raul se psicanalisasse, descobriria, com assombro, que apesar das suas juras de imunidade a natureza o colocou na casa dos cinco.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- E vai o nosso Balzac sujar-se com uma facada de cinco mil réis! Em que ficou a tua fixação do mínimo em duzentos?</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- De fato, hoje não dou facadas de menos de duzentos, e me julgaria desonrado se me abaixasse a uma de cento e oitenta. Mas o caso do Raul, especialíssimo, me força a abir uma exceção. Vou esfaqueá-lo em cinqüenta mil réis...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Por que cinqüenta?</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Porque ontem, inopinadamente, a minha álgebra psicológica demonstrou que há possibilidade de um segundo máximo no Raul, não de cinco, como está inscrito no seu inconsciente, mas de dez vezes isso, como consegui ler na aura desse inconsciente!...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- No inconsciente do inconsciente!...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Sim, na verdadeira estratosfera do inconsciente raulino. Mas só serei bem sucedido se não errar na escolha do momento mais favorável, e se conseguir deixá-lo em ponto de bala por meio da aplicação de diversas cocaínas psicológicas. Só quando Raul se sentir levitado, expandido, como a alma bem rarefeita, é que sangrará no máximo astral que eu descobri!...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Mais um mês gastou o Indalício em estudos do Raul. Certificou-se do dia em que lhe pagavam no Tesouro, do quanto lhe levavam as contas e prestações, e quanto costumava sobrar-lhe depois de satisfeitos todos os compromissos. E não há por aqui toda a série de preparos psicológicos, físicos, metapsíquicos, mecânicos e até gastronômicos a que o gênio do Indalício submeteu o Raul; encheria páginas e páginas. Resumirei dizendo que o ataque em vôo pique só seria realizado depois do completo "condicionamento" da vítima por meio da sábia aplicação de todos os "matadores" . O nosso pobre Indalício faleceu sem saber que estava lançando os fundamentos do moderno totalitarismo...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">No dia 4 do mês seguinte avisou-se da iminência do golpe.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Vai ser amanhã, às oito da noite, no Bar Baron, quando o Raul cair na leve crise sentimental que lhe provocam certas passagens do <em>Petit Chose </em>de Daudet, recordadas entre a Segunda e a terceira dose do <em>meu</em> vinho...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Que vinho?</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Aha, um que descobri em estudos <em>in anima nobile </em>- nele mesmo: a única vinhaça que de mistura com o Daudet do <em>Petit Chose </em>deixa o Raul, durante meio minuto, sangrável no máximo astral! Vocês vão abrir a boca. Estou positivamente criando a minha obra prima! Aparece amanhã no Guarany às nove horas para ouvires o resto...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">No dia seguinte fui ao Guarany às oito e já lá encontrei a roda. Pu-los ao par dos desenvolvimento da véspera e ficamos a comentar os prós e contras do que àquela hora estaria se passando no Bar Baron. Quase todos jogavam no Raul.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Às nove entrou o Indalício, suavemente. Sentou-se.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Então? Perguntei.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Sua resposta foi tirar do bolso e sacudir no ar uma nota nova de cinqüenta mil réis.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Fiz um trabalho preparatório perfeito demais para que me falhasse o golpe, disse ele. No momento decisivo bastou-me um <em>quit, quit</em> dos mais simples. Os cinqüenta <em>fluíram</em> do bolso do Raul para o meu - contentes, felizes, alegrinhos...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">O assombro da roda chegou ao auge. Era realmente escachante aquele prodígio!</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Maravilhoso, Indalício! Mas põe isso em troca miúdo, pedimos. E ele contou:</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Nada mais simples. Depois do preparo do terreno, a técnica foi, entre a Segunda e a terceira dose da vinhaça e o Daudet, ferir fundo nos cinqüenta - e o que eu esperava ocorreu. Ultra-surpreso de haver no globo quem o avaliasse em cinqüenta mil réis, a ele, que na intimidade trevosa do subconsciente só admitia o miserável máximo de cinco, Raul deslumbrou-se... Raul perdeu o controle de si próprio ... sentiu-se levitado, rarefeito por dentro, estratosférico - e com os olhos emparvecidos meteu a mão no bolso, sacou tudo quanto havia lá, exatamente esta nota, e entregou-ma, sonambúlico, num incoercível impulso de gratidão! Instantes depois voltava a si. Corou como a romã, formalizou-se e só não me agrediu porque a minha sábia fuga estratégica não lhe deu tempo...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Maravilhamo-nos sinceramente. Aquela Yale psicológica er talvez a única, dos milhões de chaves existentes no universo, capaz de abrir a carteira do Raul para um faquista; e o tê-la descoberto e manejado com tanta segurança era coisa que indiscutivelmente vinha fechar com chave de ouro a gloriosa carreira do Indalício - como de fato fechou: meses depois a gripe espanhola de 1918 nos levava esse precioso e amável amigo.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Parabéns, Indalício! Exclamei. Só a má fé te negará o Dom da genialidade. <em>A Partida Imortal </em>do grande Philidor já não está sem <em>pendant</em> no mundo. Criaste a <em>Facada Imortal&#62;</em></span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Como ninguém da roda jogasse xadrez, todos me olharam perguntivamente. Mas não houve tempo para explicações. Vinha entrando o Raul. Sentou-se, calado, contido. Pediu uma caninha (sinal de rarefação no bolso). Ninguém disse nada.. Esperamos que ele se abrisse. Indalício estava profundamente absorvido nos "Pingos e Respingos" dum "Correio da Manhã" sacado do bolso.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Súbito, veio-me uma infinita vontade de rir, e foi rindo qu rompi o silêncio:</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Então, seu Raul, caiu, heim?...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Realmente desapontado, o querido Raul não achou a palavra chistosa, o "espírito" com que em qualquer outra circunstância comentaria um seu desaso qualquer. Limitou-se a sorrir amareladamente e a emitir um "Pois é!..." - o mais desenxabido "Pois é" ainda pronunciado no mundo. Tão desenxabido, que o Indalício engasgou-se de rir... com o "Pingo" que lia.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;"><strong>Monteiro Lobato</strong><br />
Extraído do <a href="http://www.projetomemoria.art.br/" target="_blank">Projeto Memória</a></span></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[O Colocador de Pronomes]]></title>
<link>http://contosdocovil.wordpress.com/?p=96</link>
<pubDate>Thu, 15 May 2008 20:16:18 +0000</pubDate>
<dc:creator>Snaga</dc:creator>
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<description><![CDATA[Aldrovando Cantagalo veio ao mundo em virtude dum erro de gramática.
Durante sessenta anos de vida ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Aldrovando Cantagalo veio ao mundo em virtude dum erro de gramática.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Durante sessenta anos de vida terrena pererecou como um peru em cima da gramática.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">E morreu, afinal, vítima dum novo erro de gramática.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Martir da gramática, fique este documento da sua vida como pedra angular para uma futura e bem merecida canonização,</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Havia em Itaoca um pobre moço que definhava de tédio no fundo de um cartório. Escrevente. Vinte e três anos. Magro. Ar um tanto palerma. Ledor de versos lacrimogêneos e pai duns acrósticos dados à luz no "Itaoquense" , com bastante sucesso.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Vivia em paz com as suas certidões quando o frechou venenosa seta de Cupido. Objeto amado: a filha mais moça do coronel Triburtino, o qual tinha duas, essa Laurinha, do escrevente, então nos dezessete, e a do Carmo, encalhe da família, vesga, madurota, histérica, manca da perna esquerda e um tanto aluada.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Triburtino não era homem de brincadeira. Esguelara um vereador oposicionista em plena sessão da câmara e desd'aí se transformou no tutú da terra. Toda gente lhe tinha um vago medo; mas o amor, que é mais forte que a morte, não receia sobrecenhos enfarruscados nem tufos de cabelos no nariz.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Ousou o escrevente namorar-lhe a filha, apesar da distância hierárquica que os separava. Namoro à moda velha, já se vê, pois que nesse tempo não existia a gostorura dos cinemas. Encontros na igreja, à missa, troca de olhares, diálogos de flores - o que havia de inocente e puro. Depois, roupa nova, ponta de lenço de seda a entremostrar-se no bolsinho de cima e medição de passos na rua d'Ela, nos dia de folga. Depois, a serenata fatal à esquina, com o</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;"><em>Acorda, donzela...</em></span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Sapecado a medo num velho pinho de empréstimo. Depois, bilhetinho perfumado.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Aqui se estrepou...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Escrevera nesse bilhetinho, entretanto, apenas quatro palavras, afora pontos exclamativos e reticências:</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Anjo adorado!</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Amo-lhe!</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Para abrir o jogo bastava esse movimento de peão. Ora, aconteceu que o pai do anjo apanhou o bilhetinho celestial e, depois de três dias de sobrecenho carregado, mandou chamá-lo à sua presença, com disfarce de pretexto - para umas certidõesinhas, explicou.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Apesar disso o moço veio um tanto ressabiado, com a pulga atrás da orelha.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Não lhe erravam os pressentimentos. Mas o pilhou portas aquém, o coronel trancou o escritório, fechou a carranca e disse:</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- A família Triburtino de Mendonça é a mais honrada desta terra, e eu, seu chefe natural, não permitirei nunca - nunca, ouviu? - que contra ela se cometa o menor deslize.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Parou. Abriu uma gaveta. Tirou de dentro o bilhetinho cor de rosa, desdobrou-o</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- É sua esta peça de flagrante delito? </span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">O escrevente, a tremer, balbuciou medrosa confirmação.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Muito bem! Continuou o coronel em tom mais sereno. Ama, então, minha filha e tem a audácia de o declarar... Pois agora...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">O escrevente, por instinto, ergueu o braço para defender a cabeça e relanceou os olhos para a rua, sondando uma retirada estratégica.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- ... é casar! Concluiu de improviso o vingativo pai.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">O escrevente ressuscitou. Abriu os olhos e a boca, num pasmo. Depois, tornando a si, comoveu-se e com lágrimas nos olhos disse, gaguejante:</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Beijo-lhe as mãos, coronel! Nunca imaginei tanta generosidade em peito humano! Agora vejo com que injustiça o julgam aí fora!...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Velhacamente o velho cortou-lhe o fio das expansões.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Nada de frases, moço, vamos ao que serve: declaro-o solenemente noivo de minha filha!</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">E voltando-se para dentro, gritou:</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Do Carmo! Venha abraçar o teu noivo!</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">O escrevente piscou seis vezes e, enchendo-se de coragem, corrigiu o erro.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Laurinha, quer o coronel dizer...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">O velho fechou de novo a carranca.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Sei onde trago o nariz, moço. Vassuncê mandou este bilhete à Laurinha dizendo que ama-"lhe". Se amasse a ela deveria dezer amo-"te". Dizendo "amo-lhe" declara que ama a uma terceira pessoa, a qual não pode ser senão a Maria do Carmo. Salvo se declara amor à minha mulher...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Oh, coronel...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- ... ou a preta Luzia, cozinheira. Escolha! </span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">O escrevente, vencido, derrubou a cabeça com uma lágrima a escorrer rumo à asa do nariz. Silenciaram ambos, em pausa de tragédia. Por fim o coronel, batendo-lhe no ombro paternalmente, repetiu a boa lição da gramática matrimonial.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Os pronomes, como sabe, são três: da primeira pessoa - quem fala, e neste caso vassuncê; da Segunda pessoa - a quem fala, e neste caso Laurinha; da terceira pessoa - de quem se fala, e neste caso do Carmo, minha mulher ou a preta. Escolha!</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Não havia fuga possível.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">O escrevente ergueu os olhos e viu do Carmo que entrava, muito lampeira da vida, torcendo acanhada a ponta do avental. Viu também sobre a secretária uma garrucha com espoleta nova ao alcance do maquiavélico pai, submeteu-se e abraçou a urucaca, enquanto o velho, estendendo as mãos, dizia teatralmente:</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Deus vos abençoe, meus filhos!</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">No mês seguinte, e onze meses depois vagia nas mãos da parteira o futuro professor Aldrovando, o conspícuo sabedor de língua que durante cinqüenta anos a fio coçaria na gramática a sua incurável sarna filológica.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Até aos dez anos não revelou Aldrovando pinta nenhuma. Menino vulgar, tossiu a coqueluche em tempo próprio, teve o sarampo da praxe, mas a cachumba e a catapora. Mais tarde, no colégio, enquanto os outros enchiam as horas de estudo com invenções de matar o tempo - empalamento de moscas e moidelas das respectivas cabecinhas entre duas folhas de papel, coisa de ver o desenho que saía - Aldrovando apalpava com erótica emoção a gramática de Augusto Freire da Silva. Era o latejar do furúnculo filológico que o determinaria na vida, para matá-lo, afinal...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Deixêmo-lo, porém, evoluir e tomêmo-lo quando nos serve, aos 40 anos, já a descer o morro, arcado ao peso da ciência e combalido de rins. Lá está ele em seu gabinete de trabalho, fossando à luza dum lampião os pronomes de Filinto Elísio. Corcovado, magro, seco, óculos de latão no nariz, careca, celibatário impenitente, dez horas de aulas por dia, duzentos mil réis por mês e o rim volta e meia a fazer-se lembrado.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Já leu tudo. Sua vida foi sempre o mesmo poento idílio com as veneráveis costaneiras onde cabeceiam os clássicos lusitanos. Versou-os um por um com mão diurna e noturna. Sabe-os de cór, conhece-os pela morrinha, distingue pelo faro uma séca de Lucena duma esfalfa de Rodrigues Lobo. Digeriu todas as patranhas de Fernão Mendes Pinto. Obstruiu-se da broa encruada de Fr. Pantaleão do Aveiro. Na idade em que os rapazes correm atrás das raparigas, Aldrovando escabichava belchiores na pista dos mais esquecidos mestres da boa arte de maçar. Nunca dormiu entre braços de mulher. A mulher e o amor - mundo, diabo e carne eram para ele os alfarrábios freiráticos do quinhentismo, em cuja soporosa verborréia espapaçava os instintos lerdos, como porco em lameiro.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Em certa época viveu três anos acampado em Vieria. Depois vagabundeou, como um Robinson, pelas florestas de Bernardes.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Aldrovando nada sabia do mundo atual. Desprezava a natureza, negava o presente. Passarinho conhecia um só: o rouxinol de Bernadim Ribeiro. E se acaso o sabiá de Gonçalves Dias vinha citar "pomos de Hesperides" na laranjeira do seu quintal, Aldrovando esfogueteava-o com apostrofes:</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Salta fora, regionalismo de má sonância!</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">A língua lusa era-lhe um tabu sagrado que atingira a perfeição com Fr. Luiz de Sousa, e daí para cá, salvo lucilações esporádicas, vinha chafurdando no ingranzéu barbaresco.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- A ingresia d'hoje, declamava ele, está para a Língua, como o cadáver em putrefação está para o corpo vivo.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">E suspirava, condoído dos nossos destinos:</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Povo sem língua!... Não me sorri o futuro de Vera-Cruz...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">E não lhe objetassem que a língua é organismo vivo e que a temos a evoluir na boca do povo.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Língua? Chama você língua à garabulha bordalenga que estampam periódicos? Cá está um desses galicígrafos. Deletreemo-lo ao acaso.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">E, baixando as cangalhas, lia:</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;"><em>- Teve lugar ontem</em>... É língua esta espurcícia negral? Ó meu seráfico Frei Luiz, como te conspurcam o divino idioma estes sarrafaçais da moxinifada!</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- ... <em>no Trianon</em>... Por que, Trianon? Por que este perene barbarizar com alienígenos arrevesos? Tão bem ficava - a <em>Benfica</em>, ou, se querem neologismo de bom cunho o <em>Logratório</em>...Tarelos é que são, tarelos!</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">E suspirava deveras compungido.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Inútil prosseguir. A folha inteira cacografa-se por este teor. Aí! Onde param os boas letras d'antanho? Fez-se peru o níveo cisne. Ninguém atende à lei suma - Horácio! Impera o desprimor, e o mau gosto vige como suprema regra. A gálica intrujice é maré sem vazante. Quando penetro num livreiro o coração se me confrange ante o pélago de óperas barbarescas que nos vertem cá mercadores de má morte. E é de notar, outrossim, que a elas se vão as preferências do vulgacho. Muito não faz que vi com estes olhos um gentil mancebo preferir uma sordície de Oitavo Mirbelo, <em>Canhenho duma dama de servir</em>, (1) creio, à... advinhe ao que, amigo? <em>A Carta de Guia </em>do meu divino Francisco Manoel!...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Mas a evolução...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Basta. Conheço às sobejas a escolástica da época, a "evolução" darwinica, os vocábulos macacos - pitecofonemas que "evolveram", perderam o pelo e se vestem hoje à moda de França, com vidro no olho. Por amor a Frei Luiz, que ali daquela costaneira escandalizado nos ouve, não remanche o amigo na esquipática sesquipedalice.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Um biógrafo ao molde clássico separaria a vida de Aldrovando em duas fases distingas: a estática, em que apenas acumulou ciência, e a dinâmica, em que, transfeito em apóstolo, veio a campo com todas as armas para contrabater o monstro da corrupção.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Abriu campanha com memorável ofício ao congresso, pedindo leis repressivas contra os ácaros do idioma.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- "Leis, senhores, leis de Dracão, que diques sejam, e fossados, e alcaçares de granito prepostos à defensão do idioma. Mister sendo, a forca se restaure, que mais o baraço merece quem conspurca o sacro patrimônio da sã vernaculidade, que quem ao semelhante a vida tira. Vêde, senhores, os pronomes, em que lazeira jazem...</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Os pronomes, aí! Eram a tortura permanente do professor Aldrovando. Doía-lhe como punhalada vê-los por aí pré ou pospostos contra-regras elementares do dizer castiço. E sua representação alargou-se nesse pormenor, flagelante, concitando os pais da pátria à criação dum Santo Ofício gramatical.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Os ignaros congressistas, porém, riram-se da memória, e grandemente piaram sobre Aldrovando as mais cruéis chalaças.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Quer que instituamos patíbulo para os maus colocadores de pronomes! Isto seria auto-condenar-nos à morte! Tinha graça!</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Também lhe foi à pele a imprensa, com pilhérias soezes. E depois, o público. Ninguém alcançara a nobreza do seu gesto, e Aldrovando, com a mortificação n'alma, teve que mudar de rumo. Planeou recorrer ao púlpito dos jornais. Para isso mister foi, antes de nada, vencer o seu velho engulho pelos "galicígrafos de papel e graxa". Transigiu e, breve, desses "pulmões da pública opinião" apostrofou o país com o verbo tonante de Ezequiel. Encheu colunas e colunas de objurgatórias ultra violentas, escritas no mais estreme vernáculo.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Mas não foi entendido. Raro leitor metia os dentes naqueles intermináveis períodos engrenados à moda de Lucena; e ao cabo da aspérrima campanha viu que pregara em pleno deserto. Leram-no apenas a meia dúzia de Aldrovandos que vegetam sempre em toda parte, como notas rezinguentas da sinfonia universal.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">A massa dos leitores, entretanto, essa permaneceu alheia aos flamívomos pelouros da sua colubrina sem raia. E por fim os "periódicos" fecharam-lhe a porta no nariz, alegando falta de espaço e coisas.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">- Espaço não há para as sãs idéias, objurgou o enxotado, mas sobeja, e pressuroso, para quanto recende à podriqueira!... Gomorra! Sodoma! Fogos do céu virão um dia alimpar-vos a gafa!... exclamou, profético, sacudindo à soleira da redação o pó das cambaias botinas de elástico.</span></p>
<p><span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">Tentou em seguida ação mais direta, abrindo consultório gra