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	<title>beijar &amp;laquo; WordPress.com Tag Feed</title>
	<link>http://wordpress.com/tag/beijar/</link>
	<description>Feed of posts on WordPress.com tagged "beijar"</description>
	<pubDate>Mon, 06 Oct 2008 13:15:21 +0000</pubDate>

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	<language>en</language>

<item>
<title><![CDATA[O fogo que na branda cera ardia]]></title>
<link>http://espartilho.wordpress.com/?p=702</link>
<pubDate>Fri, 26 Sep 2008 01:15:58 +0000</pubDate>
<dc:creator>Chris</dc:creator>
<guid>http://espartilho.wordpress.com/2008/09/25/o-fogo-que-na-branda-cera-ardia-2/</guid>
<description><![CDATA[
Via Amante das Imagens
O fogo que na branda cera ardia,
Vendo o rosto gentil que eu na alma vejo,
S]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://espartilho.files.wordpress.com/2008/09/amante-das-imagens-52.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-701" title="amante-das-imagens-52" src="http://espartilho.wordpress.com/files/2008/09/amante-das-imagens-52.jpg" alt="" width="336" height="448" /></a></p>
<p style="text-align:center;">Via <a href="http://amantedasimagens.wordpress.com" target="_blank">Amante das Imagens</a></p>
<p class="MsoNormal">O fogo que na branda cera ardia,<br />
Vendo o rosto gentil que eu na alma vejo,<br />
Se acendeu de outro fogo do desejo,<br />
Por alcançar a luz que vence o dia.</p>
<p>Como de dous ardores se incendia,<br />
Da grande impaciência fez despejo,<br />
E, remetendo com furor sobejo,<br />
Vos foi beijar na parte onde se via.</p>
<p>Ditosa aquela flama, que se atreve<br />
A apagar seus ardores e tormentos<br />
Na vista de que o mundo tremer deve!</p>
<p>Namoram-se, Senhora, os Elementos<br />
De vós, e queima o fogo aquela neve<br />
Que queima corações e pensamentos.</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Comercial Antigo [Laka]]]></title>
<link>http://ohshittt.wordpress.com/?p=820</link>
<pubDate>Tue, 16 Sep 2008 04:00:41 +0000</pubDate>
<dc:creator>Kaah</dc:creator>
<guid>http://ohshittt.wordpress.com/2008/09/16/comercial-antigo/</guid>
<description><![CDATA[
Comerciais antigos são muito bons, é bom conhecermos ou relembrarmos um pouco da epoca q já se ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p><em><strong></strong></em></p>
<p>Comerciais antigos são muito bons, é bom conhecermos ou relembrarmos um pouco da epoca q já se foi.<br />
Fiquei vendo um monte desses comerciais no youtube até q achei esse, <em><strong>gente, eu amei!</strong> O melhor comercial q já vi.</em></p>
<p><span style='text-align:center; display: block;'><object width='425' height='350'><param name='movie' value='http://www.youtube.com/v/iopkQe1oS0c'></param><param name='wmode' value='transparent'></param><embed src='http://www.youtube.com/v/iopkQe1oS0c&rel=0' type='application/x-shockwave-flash' wmode='transparent' width='425' height='350'></embed></object></span></p>
<p>Amanhã vou postar um muito bom tbm!!</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[O fogo que na branda cera ardia]]></title>
<link>http://espartilho.wordpress.com/?p=539</link>
<pubDate>Sun, 24 Aug 2008 14:28:18 +0000</pubDate>
<dc:creator>Chris</dc:creator>
<guid>http://espartilho.wordpress.com/2008/08/24/o-fogo-que-na-branda-cera-ardia/</guid>
<description><![CDATA[
Via Frivolités des Philtre


O fogo que na branda cera ardia 
O fogo que na branda cera ardia,
Ven]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://espartilho.files.wordpress.com/2008/08/257765-tim.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-538" src="http://espartilho.wordpress.com/files/2008/08/257765-tim.jpg" alt="" width="267" height="400" /></a></p>
<p style="text-align:center;">Via Frivolités des Philtre</p>
<p style="text-align:center;">
<p style="text-align:center;">
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;">O fogo que na branda cera ardia </span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-size:10pt;">O fogo que na branda cera ardia,<br />
Vendo o rosto gentil que eu na alma vejo,<br />
Se acendeu de outro fogo do desejo,<br />
Por alcançar a luz que vence o dia.</span></p>
<p>Como de dous ardores se incendia,<br />
Da grande impaciência fez despejo,<br />
E, remetendo com furor sobejo,<br />
Vos foi beijar na parte onde se via.</p>
<p>Ditosa aquela flama, que se atreve<br />
A apagar seus ardores e tormentos<br />
Na vista de que o mundo tremer deve!</p>
<p>Namoram-se, Senhora, os Elementos<br />
De vós, e queima o fogo aquela neve<br />
Que queima corações e pensamentos.</p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-size:10pt;"> </span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-size:10pt;">(Luís Vaz de Camões)</span></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[O BEIJO DE CADA SIGNO - Compatibilidade de signos]]></title>
<link>http://compatibilidadeamorosa.wordpress.com/?p=6</link>
<pubDate>Thu, 07 Aug 2008 13:02:27 +0000</pubDate>
<dc:creator>blogyastrologia16</dc:creator>
<guid>http://compatibilidadeamorosa.wordpress.com/2008/08/07/o-beijo-de-cada-signo-compatibilidade-de-signos/</guid>
<description><![CDATA[
Você vai ver nesse artigo a compatibilidade de signos veja com qual signo o seu é compatível.
]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p class="Style9"><a href="http://compatibilidadeamorosa.files.wordpress.com/2008/08/beijo211.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-7" src="http://compatibilidadeamorosa.wordpress.com/files/2008/08/beijo211.jpg" alt="" width="323" height="430" /></a></p>
<p class="Style10" align="justify">Você vai ver nesse artigo a compatibilidade de signos veja com qual signo o seu é compatível.</p>
<p class="Style10" align="justify"><strong>O beijo de Áries</strong></p>
<p class="Style10" align="justify">O ariano beija com o corpo todo. Ele pulsa, ele se entrega… e ao mesmo tempo ele domina. Percorre a boca desejada com fogo e paixão. Não é dado a beijocas superficiais, pois gosta de sentir uma emoção e uma energia intensas nesse momento especial.</p>
<p class="Style10" align="justify">-Para agradar um <strong>ariano</strong>, dê-lhe um <strong>beijo demorado e bem romântico</strong>.</p>
<p class="Style10" align="justify"><strong>O beijo de Touro</strong></p>
<p class="Style10" align="justify">O <strong>taurino</strong> tem um <strong>beijo</strong> guloso, profundo, altamente sensual.<br />
Ele aprecia o sabor, o calor, a textura da boca beijada.<br />
Não tem pressa, e é capaz de ficar longos minutos deliciando-se com o gosto da pessoa amada.</p>
<p class="Style10" align="justify">-Quem é de Touro gosta de beijos quentes, sensuais, daqueles que não conhecem limites.</p>
<p class="Style10" align="justify"><strong>O beijo de Gêmeos</strong></p>
<p class="Style10" align="justify">O <strong>geminiano</strong> gosta de alternar beijos mais profundos e intensos com leves beijocas e brincadeiras com a ponta da língua, percorrendo os contorno da boca da pessoa amada, mordiscando-a, saboreando-a. É um beijo meio moleque, gostoso, jovial e cativante.<br />
-Quer fazer um <strong>geminiano</strong> derreter-se aos seus pés?<br />
Então comece com um beijinho de leve em sua orelha</p>
<p class="Style10" align="justify"><strong>O beijo de Câncer</strong></p>
<p class="Style10" align="justify">O <strong>canceriano</strong> coloca a própria alma no ato de beijar.</p>
<p class="Style10" align="justify">No momento em que seus lábios se unem à boca da pessoa amada, ele traduz o mais puro romantismo, e faz dessa carícia uma verdadeira declaração de amor.<br />
-Conquiste um canceriano enchendo de beijos suaves e bem românticos.</p>
<p class="Style10" align="justify"><strong>O beijo de Leão</strong></p>
<p class="Style10" align="justify">O <strong>leonino</strong> acredita que beijar é uma arte. Por isso, ele se esmera em percorrer docemente a boca do parceiro, alternando carícias suaves com outras mais ardentes. Seu beijo tem gosto de paixão, de desejo, de força e intensidade. Enfim, é um beijo de Fogo, capaz de seduzir e incendiar.</p>
<p class="Style10" align="justify">-O leonino faz questão de deixar bastante claro que beija muito bem. Assim, mostre a eles que seus beijos também são ótimos.</p>
<p class="Style10" align="justify"><strong>O beijo de Virgem</strong></p>
<p class="Style10" align="justify">O <strong>virginiano</strong> é perfeccionista até no beijo. Que grande qualidade! Ele toma o maior cuidado para que a pessoa amada se sinta plenamente envolvida pela carícia de seus lábios suaves e de sua língua ávida de sensações. É um beijo intenso, molhado, delicioso!</p>
<p class="Style10" align="justify">-O <strong>virginiano</strong> pode se assustar se você chegar cobrindo-o de beijos, então vá com calma e faça com que ele confie em você.</p>
<p class="Style10" align="justify"><strong>O beijo de Libra</strong></p>
<p class="Style10" align="justify">O <strong>libriano</strong> beija no estilo romântico. Com seus lábios doces e ao mesmo tempo ousados, ele conduz a pessoa amada para um lindo cenário, feito de flores, nascentes de água e pôr-do-Sol. Impossível não se entregar à carícia feita por essa boca que sempre parecer querer “algo mais”…</p>
<p class="Style10" align="justify">-Para fazer um <strong>libriano</strong> se lembrar pra sempre do seu beijo é preciso usar dois ingredientes fundamentais: ternura e sensualidade.</p>
<p class="Style10" align="justify"><strong>O beijo de Escorpião</strong></p>
<p class="Style10" align="justify">O <strong>escorpiano</strong> faz do beijo uma extensão do ato sexual. É um beijo erótico, quente, convidativo, que faz pensar nas cenas mais loucas e ardentes. É um beijo-armadilha, um beijo-sedução, um beijo-paixão… Uma experiência inesquecível!</p>
<p class="Style10" align="justify">-As pessoas deste signo adoram levar seu amor à loucura com seus beijos. Então, que tal virar o jogo e dar a eles um pouco deste seu doce veneno?</p>
<p class="Style10" align="justify"><strong>O beijo de Sagitário</strong></p>
<p class="Style10" align="justify">O <strong>sagitariano</strong> não beija apenas com a boca, mas com o corpo todo. Ele percorre o corpo da pessoa amada como se quisesse invadi-lo, conhecer todos os seus segredos, ultrapassar fronteiras. É um beijo quente e sensual, com um quê de selvagem, com cheiro de feno e sabor de aventura.</p>
<p class="Style10" align="justify">-Um beijo cheio de paixão fascina quem é de Sagitário. Agora, para que este fascínio vire paixão, acrescente um ingrediente: a natureza como cenário.</p>
<p class="Style10" align="justify"><strong>O beijo de Capricórnio</strong></p>
<p class="Style10" align="justify">O <strong>capricorniano</strong> beija meticulosamente. Começa devagarzinho, como se quisesse tomar posse do “território desconhecido”… Depois, ele vai se aprofundando mais e mais, em busca de uma intensidade cada vez maior. É um beijo prolongado, desses que rouba o fôlego e deixam um gostinho de “quero mais”…</p>
<p class="Style10" align="justify">-O <strong>capricorniano</strong> vai começar a beijar você de forma discreta. Mas de repente um vulcão pode entrar em erupção. Assim, pegue fogo antes dele.</p>
<p class="Style10" align="justify"><strong>O beijo de Aquário</strong></p>
<p class="Style10" align="justify">O <strong>aquariano</strong> beija como se quisesse desafiar as expectativas da pessoa amada. Alterna beijos carinhosos com outros de pura volúpia, e é capaz de transmitir um desejo intenso com o mais simples toque de lábios… Está sempre em busca de sensações novas e não tem medo de ousar.</p>
<p class="Style10" align="justify">-O que o <strong>aquariano</strong> que é saber se está agradando de verdade, com seu beijo tentador. Deixe-o com a certeza que depois do primeiro virão muitos outros carinhos.</p>
<p class="Style10" align="justify"><strong>O beijo de Peixes</strong></p>
<p class="Style10" align="justify">O <strong>pisciano</strong> tem um beijo inteiramente devotado à pessoa amada. É um beijo-doação, em que ele procura proporcionar o máximo de sensações, de prazeres, de sabores e calores… Por isso mesmo, é um beijo delicioso, que nunca se repete, mas se supera a cada nova experiência.</p>
<p class="Style10" align="justify">-Para agradar a pessoa deste signo não permita que as palavras atrapalhem este momento mágico. E se quiser conquistar de vez, beije-a suavemente.</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Beijar - Ciência ou Arte?]]></title>
<link>http://frankherles.wordpress.com/?p=254</link>
<pubDate>Tue, 08 Jul 2008 11:47:46 +0000</pubDate>
<dc:creator>frankherles</dc:creator>
<guid>http://frankherles.wordpress.com/2008/07/08/beijar-ciencia-ou-arte/</guid>
<description><![CDATA[Por Anne M Ferraz
Beijo é uma demonstração de carinho, ternura, tesão, desejo, amor, respeito, ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="right"><span style="font-size:8pt;" lang="PT-BR"><span style="font-family:Verdana;">Por Anne M Ferraz</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-size:8pt;" lang="PT-BR"><span style="font-family:Verdana;">Beijo é uma demonstração de carinho, ternura, tesão, desejo, amor, respeito, amizade, consideração… </span></span><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">O primeiro beijo foi dado pelo Senhor nosso Deus: “Então Yahweh Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente.” (Gn. 2:7). Com este Sopro Vital D’us nos deu o espírito – centelha do Seu Próprio Ser -, criando nossas vidas. Um ato de Amor Supremo e indescritível.</span></span></p>
<blockquote>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify">
</blockquote>
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<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify">
</blockquote>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify">
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;"><strong>A Origem</strong></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">A origem do beijo perde-se nas brunas do passado, mas há três teorias a respeito:</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">a. Uma sofisticação das mordidas que os macacos trocavam nos seus ritos pré-sexuais (Charles Darwin - 1809/1882);</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">b. Uma evolução das lambidas que o homem pré-histórico dava no rosto das companheiras e companheiros para suprir a necessidade de sal de seu organismo; e,</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">c. Um ato de amor das mães na época das cavernas que, sem utensílios para cortar os alimentos, mastigavam a comida antes de a depositar na boca dos seus bebes.</span></span></p>
<blockquote>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify">
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<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify">
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<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify">
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;"><strong>A História</strong></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">Na Suméria (antiga Mesopotâmia), as pessoas costumavam enviar beijos para os céus, endereçados aos deuses, em sinal de agradecimento ou demonstração de fé.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">Em Israel (século 18 a.C.) o beijo entre familiares era uma prática comum (Gn 27:26, 29:11, 31:28, 32:1, 48:10, 2Sm 14:33, Ct 8:1, etc.). Na época de Jesus Cristo, os convidados normalmente eram beijados à entrada da casa (Lc 7:45); era com um beijo na face que os antigos cristãos se saudavam (Rm 16:16), como símbolo de fraternidade cristã. Jesus Cristo beijou os pés dos apóstolos em sinal de humildade e Judas traiu Jesus com um beijo (Mt 26:48 e 49). O beijo não tinha conotação maliciosa; era um cumprimento fraternal de amor humano.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">Os homens persas e árabes beijavam com a bova fechada para selar negócios ou compromissos. Os gregos beijavam membros da família, parentes, amigos e até guerreiros no retorno de combates. Os romanos gostavam tanto de beijar que no idioma latim existe três palavras para destiguir o beijo: osculum, beijo na face; basium, beijo na boca; e saevium, beijo leve e com carinho.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">Na Europa medieval os nobres beijavam-se com a boca fechada para selar alianças – se fosse muito rápido poderia significar sinal de traição! Nessa mesma época os burgueses beijavam na face como sinal de saudação. A peste negra acabou com esses costumes.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">No século 16 os homens substituíram o beijo na boca pelo abraço cerimonial, chegando ao aperto de mão que conhecemos hoje.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">O Romantismo do século 18 deu ênfase à poesia, ao individualismo e à sensibilidade, contribuindo para que o beijo na boca entre casais enamorados se tornasse popular.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">No século 19 o feminismo liberou a mulher ocidental (infelizmente em diversas partes do mundo a mulher ainda continua sendo um objeto de reprodução e prazer; um utensílio doméstico) das correntes dos preconceitos e da ignorância, tornando-a livre e sem receios de expor seus desejos. Este fato foi a gota final para tornar o beijo na boca entre casais uma prática tão usual e tão deliciosamente recomendada àqueles que se amam, que se gostam.</span></span></p>
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<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;"><strong>Benefícios do Beijo</strong></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">O beijo dar prazer e produz vários benefícios físicos, emocionais e psicologicos.  O toque ardente dos lábios movimenta 29 músculos, provoca a pressão de até 12 quilos de um rosto contra o outro e eleva os batimentos cardíacos de 70 para 150 por minuto: Essa pressão sanguíneo extra aumenta a oxigenação das células, estimula as funções circulatórias, reduz insônias, cansaços, dores de cabeça e lombares, acalma, ajuda a libertar sentimentos reprimidos, diminui complexos de rejeição, alivia o stress…</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">A cada beijo de língua, trocam-se 250 bactérias junto com a saliva, o corpo queima 12 calorias, a produção hormonal aumenta e o nível de </span></span><a name="PVW"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">serotonina</span></span></a><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;"> (substância química que dá a sensação de euforia e relaxamento) cresce. O olhar, tato, paladar, olfato e audição intensificam-se, aumentando o prazer e provocando o desejo sexual. Isto tudo ocorre porque “os lábios e língua só perdem em sensibilidade para o clitóris e a glande”, afirma o sexólogo americano Daniel Stein. Além disto há dois outros aspectos importantes a serem abordados:</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">a. A Fantasia - No imaginário masculino a boca assemelha-se à vulva, o que torna um beijo de língua tremendamente excitante. Para nós essa carícia faz lembrar a penetração do pênis na vagina.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">b. Termômetro de afetividade - Para diversos sexólogos o beijo é considerado um dos principais ingredientes da vida efetiva. Se um casal não está feliz um com o outro podem até conviverem e fazerem sexo, mas raramente se beijam. Normalmente isto significa ausência ou carência de afetividade, pois beijar exige carinho, desejo, ligação, intimidade…</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">Esta questão de afetividade foi estudada pela pesquisadora inglesa Martha Stein, em 1980, ao avaliar o comportamento de 64 prostitutas. Ela assistiu, escondida em quartos de motel, 1.230 relações sexuais. Na maioria delas não ocorreu beijo na boca, porque “as mulheres tinham medo de apaixonar-se”.</span></span></p>
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</blockquote>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify">
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;"><strong>Tipos e significados</strong></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">1. Rápido e Lento - Um beijo rápido seguido por outro demorado revela Paixão. Se a iniciativa partiu dele significa que você está com um peixe na rede; se a iniciativa partiu dela, saiba que ela poderá até demorar um pouquinho para se entregar a você, mas quando o fizer é para valer;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">2. Lento e Molhado - Beijo que parece não ter hora para terminar. Quem tomou a iniciativa sabe muito bem o que deseja: você;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">3. Selinho - Beijo com a boca fechada, usa-se somente os lábios. Gesto de carinho com pessoas queridas que pode significar sólidas e liberais amizades ou desejos de ir além;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">4. Impetuoso - Beijo forte com a boca aberta. Quem tomou a iniciativa revela-se dono de uma personalidade forte, possivelmente uma pessoa ciumenta;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">5. Carinhoso - Beijo de língua acompanhado com suaves carinhos nos cabelos ou face de quem é beijada. Quem tomou a iniciativa revela-se uma pessoa sincera, que gosta verdadeiramente de você e adora dividir emoções;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">6. Picolé - Ela poe a língua para fora - em forma de cone - ele a chupa como um picolé, ao mesmo tempo que com uma das mãos, massageia parte do corpo dela. Depois inverte-se as posições.</span></span></p>
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<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;"><strong>Técnica Stein</strong></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">Saber beijar é tão instintivo como andar. Cada um à sua forma todos acabam aprendendo, mas não custa aperfeiçoar sua técnica: O sexólogo americano Daniel Stein sugere sete passos para um bom e gostoso beijo em que se ama:</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">1. Escorregue os lábios do seu parceiro entre os seus como se estivesse a sugar um pudim de uma colher;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">2. Sugue, mordisque, pressione os seus lábios contra os dele;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">3. Expire e inale sobre os lábios úmidos;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">4. Dê três beijos leves;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">5. Faça uma pausa de instantes;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">6. Volte a beijá-lo, agora intensamente; e,</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">7. Quando sentir que ele quer mais, volte ao ponto de partida.</span></span></p>
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<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;"><strong>Técnica Carneiro</strong></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">O jornalista brasileiro Pedro P. Carneiro, autor do livro o “Dossiê do Beijo”, afirma que “o beijo mais gostoso é o imprevisível. E o predileto acontece quando as bocas se casam, quando existe a química, quando as duas pessoas se doam – tudo depende da carga emotiva envolvida. Carneiro sugere quatro passos para um bom e gostoso beijo em que se ama:</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">1. Praticamente encostando seu rosto no da sua parceira, olhe dentro dos olhos e massagei a nuca dela. Isto fará com que o sangue flua melhor e ela relaxe;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">2. Chegue um pouco mais perto do rosto dela, encoste os lábios sem beijar e inspire-a lentamente, gravando sons e fragrâncias;</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">3. Roçe seus lábios nos dela, acariciando suas faces com suas mãos e dê um leve beijo; e,</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">4. Olhe novamente dentro dos olhos dela e dê o maior beijo que puder.</span></span></p>
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<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;"><strong>Fonte</strong></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-indent:20px;line-height:100%;margin:0;" align="justify"><span style="font-family:Verdana;"><span style="font-size:8pt;">01.   Carneiro, Pedro Paulo. Dossiê do Beijo”, editora Catedral das Letras, SP, Brasil.</span></span></p>
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]]></content:encoded>
</item>
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<title><![CDATA[Alice]]></title>
<link>http://omarkhayyam2.wordpress.com/?p=140</link>
<pubDate>Sun, 01 Jun 2008 16:50:45 +0000</pubDate>
<dc:creator>Vanderdecken</dc:creator>
<guid>http://omarkhayyam2.wordpress.com/2008/06/01/alice/</guid>
<description><![CDATA[Alice chegou virgem ao seu décimo sexto aniversário. Tinha sido este o seu trato com Ricardo e Mar]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><a href="http://bp3.blogger.com/_UEfhPJXHLPM/SEEk-WmDNaI/AAAAAAAAAYc/GfrZGSpQ1XA/s1600-h/Gothic_Bellydancer_by_dirtyelfprincess.jpg"><img style="float:right;cursor:pointer;width:190px;height:242px;margin:0 0 10px 10px;" src="http://bp3.blogger.com/_UEfhPJXHLPM/SEEk-WmDNaI/AAAAAAAAAYc/GfrZGSpQ1XA/s320/Gothic_Bellydancer_by_dirtyelfprincess.jpg" border="0" alt="" /></a><span style="font-size:100%;">Alice chegou virgem ao seu décimo sexto aniversário. Tinha sido este o seu trato com Ricardo e Mariana: acolitá-los nos seus amores e nos seus rituais, mas nunca os tocar sexualmente nem ser tocada por eles. O contacto físico não lhe era proibido quando resultasse duma necessidade prática, como pentear Mariana ou ajudá-la a vestir-se, ou até como expressão casual de afecto, mas enquanto manifestação erótica estava fora dos limites estabelecidos. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Do mesmo modo, ninguém se importava que ela os visse nus no quarto de banho ou na piscina, nem que assistisse sem intervir aos seus amplexos de amantes ou aos seus rituais de Senhor e escrava. Afinal tinha sido isto mesmo que ela tinha pedido para aprender quando tinha reunido toda a sua coragem, anos antes, <span> </span>para se abeirar de Ricardo. Assim, assistiu muitas vezes, aparentemente sem outra emoção que não fosse uma intensa mas remota curiosidade, à penetração de Mariana por Ricardo; à liberdade absoluta com que ele lhe usava a vagina, a boca, a abertura anal, fazendo-a gemer de prazer ou gritar de dor; e até aos castigos físicos, muitas vezes cruéis, que ele a fazia sofrer e ela depois agradecia beijando-lhe a mão.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">A tudo isto ela assistia como à mais convencional das rotinas. Porém todos os três sabiam que esta impassibilidade era apenas uma aparência e que por trás dela se escondia um veemente desejo de aprender. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Se Alice entrasse sem bater, como era regra, numa parte da casa onde Ricardo se preparasse para possuir ou punir Mariana, ou onde algum dos dois estivesse despido para o duche ou para o banho de sol, fazia e dizia com naturalidade o que tivesse a fazer ou a dizer, e demorava-se o que tivesse a demorar-se: nem menos, nem mais. A mesma regra se aplicava às gémeas Circe e Atena; e em menor grau a quaisquer criadas que Ricardo e Mariana tivessem ao seu serviço, a quem eram pagos salários elevados em troca desta discrição. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Apesar deste despudor institucionalizado, Alice coibia-se um pouco de aparecer nua perante os donos da casa. Sabia que um dia havia de ter, tal como Mariana, um Senhor, mas este Senhor não seria Ricardo; e não via razão para que este desfrutasse com demasiada frequência da visão de um corpo em cuja posse não estava interessado. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Com Circe e Atena não mostrava o mesmo pudor, nem as gémeas em relação a ela. Deusas, ninfas ou génios tutelares, era-lhes igual mover-se pela casa nuas ou envoltas nos seus panejamentos azul-poeira; ou ainda, revezando-se, vestidas como empregadas domésticas tradicionais, indumentária esta que de tão incongruente lhes dava um ar de deusas ou princesas disfarçadas, como numa comédia barroca. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Por outro lado, diante de deusas qualquer espécie de roupa parece vã e qualquer pudor parece frívolo: daí que Alice aceitasse ser banhada e vestida pelas gémeas com a mesma naturalidade com que Mariana aceitava os mesmos serviços de Alice.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Alice não tinha namorado. Também isto fazia parte do trato que fizera com Ricardo. Na escola as outras raparigas achavam estranho que ela se calasse quando a conversa tratava de namoros e aventuras eróticas. Era uma geração em que as raparigas se gabavam, como em gerações anteriores só os rapazes, das suas proezas sexuais: aventuras reais ou imaginadas, bebedeiras, excessos de toda a ordem, acrobacias inverosímeis, penetrações diversas. Só ela não entrava nestas conversas – ela, e também as bem comportadas, as tímidas, as “chocas”; mas ninguém confundia Alice com estas. O silêncio discreto de Alice não provinha de timidez ou fraqueza; as jovens feras que eram as suas colegas sentiam isto, ainda que confusamente; e como não a sentiam vulnerável não a perseguiam nem atormentavam como com crueldade e gáudio faziam às “chocas”. Pelo contrário, olhavam-na com uma mistura de curiosidade e temor, enquanto ela sorria interiormente do saber rudimentar que elas exibiam como se de sofisticação e experiência se tratasse.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Circe e Atena deambulavam frequentemente, juntas ou separadas, pelo mundo mediterrânico. Eram umas estranhas viagens, que nunca se percebia bem se eram de negócios, de família ou de turismo; corriam deste modo a Europa toda; uma vez foram à Índia, onde Alice viu pela primeira vez gente parecida com as gémeas no corpo, na cor e nas feições; outra vez foram ao Sul de Marrocos, onde Alice viu as mulheres berberes de rosto destapado, com decorações que pareciam tatuagens no rosto e nas mãos; os tuaregues, que também são berberes, vestiam-se como as gémeas, dos mesmos tons de azul. Por toda a parte as duas irmãs aparentavam ter familiares, amigos ou associados: mas um dos seus destinos mais frequentes era a Tunísia, o bairro de Túnis correspondente à antiga Cartago dos Fenícios, e foi aqui que se deu a primeira grande viragem no destino de Alice. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Na estação arqueológica estava quase sempre um rapaz muito novo que pelo aspecto poderia ser um parente próximo das gémeas: tão escuro de pele como elas, mas com as feições e o cabelo de um europeu. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Alice viu-o pela primeira vez nos arredores da estação arqueológica de Cartago, sentado num banco desdobrável, diante de um pequeno cavalete, a desenhar. Ao passar com Circe e Atena em direcção ao alojamento que lhes tinha sido destinado, a adolescente mal teve tempo de reparar nele: um vulto envolto nos mesmos panos azuis e cor de lousa que as suas mentoras habitualmente usavam e que a faziam sentir ridícula nos seus jeans de marca e blusões de couro – roupas europeias, urbanas, industriais, que a isolavam do ar e do mundo à sua volta. O jovem teria talvez dezoito ou vinte anos, mas Alice não teve tempo para o ver melhor. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">As gémeas saudaram-no com um aceno, ao que ele respondeu com outro para logo se concentrar de novo no trabalho. Alice não viu o que ele estava a desenhar, mas a única coisa que lhe podia servir de modelo era uma massa de cactos, daqueles cujo fruto a se chama figo do diabo ou figo do inferno. Depois, quando ele lhe foi apresentado – chamava-se Harun e apesar do ar de família não foi mencionado qualquer parentesco entre ele e as gémeas – Alice encontrou-se perante um jovem adulto que, apesar de ser apenas um pouco mais velho do que ela, mostrava a autoridade e a experiência de um homem maduro – um homem que suscitava o respeito e mesmo a deferência de todos os presentes, incluindo as gémeas. Tinha no olhar e na postura a altivez meio selvagem duma ave de rapina: o mesmo orgulho que Alice conhecia em Ricardo, um modo de olhar para ela que só não era insolente porque parecia pertencer-lhe por direito incontestável.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Naquele minuto Alice soube sem qualquer dúvida que tinha encontrado o seu Senhor, e que não tinha errado na sua decisão quando iniciara a sua aprendizagem junto de Ricardo e Mariana.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Alice, a rebelde, a selvagem, a virgem guerreira meio <em>punk</em> e meio gótica; Alice, a rebarbativa, a sarcástica – sentiu-se uma fêmea diante de Harun: uma femeazinha macia e dengosa como tantas a quem sempre desprezara. Nos dias que se seguiram começou a prestar-lhe pequenos serviços: transportava-lhe o cavalete, levava-lhe chá de menta muito quente, que é o que melhor mata a sede nos grandes calores do Magrebe, ou ficava simplesmente sentada na poeira ao lado dele, à espera de lhe poder ser útil de qualquer outra maneira. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Começou a vestir <em>caftan</em> em lugar dos seus <em>jeans</em> e <em>T-shirts</em>, a calçar babuchas mouriscas em lugar dos seus característicos Doc Martens. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">E depois, de novo em Portugal, tantas vezes falou de Harun às gémeas, tão repetidamente traiu a fascinação que sentia por ele, que Circe acabou por lhe dizer:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– A menina descanse, há-de ser dele.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">E esta expressão, “ser dele”, que a jovem teria desprezado um ou dois meses antes como linguagem de telenovela, parecia-lhe agora apropriada e justa – como era apropriada e justa, não era preciso dizê-lo, aplicada a Mariana e a Ricardo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Nas viagens que fazia com as gémeas encontrava-se muitas vezes com ele, fosse por acaso ou por desígnio: na Tunísia, em Heidelberg, em Paris, em Brugges. Ou então era ele que visitava as gémeas em Braga, onde Ricardo o recebia como se já o conhecesse de antes. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Às vezes fazia-se acompanhar de namoradas, o que provocava em Alice, que já se sentia com direitos sobre ele, ciúmes terríveis.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Que direito tem a menina a ter ciúmes? – perguntavam-lhe as gémeas, quando ela, não podendo mais, ousava queixar-se. – Ainda não é dele; e mesmo quando for propriedade dele, ele não vai ser de certeza propriedade sua. Se além da menina ele quiser ter uma, ou duas, ou dez escravas, estará no seu direito, e a menina só terá que se dar com elas o melhor que puder.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Mas o Ricardo só tem a Mariana – objectava a jovem.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Pois tem, mas isso é uma decisão só dele, que tem a ver só com a natureza dele. A natureza do senhor Harun pode ser parecida com a do senhor Ricardo neste aspecto, mas também pode ser muito diferente: a menina é que vai ter que se adaptar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Nada disto diminuía os ciúmes de Alice, exacerbados pelo facto de as suas rivais tratarem Harun com uma deferência que nelas lhe parecia servil e falsa: e iludia-se pensando que se a mesma deferência fosse exibida por ela própria, então seria sem dúvida dignificada e honesta.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Uma destas efémeras namoradas, uma jovenzinha muito loura e muito branca, vestida à oriental, que só falava alemão, pareceu-lhe de todas a mais fingida (ou a mais iludida) com a docilidade exagerada de que fazia alarde, tão contrária ao pendor bravio que Alice sabia ser o seu.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Não se preocupe – dizia-lhe Circe. – Ele já reparou na menina há muito tempo, embora não o mostre. E quer a menina para ele. Essas namoradas com que a menina o via não passam de submissas: nenhuma foi propriedade dele de verdade como a menina há-de ser.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">O que era uma submissa? Alice sabia o que era uma escrava: era uma mulher como Mariana, a quem ela tinha escolhido como modelo e ideal de vida. Mas não sabia o que significava a palvra “submissa” a não ser como adjectivo, e isso era o que tanto ela como Mariana eram em relação aos seus Senhores; e Circe também não a esclareceu. De tudo isto só se depreendia, concluiu Alice, que se estava a preparar qualquer coisa que ela não podia saber mas de que todos em casa de Ricardo tinham conhecimento. Por ela, tudo bem, podia esperar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Como que para confirmar esta impressão, a certa altura Harun começou a aparecer sozinho. Na Europa não usava a <em>djalaba</em> nem os panejamentos com que Alice o tinha conhecido na Tunísia: em vez disso apresentava-se no traje convencional de um europeu que não quer dar nas vistas: botas Timberland, jeans nem muito novas nem muito velhas, e T-shirt de algodão sem desenhos nem letras. Sobre isto punha, pelo tempo frio, um robusto blusão de aviador; e no resto do ano um blusão em cabedal preto, fino e flexível, sem adornos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Depressa ganharam o hábito de andar juntos. Calcorrearam, nos seus diversos encontros, as ruas de Túnis, de Braga, de Lisboa, de Heidelberg, de Brugges. Ao princípio caminhavam lado a lado pelas ruas, depois ela foi ganhando o hábito de caminhar um pouco atrás dele – não ostensivamente, como as magrebinas com quem muitas vezes se cruzavam, mas discretamente, a meio passo de distância ou menos. Nos recantos dos jardins, nos vãos das portas, trocaram alguns beijos e carícias, manifestações de afecto que só a pouco e pouco se foram erotizando, e que ao erotizar-se foram adquirindo, por vezes, o carácter de um tributo respeitosamente prestado e graciosamente recebido. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Não foram precisas muitas palavras para que a certa altura se estabelecesse entre os dois um daqueles compromissos de que só os muito jovens são capazes: e se era nítido para ambos, tanto como para quem os conhecesse, que havia entre eles um contrato tácito, era igualmente nítido que não era, nem eles queriam que o fosse, um contrato entre iguais. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Tal como Ricardo e Mariana, também Circe e Atena seguiam com atenção esta coreografia de aproximação recíproca.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– A menina sabe que quando fizer dezasseis anos – disse-lhe Atena um dia – já pode deitar-se com um homem sem que ele vá preso. É a lei aqui em Portugal.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Alice não entendeu muito bem a que propósito veio este aviso, se aviso era. Para ela, a Virgem Guerreira, estas leis eram um disparate. Não se considerava uma “menor”. “Se eu quiser ir com um homem, ninguém tem nada com isso”, pensava; “e depois disso, se eu não quiser, também ninguém me obriga, e se obrigar não são cá precisos polícias nem tribunais para lhe fazer pagar bem caro o atrevimento.” </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− É por isso que andam todos a preparar o meu aniversário como se fosse a coroação da Rainha de Inglaterra? – retorquiu, subitamente furiosa. – Decidiram que eu ia ser desflorada no meu dia de anos? E quem é que decidiu isso? A minha opinião não conta?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Ninguém decidiu que a menina vai ser desflorada – respondeu Atena. – Quanto à opinião da menina, por hoje ainda conta; se vai contar ou não no seu dia de anos, isso depende do que combinar com o senhor Harun daqui até lá. O que se vai comemorar não é a desfloração da menina, que pode acontecer ou não acontecer nesse dia. O que se vai festejar é a menina passar a ser uma mulher aos olhos de todos. E esta festa vai ser só o princípio, depois vão ser precisas outras cerimónias… Esta parte vai ser só entre nós, as mulheres. A senhora também vai ajudar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">No espírito de Alice a ira deu lugar à curiosidade:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– A Mariana? Ajudar em quê? Que rituais são esses?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Depois verá. Não vai querer entregar-se ao seu Senhor ainda fechada, como uma ignorante…</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">O décimo sexto aniversário de Alice comemorou-se em Braga, na moradia de Ricardo. Quem tivesse assistido, de fora, à minúcia e vagar dos preparativos poderia concluir que ia haver uma longa lista de convidados. Mas não: de Heidelberg foi convidado o casal Liebknecht, Gunther e Silke, em casa de quem Mariana tinha jantado uma vez. De Túnis veio Harun, claro está; e não podia faltar a tia meio <em>hippie</em> de Alice, ou melhor, tia-avó, que no seu tempo tinha corrido meio mundo para depois tomar conta dela quando a menina deixou de ter outros familiares vivos. Esta tia tinha nome de pedra preciosa: Safira; e da prontidão com que tinha acedido ao pedido de Alice para se confiar à educação pouco convencional que lhe dariam Ricardo e Mariana a adolescente concluiu que o conhecimento de Safira e Ricardo, ou de Safira e Mariana, já vinha muito de trás. Para a ocasião a tia de Alice ataviou-se das suas mais belas sedas indianas – as mais escuras e discretas que tinha, de modo a permitir que a sobrinha brilhasse por contraste. Ao todo eram sete pessoas à mesa, com as gémeas a servir, vestidas de criadas – mas não criadas ocidentais, antes servas turcas de fantasia, com as suas calças de harém, os pés descalços, o fez vermelho na cabeça e o bolero curto que não apertava à frente e deixava ver, ao abrir-se, os seios nus.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Os anos duma mera adolescente preparam-se e comemoram-se geralmente em poucas horas: não foi assim com o aniversário de Alice. O maior esforço e despesa foram para as flores que encheram a casa e para as decorações do jardim. Mas a azáfama mais visível começou no dia anterior, com as compras de última hora e com a necessidade de ir buscar os convidados ao aeroporto. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">No jantar de festa Mariana usou, para adornar o pescoço, os pulsos e os pés, minúsculas safiras a condizer com o caríssimo, mas severo, vestido azul. Do mesmo azul a gravata de Ricardo, usada com camisa branca a fato cinzento. Gunther e Silke estavam de preto, como competia ao estilo da sua relação; e contrastando com toda esta severidade, Harun esperava de pé, junto à mesa, envolto numa indumentária sumptuosa de príncipe saudita, à cintura uma adaga com o punho e na bainha cobertos de pedras preciosas. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Alice foi, como lhe competia, a última a entrar na sala. Tal como todas as mulheres presentes, estava descalça; mas os pés mal se lhe viam sob a larga roda do vestido de debutante, todo em tons de rosa. As gémeas tinham gasto horas a lavá-la, a perfumá-la, a vesti-la, a penteá-la, a fazer-lhe uma leve maquilhagem, a enfeitá-la – tiara, brincos, colar, pulseira e uma fina corrente de ouro à volta do tornozelo direito, ligada por uma fiada de brilhantes a um anel no dedo do pé.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Harun recebeu-a, muito formal, à porta da sala de jantar e conduziu-a ao seu lugar à mesa, onde a fez sentar. Um ano antes Ricardo tinha começado a treinar Alice, que nunca tinha bebido álcool, a apreciar vinhos: e hoje ela podia, na sua festa, acompanhar cada prato com a bebida apropriada, um pouco de <em>Chablis</em> no fundo do copo, um tinto precioso do Douro a acompanhar a carne, Porto à sobremesa, champanhe aos brindes. De tudo quase só o suficiente para molhar os lábios. Vieram as prendas: de Ricardo um relógio, de Mariana um conjunto de roupa interior bordada, da tia Safira um <em>caftan</em> em seda, dos Liebknecht um alfinete para usar ao peito, das gémeas uns brincos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Harun deu-lhe uma pulseira de rubis. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Depois de ela a desembrulhar e pôr no pulso fez-se um silêncio na sala, como se a dádiva desta pulseira, que era no feitio daquelas a que se chama “escrava”, fosse o sinal combinado para algo de momentoso. No meio deste silêncio Harun levantou-se e ficou um momento, pálido e muito grave, a olhar de frente para Ricardo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Ricardo – disse Harun, – também eu, apesar de não fazer anos, tenho uma dádiva a pedir. Você sabe que dádiva é, todos aqui sabem. A Alice, que hoje se torna aos nossos olhos uma mulher, tem estado à sua guarda. Eu e ela fomos aprendendo a conhecer-nos; e concluímos os dois, sem margem para dúvidas, que é destino dela pertencer-me e destino meu possuí-la. Sabemos ambos, e agradecemos-lho do fundo do coração, que você nunca quis exercer sobre ela os direitos de um dono, mas também nunca recusou exercer as responsabilidades de um mentor. É nesta sua qualidade que ma entregará, se quiser aceder ao meu pedido − que também é o dela: aqui e agora, diante de todos; para que também ela, como a sua Mariana, tenha o Senhor que quer.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Alice corou um pouco. As palavras que ela própria tinha ajudado a escrever e a decorar soavam-lhe agora, saídas da boca de Harun, como um improviso surpreendente e ousado. Olhando à sua volta, viu todos suspensos da resposta de Ricardo, como se também eles estivessem, de facto, surpreendidos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Ricardo pôs-se de pé e encarou Harun; mas antes de responder desviou dele o olhar, virou-se para Alice, e perguntou:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Alice, ouviste o pedido que o Harun me fez. Ouviste-o dizer que é também o teu pedido. Isso é assim?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Alice teve que se esforçar para dizer em voz firme e clara as palavras que tinha preparado:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– O meu Senhor Harun falou por mim, Ricardo. É a ele que quero pertencer.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Mas Ricardo não se virou logo para Harun. Olhando para a tia de Alice, disse ainda:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Safira, ouviu o Harun pedir-me que lhe entregasse a Alice; podia igualmente ter-lho pedido a si, que é a única familiar que ela tem e sempre foi bem-vinda nesta casa. Por isso quero perguntar-lhe: Consente você também, tal como eu consinto, nesta entrega?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Safira sorriu e acenou, com lágrimas nos olhos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Pois bem – decidiu Ricardo. – Vá para ali, Harun, se faz favor, onde todos o possam ver. E tu, Alice, vai até ele; beija-lhe a mão em sinal do teu respeito.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Alice levantou-se da cadeira com as pernas a tremer. Levantando o vestido para não enredar nele os pés, dirigiu-se ao seu companheiro de tantas aventuras, agora quase irreconhecível na sua gravidade de homem feito; e pegou-lhe na mão para a beijar. Era uma mão magra e morena, de dedos finos e longos. Pôs nela os lábios, demoradamente, e depois ergueu o olhar ao encontro do dele, que a abraçou e beijou enquanto à volta da mesa as mulheres enxugavam uma ou outra lágrima.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Nessa noite Alice passou o serão sentada no tapete aos pés de Harun, como Mariana aos pés de Ricardo. Tinha tido um dia cheio: além de se preparar para a festa de anos tinha sido recrutada pelas gémeas – ela que nunca desempenhava tarefas domésticas – para preparar o quarto de Harun. Agora, sentada aos pés dele, lembrava-se que só tinham posto uma almofada na cama. A cama de Ricardo era sempre feita com duas almofadas embora Mariana dormisse muitas vezes no chão aos pés da cama e não ao lado do dono. Alice achava estranho que a cama de Harun não tivesse sido preparada também para ela, mas não ousou perguntar porquê. Cansada como estava, e com sono, não pensou em despedir-se e ir para o seu quarto. Pareceu-lhe que devia seguir o exemplo de Mariana, que por mais cansada que estivesse nunca se ia deitar antes do dono; e por outro lado não sabia o que ainda se esperava dela no fim deste seu dia de aniversário. Claro que se entregaria alegremente a Harun se isso lhe fosse exigido; mas não se imaginava ainda a servi-lo como Mariana fazia a Ricardo. Suspeitava intimamente que tudo isto era um mal entendido, que não passava duma miúda insignificante como as outras, que se iniciam sexualmente com miúdos meio parvos. Harun era um homem, com toda a complexidade e força de um homem verdadeiro. E Alice, mesmo que lhe fosse exigido servi-lo nessa mesma noite – o que faria de bom grado, e com carícias plenas – não ousaria ainda pôr o nome de escravidão à sua relação com ele, uma ligação incipiente que, comparada com o amor de Ricardo e Mariana – enraizado, complexo, variado, inabalável – seria ainda superficial e pobre. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Ao serão não se conversou muito: Ricardo pôs música clássica a tocar bastante alto, optando desta vez, não pela sua preferida música de câmara, mas sim por grandes orquestrações sinfónicas de pendor orientalizante ou exótico: o <em>Bolero</em> de Ravel, os <em>Quadros de uma Exposição</em> de Mussorgsky, as <em>Danças Polovtsianas</em> de Borodin, a <em>Dança do Sabre</em> de Khachaturian, as <em>Czardas</em> de Monti, as diversas marchas húngaras ou turcas de Mozart, Beethoven, Brahms – e naturalmente a peça preferida de Alice, aquela que a tinha despertado para a música clássica: a <em>Sinfonia Fantástica </em>de Berlioz, com toda a sua profusão de danças macabras, missas negras, reuniões de bruxas, procissões nocturnas e marchas para o suplício. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Apesar de ter aprendido a gostar de música clássica, especialmente das grandes composições sinfónicas de pendor místico ou romântico, a música preferida de Alice não era esta. No seu quarto e no MP3 tinha Loreena McKennitt, Enya e os Clannad, os Nightwish, grupos de black metal, Mafalda Veiga entre os portugueses, e ainda grupos tão diversos como The Cult, os Joy Division, os Bauhaus, os Pink Floyd ou os Red Hot Chilli Peppers, ou nomes individuais que iam de Peter Murphy a Frank Zappa; mas na sala e na biblioteca de Ricardo não era isto que geralmente se ouvia e Alice não se sentia lá deslocada.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Gunther e Silke beberam bastante, Safira também. Ricardo, Mariana e Alice só um pouco de vinho, o necessário para fazer civilizada justiça a cada prato. E Harun nem isso, só o champanhe do brinde que Ricardo propôs em honra de Alice, que hoje deixava de ser criança e começava a sua nova vida de mulher. Por insistência de Gunther, cantou-se a seguir ao jantar: uma canção tradicional de estudantes de Heidelberg, da qual pelos vistos todos os mais velhos sabiam a letra. Uma das estrofes ficou particularmente na memória de Alice:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:3pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;"> <em>Vivant omnes virgines Faculae, formosae; Vivant et mulieres, Tenerae, amabiles, Bonae, laboriosae, Bonae, laboriosae.</em></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Por fim Harun retirou-se com Ricardo para o escritório deste. Gunther foi para o jardim fumar um dos charutos de Ricardo. Mariana começou a arrumar a sala e a cozinha na companhia de Atena e Silke, mas, quando Alice fez menção de as ajudar, a outra gémea – que ao contrário da irmã tinha trocado o seu fantasioso uniforme de criada turca pelos seus habituais panejamentos azuis – fez-lhe sinal para que a seguisse.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">No quarto fê-la despir completamente e ordenou-lhe que se deitasse em cima da cama. Debruçando-se sobre o corpo dela, começou a examiná-la minuciosamente, dos dedos dos pés aos cabelos, tomando notas num pequeno caderno. Por fim ordenou-lhe que se sentasse em frente ao toucador.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Esta vai passar a ser a sua rotina todas as noites – observou. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Alice obedeceu. O toucador era muito baixo na zona do espelho, e quando a jovem, a uma ordem de Circe, abriu as pernas, viu reflectida a fenda do sexo e os lábios rosados da vulva por entre a pelugem sedosa que a velava tenuemente de negro.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Olhe bem para si. Veja o que tem a dar ao seu dono. Os pelos em baixo são para ficar: é assim que ele gosta. Depois, quando ele a tiver visto nua, podemos ter que lhes dar outro corte. O cabelo é para crescer. As unhas, vai passar a usá-las curtas e cortadas em quadrado. Esses vernizes pretos ou vermelhos que gosta de usar acabam hoje: a partir de agora serão nacarados ou transparentes, ou rosa pálido. E para já a primeira coisa que vamos fazer é tirar-lhe o verniz das mãos e dos pés.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">No toucador estavam já o frasco de acetona e as bolas de algodão que iam servir para isto. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Chegue o banco para trás, se não se importa – ordenou Circe.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Logo que teve espaço ajoelhou-se aos pés de Alice e começou a remover-lhe meticulosamente o verniz das unhas: primeiro as mãos, depois os pés. Com um leite de limpeza tirou-lhe a maquilhagem escura à roda dos olhos e o bâton cor de sangue que lhe avermelhava os lábios. Feito isto, molhou-lhe o cabelo com um spray, escovou-lho a direito e aparou-lhe algumas pontas mais espigadas, repetindo que aquilo era mesmo para crescer.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Agora vá lavar os dentes.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Alice assim fez, com pasta e escova e com uma máquina cuja cabeça rotativa lhe limpava todo o interior da boca com um finíssimo mas forte jacto de água.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Tire os <em>piercings</em>, por favor.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Alice não tinha outros <em>piercings</em> que não fossem um no umbigo, outro na ala do nariz e os brincos, mas mostrou-se renitente:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Não vou poder usar mais <em>piercings</em>?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Provavelmente vai – respondeu Circe. – Mas serão os que o seu dono ordenar, e não os que a menina quiser.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Sem resposta para isto, Alice obedeceu.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Agora um duche – apressou-a Circe. – Ande, mexa-se.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">No duche lavou-lhe o cabelo três vezes com champô; depois, com sabonete, o corpo todo, da cabeça aos pés. Para não molhar as roupas tinha-se posto também nua, e Alice sentia-se minúscula junto daquele corpo negro e gigantesco que a dominava completamente. Especial atenção foi dada ao ânus e à vagina: para lavar aquele Circe introduziu-lhe diversas vezes o dedo molhado em sabonete, e depois sem nada, só com o jacto de água do chuveiro. Esta última penetração doeu um pouco, mas Alice fez por não dar mostras disto. Lavar por dentro o sexo de Alice sem lhe romper o hímen exigiu o recurso a um irrigador vaginal com uma cânula muito fina, que as grandes mãos de Circe manejaram com uma delicadeza surpreendente.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">“Tanta coisa por causa duma convenção sem importância como a virgindade”, pensou Alice. “Uma membranazinha que não vale nada.” Contudo não deixava de se sentir lisonjeada com a atenção que toda a gente à sua volta prestava à tal membrana, como se todos naquela casa, incluindo a sua tia libertária e meio <em>hippie</em>, tivessem voltado ao século XIX ou à primeira metade do seguinte. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Terminado o duche, Circe secou Alice com uma toalha felpuda e alisou-lhe os cabelos com uma escova. Fazendo-a sentar num pufe, rapou-lhe cuidadosamente os pelos debaixo dos sovacos e depilou-lhe as pernas com cera quente. Depois de lhe observar cuidadosamente as sobrancelhas, decidiu deixá-las como estavam: eram negras, rectas e espessas, mas combinavam bem com os olhos escuros e brilhantes, os lábios carnudos e as duas covinhas aos cantos da boca. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Posso-me vestir? – perguntou a jovem, quando pensou que a <em>toilette</em> estava pronta. Circe sorriu antes de responder:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Ainda falta um bocado. Tem que aprender a cuidar de si para o seu dono, sabia? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">–E esta <em>toilette</em> toda é para ir ter com o Harun? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Quando ele a mandar chamar sou eu que a levo. Isto é, se a mandar chamar, pode não se querer servir da menina esta noite. Não é para ir ter com ele que se está a preparar,vai ser assim todas as noites: nunca se irá deitar sem estar arranjada.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– E vou ter-te a ti para me arranjares todas as noites?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Por pouco tempo, só até ter a sua criada. E além disso vai ter que aprender a fazer muitas coisas sozinha. Agora chega de conversa, as senhoras estão à espera, venha comigo. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Alice imaginou-se a ter uma criada, ela, a miúda meio selvagem que passava a vida a entrar e a sair, como um gato, da casa de Ricardo; mas a ideia não lhe desagradou e deixou-se conduzir, nua, através dos corredores da casa, até um compartimento junto ao quarto de Ricardo que Mariana utilizava muitas vezes como sua sala de estar privada. Sentadas no sofá ou em pufes estavam todas as mulheres que tinham estado presentes ao jantar: mas o que chamou imediatamente a atenção de Alice foi o objecto que se encontrava no centro da sala: uma sólida e pesada base de madeira da qual sobressaía, erguendo-se na vertical, um falo em ébano ou pau preto, minuciosamente esculpido com signos cabalísticos que lhe davam um aspecto rugoso, não muito diferente daquele que a tessitura das veias dá a um pénis natural. Só a glande, perfeita na forma, era perfeitamente lisa, como a de um pénis verdadeiro. Pénis verdadeiros, erectos, Alice só tinha visto um, o de Ricardo, e tocado noutro, o de Harun. À luz das velas, que eram a única iluminação da sala e espalhavam no ar um perfume de incenso, Alice não podia ver o falo de ébano em todos os seus pormenores, mas notou que era todo a direito, sem a ligeira curvatura para cima do pénis de Ricardo. Seria isto uma imperfeição? Ou seria que nem todos os pénis eram como o de Ricardo? Seria o de Harun assim como este, a direito? Impossível era não ver neste artefacto um objecto precioso, talvez sagrado, longamente trabalhado e utilizado com veneração ao longo de décadas ou séculos. Ao polimento perfeito somava-se um brilho oleoso que se manifestava nos reflexos alaranjados das velas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">As mulheres entoavam, muito baixo, uma espécie de cantilena da qual Alice não foi capaz de distinguir nem as palavras, se as havia, nem a melodia, nem o ritmo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Curve-se – ordenou Circe. – Agarre os tornozelos com as mãos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Em vez de obedecer, Alice perguntou:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Onde está o Harun?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Sabe que a menina está aqui – respondeu-lhe Circe num tom doce. – Sabe o que lhe vai acontecer, só não sabe aquela parte que é um segredo de mulheres. Autorizou tudo. Agora faça o que eu lhe disse, se faz favor. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Tudo isto estava muito longe do que a jovem esperara para aquela noite. Mas obedeceu, levada por um sentimento de inevitabilidade, e também pelo efeito hipnótico da cantilena das mulheres, da luz das velas, do aroma a incenso, e ainda por um certo prazer da aventura que a impelia a entregar-se de olhos fechados ao que desse e viesse.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Pôs as mãos nos tornozelos. Sentiu que Circe se aproximava dela por trás e lhe acariciava o sexo muito levemente. Depois sentiu que lhe era passado um unguento ao longo dos lábios vaginais, primeiro só por fora, depois cada vez mais por dentro até lhe lubrificar toda a vulva até ao hímen. Levantando um pouco a cabeça viu Atena, que lubrificava cuidadosamente, a todo o comprimento, o falo negro que se erguia do chão e que pareceu subitamente enorme aos olhos da jovem.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Esta preparação, e os cânticos cada vez mais ritmados que a acompanhavam, prolongaram-se por tanto tempo que Alice deu por si a desejar que tudo terminasse, que Circe, ou Atena, ou uma das outras pegasse naquele instrumento – que era óbvio que ia servir para a sua desfloração − e lho introduzisse no corpo, pouco importava se com brutalidade ou meiguice: contanto que por fim acontecesse.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Mas não foi assim que as coisas se passaram. A cantilena das mulheres consistia agora num arfar lento que soava como a respiração dum atleta cansado, ritmo este que algumas delas acompanhavam com leves batidas das mãos sobre a carpete. Circe ordenou a Alice que se pusesse de pé, com as pernas ligeiramente abertas, sobre o falo de ébano e que se fosse agachando sobre ele até lhe sentir a ponta à entrada da vagina. Alice assim fez. Procurou empalar-se nele um pouco mas quando sentiu um laivo de dor parou e elevou-se de novo uns milímetros. De novo se baixou até sentir dor, e começou assim um movimento de vai-vem quase imperceptível, gemendo um pouco com a dor e com o esforço. À sua volta as mulheres gemiam em uníssono com ela, num ritmo lento como o dela, como se todas elas estivessem também a forçar as articulações dos joelhos e das coxas e como se todas sentissem a mesma dor. O falo negro, firme no chão, era o centro da sala, o centro do mundo, o centro do corpo de Alice; nada mais lhe importava, naquele momento, do que vencer com a brandura da sua carne a rigidez implacável que pouco a pouco se ia introduzindo nela.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Ninguém a forçava, ninguém a ajudava. Circe e Atena tinham-se sentado com as outras mulheres e respiravam agora, e gemiam, ao mesmo ritmo que elas. E esta respiração, este canto, ia subindo de volume, acelerando o ritmo, controlando o corpo de Alice como uma música irresistível. Até que num dos movimentos descendentes, levada pelo cântico das mulheres, a jovem se empalou completamente e soltou um grito de dor, prontamente abafado mas logo ecoado nas vozes das outras.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Assim se manteve durante um momento, agachada, com os quadris imóveis, os olhos fechados, a cabeça lançada para trás, lançando um longo suspiro que ela própria não saberia dizer se já era de alívio, se ainda de dor. As outras mulheres estavam agora todas de pé à volta dela, segurando-a para que não se desequilibrasse, alisando-lhe o cabelo, enxugando-lhe o suor, murmurando-lhe palavras que eram carícias. Passado um longo momento recomeçou o movimento para cima e para baixo, muito levemente, muito a medo, como que para experimentar a sensação. Quando por fim parou, as mulheres não a fizeram levantar imediatamente: esperaram que ela abrisse os olhos e que a respiração se lhe normalizasse, para então a ajudarem, lentamente e com infinitos cuidados, a retirar o falo de dentro do corpo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Não te ponhas já de pé – disse-lhe a tia, que se aproximara de maneira a que as suas cabeças quase se tocassem. − Senta-te um pouco sobre os calcanhares. Queres ver uma coisa?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Quando Alice, ainda um pouco aturdida, acenou que sim, Safira desprendeu da base de madeira o falo de ébano, sobre o qual se podia ver um pequeno farrapo de sangue, e mostrou-o à sobrinha:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Vou dizer-te um segredo. Foi este mesmo falo de ébano que me desflorou a mim, há muitos anos. É um objecto sagrado. Eu era ainda mais nova do que tu és agora, e vivia em África, longe de tudo. Os meus pais tinham morrido, os meus outros familiares ainda não tinham dado com o meu paradeiro e eu estava com a minha tribo adoptiva, o meu pai e a minha mãe adoptivos: o dia em que me tornei mulher, com toda a aldeia a acarinhar-me, foi um dos mais felizes da minha vida. Depois, quando os meus parentes brancos me foram buscar, a minha mãe preta deu-mo como presente de despedida: sabia que não voltaria a ser usado naquela aldeia, que as autoridades brancas não o permitiriam. E eu, mais tarde, por razões que talvez te conte um dia, dei-o à Mariana. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Alice estava demasiado confusa para saber o que pensar desta revelação. Como qualquer adolescente, tinha pensado muito no fim da sua virgindade, e como todas elas tinha sonhado com uma ocasião cheia de afecto e magia; mas pensara sempre que essa magia e esse afecto lhe viriam contidas no apaixonado abraço dum homem – quantas fantasias solitárias tinha tido em que os protagonistas tinham sido (não contando com a habitual colecção de celebridades) primeiro Ricardo, e depois Harun! Nunca pensara que lhe viessem, numa onda avassaladora e quente, dum círculo de que faziam parte as duas mulheres importantes da sua vida: a tia Safira, que a ensinara a nunca ligar a convenções, e Mariana, que invejara e aprendera a admirar pela absoluta dádiva de si que fizera a um Senhor. Mesmo as gémeas, que tinham presidido à cerimónia com a majestade de duas deusas, e até Silke Liebknecht, tinham contribuído para criar não só o ambiente certo, mas o universo certo para uma iniciação que ela nunca quisera trivial e não fora, de facto, trivial.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Mas ainda era virgem ou já não era?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Nota bem que ainda és virgem – disse-lhe a tia, como se lhe tivesse adivinhado os pensamentos. – Só tens o hímen rasgado, é tudo. Na minha tribo isso significava que a menina já era mulher e estava pronta para servir o guerreiro que a comprasse. Mas os meus parentes vieram-me buscar antes que um guerreiro me comprasse aos meus pais adoptivos, e foi assim que passei os anos seguintes: mulher e virgem pelo critério da tribo, menina e virgem pelo critério dos meus parentes, a quem nunca contei a minha desfloração. Nem os meus parentes a teriam compreendido: teriam mandado arrasar a aldeia e prender toda a gente. Mesmo sem isso, só pelo facto de a tribo me ter adoptado, moveram influências para colocar na região um administrador e uma missão católica…</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Circe aproximou-se das duas e interrompeu a conversa, estendendo a mão a Alice para a ajudar a levantar-se:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Acha que consegue vir até à banheira?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Para as outras mulheres estas palavras foram o sinal para abandonar a sala, o que fizeram despedindo-se de Alice com beijos e carícias. O quarto de banho que Mariana compartilhava com Ricardo, e onde agora se ia completar a iniciação da jovem, estava equipado com uma banheira de hidromassagem que Circe encheu até mais de meio. Adicionou-lhe sais aromáticos e esperou que Alice se metesse na água, que estava escaldante. Alice experimentou com um pé:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Está quente! Não consigo entrar!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Entra devagarinho – respondeu Circe.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Muito devagar, Alice introduziu um pé na água, depois o outro, e começou a agachar-se, molhando com chapadas de água cada parte do corpo antes de a mergulhar para se ir habituando à temperatura. A pele clara ia ficando cada vez mais vermelha. De repente soltou um pequeno grito de dor: a carne tenra do sexo, dorida da invasão a que tinha sido sujeita pouco antes, tinha acabado de tocar na água quente. Por fim conseguiu sentar-se e suspirou de alívio enquanto se reclinava para trás com os olhos fechados. O corpo, mesmo as partes que não estavam imersas na água quente, estava todo molhado de suor ou do vapor de água, e os cabelos colavam-se-lhe à cara.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Está bem, menina? –perguntou-lhe Circe.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Como única resposta Alice soltou um suspiro de satisfação. Circe ligou o dispositivo de hidromassagem e disse:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Então descanse um pouco e relaxe. Eu já volto.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Alice começou a deixar-se invadir por uma grande calma à medida que o corpo se adaptava à temperatura da água. Quando Circe voltou – Alice reparou que estava de novo vestida com os seus panejamentos azuis – trazia numa bandeja duas flûtes de champanhe.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Para bebermos juntas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Alice ainda protestou um pouco, não estava habituada ao álcool e já tinha bebido ao jantar; mas Circe, ignorando todas as objecções, pôs-lhe o champanhe na mão e ergueu o copo:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– À sua felicidade, minha querida. Que a sua vida esteja sempre de acordo com o seu destino.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Alice sorveu o champanhe em pequenos goles, fazendo-o durar. Que observação enigmática, esta de Circe… Então a vida não está sempre, por definição, de acordo com o destino de cada um? Ou dar-se-á o caso de haver destinos que não se realizam? Talvez haja, concluiu. Talvez uma vida falhada seja isso mesmo. Talvez o mais indigno cativeiro seja uma pessoa falhar o seu destino, mesmo que este destino seja a escravidão; e talvez a única verdadeira liberdade seja realizá-lo. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Quando o vinho deixou de estar fresco e de lhe saber bem, pousou o que restava na plataforma de mármore à cabeça da banheira e fechou de novo os olhos, até que a água lhe começou a parecer fria.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Não quero mais…</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Era tempo de sair da banheira. Tinha a pele vermelha, as pontas dos dedos encarquilhadas, e sentia-se mais limpa do que alguma vez estivera. Circe envolveu-a, sem a secar, num roupão de pano turco e conduziu-a de novo ao seu quarto, onde a fez deitar nua sobre um toalhão estendido na cama e lhe passou por todo o corpo um creme hidratante, deliciosamente macio e perfumado. Não negligenciou nenhuma prega do corpo, nem mesmo os refegos mais íntimos entre as coxas, e demorou-se na tarefa com tanto vagar que Alice se começou a sentir sonolenta.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Mas antes que adormecesse Circe obrigou-a a levantar-se e a sentar-se numa poltrona com os pés mergulhados numa bacia de água quente que foi buscar à casa de banho. Sentada num pufe à frente da jovem, começou a tratar-lhe das mãos: arranjou-lhe as cutículas, cortou-lhe e limou-lhe as unhas e envernizou-lhas com uma mistura de vernizes que tinha preparado: metade transparente, um quarto cor de pérola nacarada, um quarto cor-de-rosa pálido. Enquanto o verniz secava, começou a tratar-lhe dos pés: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Que solas de selvagem – observou.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Alice tinha, com efeito, as solas dos pés duras e ásperas, e foi necessário amaciar-lhas longamente com pedra-pomes. À medida que a água da bacia arrefecia, Circe substituía-a de maneira a mantê-la sempre quente. Por fim secou-lhe os pés, colocou-lhe bolas de algodão entre os dedos e tratou-lhe das unhas usando todos os instrumentos duma pedicura profissional – ou pelo menos assim parecia a Alice, para quem esta experiência era nova. Terminou este tratamento pintando-lhe as unhas com a mesma mistura de vernizes que tinha usado nas mãos. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Por esta altura a jovem tinha o cabelo quase seco: Circe passou-lhe um pouco de espuma de pentear e começou a escovar-lho com repetidas passagens de escova, mais de cem, até que ficou completamente seco só pela acção da escova, e brilhante como ela poucas vezes o tinha visto. Pôs-lhe creme no rosto, massajando suavemente com as pontas dos dedos. Como maquilhagem limitou-se a sombrear-lhe um pouco os olhos e a sublinhar discretamente as linhas das pálpebras: os lábios, naturalmente vermelhos, ficaram por pintar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">O verniz das unhas estava completamente seco; Circe amaciou as mãos e os pés de Alice com outro creme e fê-la levantar e rodar sobre si mesma para uma última inspecção.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Está pronta – declarou. – Ponha este vestido.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Sem nada por baixo?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Sem nada por baixo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Já não era o vestido de debutante que ela usara ao jantar, mas um traje formal em estilo romântico: um vestido de noiva se não fosse preto e roxo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Agora as jóias – disse Circe.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Por brincos pôs-lhe umas grandes argolas de prata, que juntamente com o cabelo cuidadosamente despenteado lhe davam um ar meio de cigana. Pôs-lhe colares à volta do pescoço, de vários comprimentos e materiais. Pulseiras nos braços, correntes nos tornozelos, e no dedo anelar esquerdo um anel com uma pedra negra. Alice já conhecia este anel: tinha visto outros iguais nas mãos de Mariana, Ricardo, Harun e outras pessoas. Sabia o que ele significava: que o seu portador era Senhor ou escravo de alguém. O metal de que era feito, cinzento escuro e muito leve, chamava-se titânio. Ajeitou o anel no dedo, como que para confirmar a sua aceitação, e perguntou: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– É agora que vamos ter com o meu dono?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Não. Agora esperamos que ele a mande chamar. Já lhe disseram que a cerimónia com as mulheres terminou. Ou pode mandar dizer que podes ir para a cama, se tiver mais em que pensar do que em servir-se de ti.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">E foi assim que Alice se sentou na pequena poltrona ao canto do quarto, entre expectante e desconsolada, com um vago sorriso no rosto, de pés nus e vestida como para uma festa, à espera de qualquer coisa ou de nada.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Mas não foi preciso esperar muito até que o telemóvel de Circe tocasse e ela dissesse, depois de escutar uns segundos, que sim, que já iam.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Junte os pulsos atrás – ordenou Circe. – Está com sorte. O seu Senhor quer vê-la.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Alice deixou que a outra lhe prendesse os pulsos com duas pulseiras de prata unidas por um cadeado. Assim presa – lembrando-se de todas as vezes que tinha visto Mariana arranjada de forma semelhante, e do misto de admiração, inveja e receio que tinha sentido – foi conduzida ao quarto de Harun, quarto que ela própria tinha ajudado a preparar com tanto cuidado e minúcia.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Harun estava de pé, como que à espera, com um robe de cetim cor de creme sobre um pijama de seda da mesma cor, e tinha calçadas umas chinelas marroquinas de couro na cor natural. Saudou Circe primeiro; e a seguir, com um sorriso terno, saudou a jovem:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Olá, Alice.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Alice quis responder “olá, meu Senhor”, mas não ousou. Ousá-lo-ia alguma vez? Em tom sumido, respondeu:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Olá, Harun.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Dispa-a – disse Harun a Circe.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Era fácil. O vestido abria por trás com um fecho éclair e as alças podiam ser desprendidas, de modo que foi possível tirá-lo sem libertar os pulsos da jovem. Alice nunca se tinha mostrado completamente nua a Harun, mas durante um longo namoro já tinha sentido muitas vezes as mãos dele debaixo da roupa, acariciando-lhe a cinta, os seios e por vezes, deliciosamente, o ventre. Agora não sentia vestígios de pudor ou vergonha, nem outra coisa que não fosse um enorme orgulho por se apresentar nua e bela, depois de uma tão longa e minuciosa preparação, diante dele. Quando ele a mandou dar uma volta sobre si mesma para que ele a visse toda, obedeceu com prazer, fazendo questão de empinar provocantemente os seios e as nádegas como se estivesse há longo tempo habituada a exibir-se assim.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Quando a viu de novo virada para si, Harun fez um gesto discreto em direcção ao chão. Circe, atenta a este sinal, disse docemente à jovem:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Ajoelhe-se, minha querida.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Com as mãos presas não era fácil obedecer graciosamente a esta ordem, mas Alice conseguiu fazê-lo de um modo não demasiadamente desajeitado, o que suscitou a Harun um sorriso de aprovação.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Tire-lhe as pulseiras – ordenou.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">E para Alice, quando a viu com as mãos livres:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Abre-me o roupão.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Com o roupão aberto, a jovem viu a ponta do pénis que lhe espreitava da abertura das calças de pijama. A um gesto dele, Alice tirou-lho completamente para fora: já lhe tinha tocado várias vezes e conhecia a sensação de o sentir crescer e enrijar-lhe nas mãos, mas nunca o fizera com esta liberdade, sem camadas de roupa a constrangê-la. Mais uma vez o sentiu crescer. Viu que era diferente do de Ricardo: todo a direito, como o falo de ébano de há pouco. A glande, avermelhada e macia, fez nascer nela um desejo que nunca tinha sentido antes.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Posso dar-lhe um beijo? – inquiriu, timidamente.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Harun sorriu de novo:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Sim, podes, meu amor. Um dos teus deveres, de futuro, vai ser servir-me com a boca. Mas não quero só um beijo, quero muitos. Beija-me o pénis já hoje como a escrava que vais ser, e não pares até eu to permitir.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Lembrando-se da reverência e respeito com que as mulheres da casa tinham rodeado, horas antes, o falo de ébano que a tia Safira trouxera de África há tantas décadas, a jovem começou a beijar cuidadosamente o falo vivo do seu dono, mal ousando, por vezes, um movimento de sucção. Sabia, pelo que tinha visto Mariana fazer a Ricardo, que também o podia lamber, chupá-lo, introduzi-lo na boca até ao fundo; mas não queria fazer isto sem que lhe fosse ordenado, e além disto tinha um pouco de medo de se engasgar ou ter vómitos. Assim foi prolongando uma longa sucessão de pequenos beijos na glande de Harun; e sentia ao fazer esta carícia um prazer que não saberia explicar mas que era real e intenso.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Harun, por seu lado, parecia disposto a contentar-se toda a noite com aquela carícia incipiente: foi afagando os cabelos da sua jovem amante e só ao fim de logos minutos acabou por dizer:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">­– Chega, minha querida. Agora ajuda-me a despir…</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Alice levantou-se para lhe tirar o roupão, que entregou a Circe para que o guardasse. Depois o casaco do pijama, que era de modelo antiquado, com botões à frente.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Beija-me os mamilos – ordenou Harun.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Alice flectiu um pouco os joelhos para obedecer. Segurou-se às ancas do amante e começou a beijar-lhe o peito e os ombros. Sentia-se agora mais afoita, e foi quase sem hesitação que começou a dar-lhe chupões com alguma força, a que Harun reagia murmurando “sim”, “sim minha querida”, “sim minha escrava”. Com as mãos nas ancas do dono, a tentação de lhe baixar as calças do pijama era quase irresistível, tanto mais que o pénis, embora ainda visivelmente erecto, se encontrava agora de novo tapado pelo tecido. Mas quando fez menção de lhe baixar as calças ele deteve-a:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Não, minha escrava, primeiro os chinelos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Desta vez a jovem não precisou de qualquer ordem: sabia que ao despir o dono a regra era beijar-lhe as partes do corpo dele que ia pondo a nu. Já era assim com Mariana e Ricardo, e a ela parecia-lhe ser este um procedimento perfeitamente justo e natural. Posternando-se, beijou-lhe os pés com vagar e ternura, e ao fazê-lo começou a sentir que o seu ser se diluía num vórtice em que ela própria cada vez mais era nada e o dono daquele corpo que beijava cada vez mais era tudo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Agora o resto – ouviu-o dizer, como que de muito longe.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">O resto era as calças, que Alice puxou para baixo numa pressa febril, ansiosa por ter de novo ao alcance dos lábios aquele ceptro real de ponta tão macia; mas Harun só lhe permitiu mais um beijo antes de interromper a carícia, ordenando-lhe que fosse para junto da cómoda e tirasse todas as jóias que tinha no corpo. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Que instinto levou Alice a deixar para o fim os brincos? Como poderia ela, ainda tão jovem, saber que o remover dos brincos duma mulher é por vezes, para o homem que a observa, um espectáculo completo de <em>strip-tease</em>? O certo é que o fez, e é certo também que esta acção não passou despercebida a Harun, que sorriu de novo. Quando a viu nua de roupas e de jóias, pegou-lhe na mão e conduziu-a à cama, que ele próprio abriu para que ela se deitasse. Cobriu-a ternamente, deu-lhe um rápido beijo na boca a que ela tentou responder lançando-lhe os braços ao pescoço, sem que ele todavia o permitisse.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Quando a viu deitada, Harun virou-se para Circe:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Ponha a esteira para ela aos pés da cama, por favor. E ligue o candeeiro de halogéneo. Depois pode deixar-nos sós. Amanhã venha buscá-la para começar a instrução. Cuide bem dela: deixo-a entregue a si e à sua irmã durante a minha ausência.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Enquanto Circe cumpria estas instruções – a esteira consistia somente num fino colchão em espuma de borracha, num saco-cama e numa pequena almofada – Harun deu a volta à cama e deitou-se ao lado de Alice, que estava dividida entre a felicidade de estar na cama ao lado dele pela primeira vez na vida e a consciência de que esse privilégio não lhe ia ser concedido pela noite inteira. E que instrução era aquela que ia começar no dia seguinte? E porque falava o seu amado duma ausência? Para onde ia ele, logo depois de a ter feito mulher? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Mas não se atreveu a perguntar nada: ele faria o que quisesse e ela, escrava, esperaria sempre por ele o tempo que fosse preciso. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Assim que os dois jovens ficaram sós, Harun afastou de novo para trás as roupas da cama e, debruçando-se sobre a sua escrava, começou a examiná-la da cabeça aos pés, miudamente, interessando-se tanto pela textura das sobrancelhas – que alisou com um dedo – como pela forma das orelhas, o recortado dos lábios, as expressões que lhe perpassavam pelo rosto quando ele lhe beliscava na nádega ou lhe acariciava levemente um mamilo. Assim foi descendo pelo corpo dela abaixo, atento e curioso, entremeando esta observação minuciosa com pequenos beijos em cada parte do corpo que visitava: nos cantos da boca, na covinha do queixo, na base do pescoço, nos ombros, na curva do cotovelo… Alice estava tão temerosa como ansiosa pelo momento em que ele lhe examinaria a vulva, os lábios vaginais que sentia húmidos, o clitóris intumescido. Desejou que a luz não estivesse tão forte, mas depressa entendeu que isto era intencional, e resignou-se. Os beijos ternos que ele lhe ia dando por toda a parte excitavam-na e tranquilizavam-na ao mesmo tempo, e foi sem hesitar que abriu as pernas quando ele mandou; apenas fechou os olhos e virou a cara para o lado, para não se ver observada de um modo tão objectivo e impessoal. Sentiu o dedo dele tocar-lhe na carne mais íntima, ouviu-o suspirar. Surpreendeu-se quando se sentiu beijar ali, onde nunca tinha sido beijada; e não foi um beijo leve como os outros, mas uma chupadela franca que a deixou atónita e desejosa de que alguma coisa, qualquer coisa, viesse ocupar o vazio que lhe parecia ter-se feito naquele instante no seu ventre.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Mas logo a seguir, sem que esta breve carícia tivesse tempo de a satisfazer, o exame continuou, pelas coxas, pelos joelhos – que Harun apalpou pela frente e pelos lados como se nada houvesse mais importante no mundo como a forma exacta das rótulas da sua amada. Apalpou-lhe as pernas abaixo do joelho como já lhe tinha apalpado as coxas, sentindo as diferentes texturas da pele. As articulações dos tornozelos, tão delicadas, foram também objecto da mais funda atenção: olhadas, tocadas, flexionadas, testadas. Os dedos dos pés foram separados e os intervalos entre eles escrutinados – ainda bem, pensou Alice, que se tinha lavado tanto – e até dos tendões dos pés, dos maléolos interno e externo, das veias azuis sob a pele, das rugas transversais nas solas, foi tomada devida nota. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Por esta altura Alice sentia que ninguém, nem mesmo ela própria, conhecia tão bem o seu corpo como o conhecia Harun; mas ele ainda a mandou virar de barriga para baixo e recomeçou a ver tudo: os tendões atrás dos tornozelos, as dobras na parte de trás dos joelhos, as linhas de separação entre as coxas e as nádegas, o orifício anal e depois as duas pequenas concavidades no fundo das costas; e a sucessão das vértebras, o rego longitudinal entre as duas massas musculares do tronco, a saliência das omoplatas, a delicadeza enternecedora da nuca.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Durante todo este exame, que se prolongou por um período de tempo que Alice seria incapaz de calcular, o membro viril de Harun manteve-se sempre erecto. Como podia ele resistir, pensou Alice, a lançar-se sobre ela e a possuí-la sem delongas? Poderia aplicar-se a este homem ainda tão jovem aquilo que Mariana dissera várias vezes de Ricardo – que era senhor do seu pénis e não escravo dele?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Agora vira-te para cima – ouviu-o dizer, por fim.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Alice virou-se de barriga para cima, abrindo as pernas sem que isso lhe fosse ordenado. Ou melhor, não foi ela que abriu as pernas, foram elas que se abriram a si próprias, as traidoras, as desavergonhadas, prontas a abrir caminho ao invasor. Harun saiu da cama para ir desligar o candeeiro, deixando acesa apenas a luz suave que iluminava o quarto anteriormente. De volta para junto dela, pôs-lhe o joelho entre as coxas, beijou-a fundamente na boca, acariciou-lhe os seios e as orelhas, beijou-lhe os olhos e o pescoço; e de repente Alice deu-se conta de que a glande do dono lhe acariciava a vulva molhada, movendo-se para trás e para diante ao longo dos lábios vaginais, titilando-lhe o clitóris; as mãos tinha-as Harun ocupadas em massajar-lhe os seios e apalpar-lhe as nádegas; o que lhe acariciava a vulva, embora sem a penetrar, era o seu sexo erecto. Ergueu os quadris para se aproximar mais dele, para aumentar a deliciosa pressão que a carne dele fazia sobre a dela, mas ele não tinha pressa e continuou por muito tempo a fazer-lhe carícias com o pénis à entrada da vagina. Quando ele por fim fez menção de a penetrar, Alice dise num murmúrio:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Sim, meu Senhor. Possui-me. Sou tua… Já fui aberta para ti, como tu mandaste…</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Harun entrou nela com um movimento só, suave mas firme. Esta penetração, seguindo-se tão de perto à desfloração operada pelo falo de pau preto, não foi tão indolor como Circe lhe tinha dado a entender, mas a dor foi bem-vinda para Alice, trouxe-a um pouco de volta à terra quando se sentia já a desprender-se do mundo. Depois de a penetrar, Harun ficou por muito tempo imóvel dentro dela, abraçando-a, beijando-a, murmurando-lhe ao ouvido “meu amor”, “minha escrava”… E só se começou a mover, lentamente, gentilmente, quando a dor abrandou e ela própria começou a oscilar timidamente os quadris, primeiro para frente e para trás, ao encontro do pénis que a enchia, depois também para os lados e em círculos, numa dança que ninguém lhe tinha ensinado mas em que ela se descobria subitamente perita.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Os movimentos de Harun iam-se tornando amplos e fortes, impetuosos, exigentes; e ela, ainda virgem segundos antes, procurava harmonizar com estes movimentos os seus próprios. Mas não o conseguiu por muito tempo porque uma sensação a avassalou que a fez esquecer-se de si, esquecer-se dele, esquecer-se de tudo o que não fosse aquela inexprimível delícia que a transformava num ser sem pensamento, sem passado, sem futuro. Não era o<span> </span>primeiro orgasmo que sentia, nem sequer o primeiro orgasmo provocado por Harun, mas era o primeiro que experimentava com o corpo assim invadido. A pouco e pouco esta sensação foi-se atenuando, mas Harun mantinha-se dentro dela, beijando-a, amando-a, de modo que a onda de prazer em que tinha perdido o pé refluiu, mas não para longe. Olhou para os olhos do amante e viu-os sorrir:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Estou orgulhoso de ti… Minha escrava…</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">De novo a onda. E de novo, e de novo, até que Alice se esqueceu que alguma vez tinha conhecido um mundo que não consistisse num perpétuo orgasmo, um mundo que tivesse um “em cima” e um “em baixo”, um “dentro” e um “fora”, um “eu” e um “outro”.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Só lentamente retomou o pé, como um nadador a quem uma onda enorme e inesperada tivesse envolvido e sacolejado nas profundidades. Harun, agora completamente solto, penetrava-a com violentas estocadas, que ela recebia avidamente, como uma mártir em êxtase receberia os golpes da lança que lhe tirava a vida. Por entre a névoa do seu próprio prazer, Alice via o rosto de Harun: um rosto contorcido, um rosto belo, um rosto torturado que de repente se abriu num urro; e um jacto quente invadiu-lhe as entranhas, soltando nela ainda um último espasmo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Por muito tempo Harun permaneceu em cima dela, a cabeça para o lado, apoiada na almofada. Alice teve pela primeira vez consciência de como ele era pesado. “O peso do meu dono”, pensou; “estou a sentir sobre mim o peso do meu dono”; e empenhou-se, apesar do ligeiro desconforto físico que sentia, em fazer do seu corpo o leito mais aprazível para o descanso do seu Senhor. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Mas Harun acabou por rolar para o lado, libertando-lhe os movimentos começando a abraçá-la, a beijá-la, até que ela lhe disse:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Que bom… Agora estou a ficar com sono… Com tanto sono… Meu amor… Dás-me autorização que durma?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Eu também tenho sono, – disse ele – mas ainda não te vou dar licença de adormecer, minha escrava. Primeiro vais ainda lavar-me o sexo, que será sempre o teu dever depois de eu te ter possuído.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Oooh… Tem que ser? Tenho tanto sono…</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Tem que ser, meu amor. Hoje e sempre, por mais sono que tenhas. Anda, vai. Basta um toalhete com água morna e sabonete.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Meio trôpega, Alice dirigiu-se à casa de banho. Não sentia ressentimento nem revolta, nem a tarefa lhe parecia prosaica em comparação com o êxtase de há momentos; sentia, sim, um amor acrescido por este Senhor que se servia dela para as tarefas mais humildes com o mesmo à-vontade com que a usava na cama. De regresso ao quarto, lavou-o cuidadosamente. Depois voltou a humedecer o toalhete, agora só com água, e voltou para junto dele a fim de lhe retirar os restos de sabonete. Harun, de barriga para cima na cama, entregava-se a estes cuidados com os olhos fechados e os braços pesadamente caídos sobre os lençóis. Depois de o lavar, Alice foi à casa de banho fazer as suas próprias abluções. Quando voltou para junto de Harun ele já se tinha posto por baixo da roupa e estava em posição de dormir; mas quando a sentiu deitar-se ao lado dele ainda a abraçou e beijou chamando-lhe meu amor, minha escrava, até que a sentiu bocejar e gemer de sono.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Meu Senhor, gostava de ficar abraçada a ti a noite inteira. Mas tenho tanto sono… Posso virar-me de costas para ti, para estar mais à vontade? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Harun fez-lhe uma festa no rosto antes de responder:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Ouve com atenção, minha escrava, enão fiques triste. Essa autorização que me pedes, conto dar-ta muitas vezes de futuro. Muitas vezes mas nem sempre. Mas hoje não ta dou, hoje é dia de saberes o teu lugar, que é aos meus pés. Por isso mandei a Circe preparar a esteira. Há-de haver sempre uma esteira para ti aos pés da minha cama.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Alice não se tinha esquecido da esteira, mas ousara esperar que Harun se tivesse esquecido dela depois ter partilhado com ela tanto prazer e de a ter tratado com tanta ternura. Mas não tinha resposta que pudesse dar, só uma pergunta:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Agora?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Harun acariciou-lhe de novo o rosto e beijou-a ao de leve nos lábios:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Agora, minha escrava.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Alice, mesmo sabendo que o seu dever era obedecer com presteza a qualquer ordem, cumpriu esta com infinitas delongas. Durante algum tempo ainda manteve os lábios em contacto com os dele e depois, à medida que afastava os lençóis para se levantar, ainda o foi beijando no peito e na barriga. Já com uma perna fora da cama e um joelho no chão, ainda procurou com a boca o sexo dele para o beijar e chupar suavemente por tanto tempo quanto ousou.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">– Vai, minha escrava – repetiu ele por fim. − Mas primeiro beija-me os pés.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Circe veio acordá-la de manhã cedo. Quando Alice gemeu, ainda tonta de sono e sem se lembrar onde estava, a outra pôs-lhe um dedo sobre os lábios.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Venha – murmurou. – Não faça barulho, o seu dono ainda está a dormir.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Mas… − objectou Alice.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Queria dar um beijo a Harun, mas Circe não permitiu:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Não o acorde, menina. Não se preocupe, vai ter oportunidade de se despedir dele.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">À espera de Alice, no seu quarto, estava um fato de treino e umas spatilhas de jogging.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Vista-se – disse a outra. – Vai dar duas voltas ao quarteirão. Mas antes disso vá à cozinha, beba um copo de água e coma uma maçã.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Tenho fome…</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Come depois. Ande, despache-se, hoje começa a sua escola e não temos muito tempo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">De que escola estava Circe a falar? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Da escola que os senhores organizaram para si, é claro. Há muitas coisas que o seu dono quer que aprenda: quanto a isso foi muito claro. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Que matérias podia querer Harun que ela aprendesse? Alice tinha terminado a escolaridade obrigatória com as classificações mais elevadas e sempre partira do princípio que ia continuar a estudar; o quê, não sabia, mas imaginava que teria a ver com a sua condição de leitora voraz. Ainda não se tinha inscrito em nenhum curso, e agora, pelos vistos, alguém tinha escolhido por ela.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">A manhã estava fresca. O que Alice tinha a fazer antes do pequeno-almoço era simples: dar duas voltas ao quarteirão, uma em marcha rápida e a outra em passo de corrida. Depois foi outro grande copo de água, um duche rápido e um pequeno-almoço substancial, servido na cozinha por Circe e Atena, refeição esta que a jovem, embrulhada num roupão, devorou como uma loba.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Vá-se vestir – disse-lhe Circe por fim. – Ponha uma saia curta e larga, que não lhe prenda os movimentos, e uma <em>T-shirt</em>. Ponha calcinhas e <em>soutien</em>. Deixe-se estar descalça. Depois vá ter com os senhores à biblioteca.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Na biblioteca, à espera de Alice, estavam Circe e a sua irmã Atena, sentadas no chão; Ricardo, numa poltrona; aos pés dele, sentada sobre os calcanhares, Mariana; e ao piano uma mulher de cerca de trinta anos que Alice não conhecia: uma mulher bonita, um pouco anafada e de ar bondoso, que lhe foi apresentada como a sua futura professora de música.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Música? Vou aprender música? – perguntou, admirada.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Faz parte do currículo que o Harun determinou para ti – respondeu Ricardo. – Como oriental que é, considera a música e a dança prendas indispensáveis numa escrava. Mas como oriental ocidentalizado, não tem qualquer objecção ao piano. Portanto vais ser pianista: ninguém espera de ti virtuosismo, para isso é preciso ter talento e começar cedo, mas o teu dono exige que te tornes uma amadora competente − e sobretudo uma conhecedora razoável que não o envergonhe quando forem os dois juntos a um concerto. Também vais estudar outras matérias; eu e a Mariana fizemos algumas sugestões, assim como a tua tia, e das gémeas vieram algumas bem interessantes.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">A primeira lição de música de Alice não foi particularmente excitante, consistindo apenas em infindáveis exercícios de colocação dos dedos sobre uma superfície plana – nem sequer o teclado do piano, apenas o tampo de uma mesa – seguido de instruções pormenorizadas sobre a colocação do banco em frente ao piano e sobre a maneira como se devia sentar. Depois a professora fê-la ouvir na aparelhagem da biblioteca o inevitável <em>Für Elisa</em> de Beethoven, do qual lhe ensinou a seguir alguns acordes desgarrados, os mais fáceis, prestando especial atenção ao ângulo dos dedos sobre as teclas. Para surpresa da jovem, que esperava que a primeira lição consistisse numa interminável repetição de escalas, esta actividade não ocupou mais do que alguns dos minutos finais.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Depois desta aula Mariana informou Alice do currículo completo: música, como já tinha visto; inglês, no qual se esperava dela que se tornasse proficiente, e em que de resto já tinha sido boa aluna na escola básica; francês e árabe, dados os longos períodos que passaria no Norte de África; literatura, que teria que conhecer tanto quanto possível nas línguas originais; história; história da arte; história das ideias e das mentalidades; religiões comparadas; esgrima; danças de salão; informática; matemática; lógica e pensamento crítico; ginástica geral e acrobática; dança do ventre; e <em>pompoar</em>, é claro: o dono dela dava especial importância ao <em>pompoar</em>.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Alice nem sequer sabia o que era o <em>pompoar</em>:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Que é isso?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Basicamente é a arte de controlar os músculos vaginais. Ou antes, se quisermos ser pedantes, os músculos circunvaginais, mas geralmente ninguém diz assim.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Circunvaginais? Isso quer dizer que eu tenho músculos à volta da vagina? Não sabia tal coisa… E é possível mexê-los à vontade?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Tens, e bem fortes – sorriu Mariana. – E nem imaginas o que se pode fazer com eles.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">Alice tentou por um momento mover aqueles músculos que Mariana lhe dizia que tinha, mas foi como se lhe tivessem pedido que mexesse as orelhas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− E para que serve isso? – indagou, pouco convencida.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Ui, para tanta coisa… Para teres mais a noção do teu corpo, para começar. Para um dia poderes ter filhos com mais segurança e menos dor. Para seres mais saudável durante mais tempo nas tuas partes femininas. Para dares prazer ao teu dono, evidentemente. E até para poderes dar prazer a ti própria sem teres que te tocar com os dedos, se estiveres para aí virada… O <em>pompoar</em> é uma coisa que todas as mulheres deviam saber.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− E a Mariana sabe? Então porque é que nunca me falou nisso?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Só sei que existe, mas nunca aprendi. Por isso é que vou ser tua colega: o Ricardo andava há algum tempo com vontade de me mandar aprender.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− E há professores disso? – insistiu Alice.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Professores, não: professoras – corrigiu Mariana. – Vais conhecer a tua em breve. Acho que vais gostar dela. É uma senhora indiana de origem goesa e fala português perfeito. Chama-se Sadhana e vai também ser a tua professora de dança do ventre. “Sadhana” significa estudo, treino prolongado, realização, aprendizagem… Um nome de bom augúrio para nós duas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;"><em>Pompoar</em></span><span style="font-size:100%;">, dança do ventre… Nada disto desagradava a Alice, pelo contrário. Na sua imaginação via-se já como uma odalisca, versada nas artes ocultas que fazem de um senhor escravo da sua escrava… Mas aquela profusão de matérias que lhe tinha sido anunciada, como ia ela ter tempo para tudo? Ricardo, que assistira à conversa sem parecer que lhe dava atenção, sentiu-se divertido com o alarme dela e tranquilizou-a:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Não vai ser tudo ao mesmo tempo, é claro. De esgrima e de danças de salão, por exemplo, vais ter só uma aula cada duas semanas. A esgrima é uma preparação para outras coisas, as danças de salão são para aprenderes a não te pores rígida nos braços de um homem, a entregares o corpo… Isso é importante para qualquer homem, acredita em mim. Nas literaturas não vais ter dificuldade nenhuma: ainda há poucos anos eras capaz de passar uma tarde inteira empoleirada numa árvore com um livro na mão. Agora não é em cima duma árvore, é num canto qualquer da casa, mas o difícil é encontrar-te sem um livro. As outras matérias vão ser cursos com diferentes durações: acaba um, começa outro. Uma boa parte da tua educação virá das viagens, das conversas, das leituras, das pessoas que conheceres… Só há duas coisas em que vais ter lições toda a vida: a dança do ventre e o <em>pompoar</em>. Pelo menos é isso que diz o Harun.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Isso, e ler livros – respondeu Alice, num tom meio desafiador. – Acho que nunca vou deixar de ler. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:1pt;text-indent:36pt;color:#660000;"><span style="font-size:100%;">− Ah, sim, ler. Outra das paixões do teu dono. Assunto de conversa não vos vai faltar…</span></p>
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