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	<title>artigocronica &amp;laquo; WordPress.com Tag Feed</title>
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	<description>Feed of posts on WordPress.com tagged "artigocronica"</description>
	<pubDate>Sat, 06 Sep 2008 06:53:06 +0000</pubDate>

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	<language>en</language>

<item>
<title><![CDATA[Brasil Bandido]]></title>
<link>http://spiritosanto.wordpress.com/?p=586</link>
<pubDate>Sun, 31 Aug 2008 11:44:13 +0000</pubDate>
<dc:creator>spirito</dc:creator>
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<description><![CDATA[Foto:Marcos Carmona
&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;- 
Junte os pontinhos e veja o país d]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://spiritosanto.files.wordpress.com/2008/08/soldados-de-chumbo-marcos-carmona.jpg"><img src="http://spiritosanto.wordpress.com/files/2008/08/soldados-de-chumbo-marcos-carmona.jpg" alt="" width="497" height="331" class="alignleft size-full wp-image-587" /></a>Foto:Marcos Carmona</p>
<p>------------------- </p>
<p>Junte os pontinhos e veja o país da "transpolítica"</p>
<p>
<em>”...Pensadores pós-modernistas franceses inventaram o termo "transpolítica" para se referir ao ultrapasse da política tradicional por formas novas de esvaziamento da democracia representativa. A "parapolítica" é outra coisa: não um termo reflexivo, mas a realidade da transformação de ações marginais ou ilegalistas em poder político...”</em></p>
<p><em>(<a href="http://aindaamoscaazul.blogspot.com/2007/03/do-observatrio-da-imprensa-violncia-e.html">Muniz Sodré</a>) </em><br />
--------------- </p>
<p>Vocês podem dizer que não estão nem aí ou que não é com vocês, mas, as notícias mais eletrizantes da região onde moro são as seguintes:</p>
<p>Notícia Um (locutor mascarado de touca ninja):</p>
<p><em>- O mais cotado candidato a vereador, com chances de ser um dos mais votados do Rio é, todo mundo sabe, o chefe-gerente da milícia local (preposto de alguém que nenhum de nós conhece, um grande capo, pior que os do cinema, com certeza). <br />
</em><br />
Notícia Dois:  </p>
<p>- <em>O mais cotado candidato a ser eleito como prefeito da cidade é um senador, suposto bispo de uma milionária seita evangélica inventada ontem mesmo. A ideologia desta seita é meramente pecuniária, baseada que é na máxima do ‘é dando (dinheiro) que se recebe (dinheiro)”. Esta ideologia espertalhona paira hegemônica sobre os corações e mentes da miserável população carioca, como uma praga pior do que as saúvas citadas pelo </em>Mário de Andrade. </p>
<p>Notícia Dois e meio:</p>
<p>-<em> Este poderoso senador apóia, entusiasticamente, o tal vereador miliciano, chegando até mesmo a defendê-lo chamando-o de ‘jovem honesto, esforçado e trabalhador’. Supõe-se, por óbvia dedução, que toda a máquina coercitiva das milícias, que domina já, a base de chacinas quase diárias, praticamente, toda a cidade ‘maravilhosa’, tenha o Senador como seu candidato preferido, amigo ‘do peito’.</em></p>
<p>Notícia Três (esta, apesar de velha, revista agora mesmo na TV, no programa eleitoral gratuito:</p>
<p><em>_ Este candidato a prefeito– e, por extensão, toda a sua eventual futura entourage de vereadores milicianos - é, segundo o reiterado depoimento do próprio vice-presidente da república, “o candidato preferido e do coração do presidente Lula”.</em></p>
<p>(Corte rápido. Pela minha assustada e conturbada mente passa, de relance, a imagem embaçada e trêmula de uma enorme fila de eleitores vestindo toucas ninjas) </p>
<p>--------------- </p>
<p>Que os sensatos e comedidos insistam sempre, pacientemente, que é muito mais recomendável (faz bem à saúde) focar com melhores olhos os pixels azulados e edificantes da rede, do que ficar remoendo os tons marrons da malha suja, onde estão entranhadas as chagas mais comezinhas do dia à dia torpe deste nosso país. </p>
<p>Eu sei. Eu sei. Eu sei.</p>
<p>É exatamente por saber de tudo isto que entabulei esta conversa para lhes falar, assim, <em>no sapatinho</em>, acerca da impressão que se tem de que o Brasil está gestando em si mesmo, um certo tipo de sociedade <em>mucho loca</em>, com sintomas daquelas carcomidas por interesses bandidos de todo tipo, divididas em guerras entre grupos políticos mafiosos, que confundem o trato da causa pública com seus mais inconfessáveis interesses, com o beneplácito, no início pragmático e, logo depois, acovardado dos cidadãos ‘de bem’. </p>
<p>Sabem a Itália siciliana? Sabem a Colômbia de Medellín?</p>
<p>Pois é. A realidade brasileira às vezes, é mesmo complexa demais, difícil de decifrar, não é mesmo?  Se avexe não. Sabe aqueles joguinhos de ‘junte os pontos’, nos quais, depois de todos os pontinhos juntados aparece uma figurinha graciosa qualquer, um coelhinho, um gatinho? Faça como eu: Relaxe jogando um desses joguinhos? </p>
<p>Não se garante ao final graciosidade alguma às figurinhas, mas que é diversão garantida, lá isto é. Tiro mais que certeiro no stress. </p>
<p>Juntemos os pontinhos pois:</p>
<p>------------- </p>
<p>Pontinho 01 <br />
<strong>A revolta dos mercenários</strong><br />
C’os diabos! O meu exército escafedeu-se!</p>
<p>Ano de 1822.</p>
<p>Nos momentos decisivos da chamada Guerra de independência do Brasil, a repatriação de oficiais e soldados do exército português derrotado, criou um problema para D.Pedro I: Como manter a integridade territorial, a segurança do Império recém criado após a dissolução do exército anterior? </p>
<p>Ainda no calor da luta, o governo se viu obrigado a improvisar a organização de uma força armada de transição, não só para eliminar de vez a resistência portuguesa, mas também para se incumbir das demais tarefas de manutenção da integridade do império.</p>
<p>Sem povo – pelo menos, confiável - para montar um exército nacional, a ‘brilhante’ solução encontrada foi a compra de armas e navios além da contratação de mercenários europeus criando em 18 de janeiro de 1822 o Corpo de Estrangeiros, instituído como uma divisão do exército, formada por mercenários alemães (arregimentados pelo major Georg Anton von Schäffer na Europa), além de imigrantes suíços recrutados na própria Corte. </p>
<p>A segurança da Corte ficou à cargo de gajos germânicos, que formavam o 27o Batalhão de Caçadores de Alemães, conhecidos como "Os diabos brancos", aquartelados na Praia Vermelha e dos outros gajos estrangeiros, suíços em sua maioria, que formavam o Batalhão de Granadeiros estrangeiros, cujo quartel era o atual (êpa!)...Palácio Duque de Caxias. </p>
<p>Não queriam, de jeito nenhum um exército composto de ‘diabos negros’ ‘prata da casa’ e aí... deu no que deu:</p>
<p><em> “...Em  junho de 1828, no Rio de Janeiro, durante o governo de D. Pedro I, (a Revolta dos mercenários) constituiu-se numa sublevação de tropas militares compostas por mercenários alemães e irlandeses. Iniciada em 09 de junho, ela foi reprimida quatro dias depois por soldados brasileiros e populares, entre os quais se incluíam muitos escravos capoeiristas da cidade...”</em></p>
<p>Fernando K. Dannemann nos conta:</p>
<p><em>...” Revoltados (com atrasos dos soldos e com os castigos físicos a que eram submetidos)...dirigiram-se ao palácio imperial, no bairro de São Cristóvão, pretendendo apresentar queixa contra o oficial e pedir sua demissão imediata...A partir daí...os mercenários praticaram todo o tipo de desordem e confusão, culminando por invadir e tomar conta do ministério do exército, (Palácio Duque de Caxias)... Ali eles...apossaram-se das armas...e se entrincheiraram...o comandante das Armas ordenou que as forças legais investissem...contra os rebeldes, procedimento que contou com o apoio de marinheiros franceses e ingleses cujos navios se encontravam atracados no porto, de populares e escravos (leia-se capoeiristas) na emergência, ali compareceram armados... Ao final do confronto, 12 mercenários estavam mortos e 50 deles feridos...”</em></p>
<p>Êpa, êpa! Mas o palácio invadido não é o mesmo Palácio Duque de Caxias, recentemente, apedrejado pela população do Morro da Providência? </p>
<p>Êpa! E sacaram também aquela outra citação sobre escravos capoeiristas? Como assim? </p>
<p>Pois é isto mesmo: Um jogo de juntar os pontinhos. Já havia avisado a vocês lá em cima.</p>
<p>------------- </p>
<p>Pontinho 02<br />
<strong>As Milícias escravas </strong><br />
Uma ‘flor’ de gente </p>
<p>
Carlos E. Líbano Soares falando: </p>
<p><em>“...O discurso contra a capoeira no século 19 se assemelha ao discurso contra o crime organizado, o tráfico de drogas. Um crime rendoso, com uma rede de proteção muito grande, com pessoas da alta sociedade envolvidas, protegendo e mantendo esses grupos e por isso garantindo a impunidade deles. </p>
<p>“...Cada freguesia do Rio tinha um grupo...Quando outro invadia seu espaço, era a senha para o confronto. Havia um controle informal, uma geografia inquieta semelhante à atual guerra das drogas. Assim como hoje há, no Rio, o Comando Vermelho e o Terceiro Comando, havia na época nagoas e guaiamus. Os nagoas dominavam a periferia, são grupos de origem africana, e os guaiamus dominavam o centro da cidade...” <br />
</em><br />
----------------- </p>
<p>Ali por volta de 1870 o problema da violência urbana e do caos político-social protagonizado pelas maltas de capoeiras, compostas, em sua maioria, por adolescentes (escravos fugidos e negros de ganho desocupados), ficou tão agudo que a solução foi desmobilizar, violentamente os bandos, enviando os capoeiras, em massa, para a guerra do Paraguai. Com o regresso destes ‘involuntários da pátria’, livres da escravidão por direito, fardados, mas, ainda revoltados, o problema da violência urbana voltou, mais intenso ainda.</p>
<p><em>“...O Flor da Gente era um poderoso grupo de capoeira do Rio de Janeiro no século XIX. O grupo era tão poderoso que chegou a ser contratado por Duque Estrada Teixeira quando candidato ao governo da província do Rio de Janeiro. Para que Duque Estrada contratou o grupo de capoeira Flor da Gente? Na época, as eleições eram decididas no tapa mesmo e quem não votasse em Duque Estrada era ameaçado pelo grupo Flor da Gente...”</em></p>
<p>Na crônica da Revolta da Chibata (1910), junto com os degredados enviados pelo governo para serem escravizados - ou comidos pelos bichos - nos cafundós da selva amazônica, constavam dezenas, talvez centenas de capoeiristas.</p>
<p>Já conseguiram enxergar o esboço da figurinha que começa a aparecer no nosso jogo? Não? Pois siga em frente e junte mais pontinhos então.</p>
<p>---------------  </p>
<p>Pontinho 03<br />
<strong>O Cimento Social</strong></p>
<p>(Agora mesmo, em pleno século 21)</p>
<p>Uma tropa de militares, sob a alegação de que um Projeto federal denominado <em>Cimento Social</em> era ‘obra do Exército’, fazia policiamento ostensivo do Morro da Providência, exercendo, literalmente, a função de uma milícia privada, desalojando, sabe-se lá como sem um único tiro, os traficantes que mantinham o controle do local. </p>
<p>No incidente amplamente divulgado pela imprensa, esta milícia, estranhamente formada por soldados regulares, segundo afirmam seus integrantes diretamente envolvidos no incidente, aprisionaram e espancaram três jovens da comunidade por motivo fútil (teriam sido xingados) e os entregaram a misteriosos bandidos de uma favela próxima, pretensos rivais da comunidade a que os jovens pertenciam.</p>
<p>Foi daí que a milícia...digo, a patrulha do Exército se encontrou com outra milícia...ou melhor, um grupo de traficantes do Morro da Mineira e negociou a entrega dos jovens (segundo as famílias dos mortos, pela quantia de 60 mil reais). Não se sabe ainda por que misteriosas razões, os jovens foram torturados e chacinados pelos nunca identificados traficantes, sendo os seus corpos lançados numa caçamba de lixo da própria favela para aparecerem, dias depois, num lixão num município vizinho. </p>
<p>Revoltada a população (da qual fazem parte, inclusive, os operários da obra), impediu a continuação dos trabalhos e rejeitou os pedidos de desculpas das autoridades, cercando o Palácio Duque de Caxias, sede do Comando Militar do Leste, a quem a tropa estava subordinada. </p>
<p>(Êpa, êpa! Mas não é este o mesmo <em>Palácio Duque de Caxias</em>, no passado, invadido pelos mercenários gringos, os tais ‘Diabos Brancos’?)</p>
<p>O escândalo se agravou quando a imprensa divulgou a natureza estranha do convênio entre tão altas instancias do governo federal e um candidato a prefeito da cidade. O projeto do senador era, literalmente, uma ‘obra de fachada’, já que apenas as fachadas das casas-barracos, visíveis do centro da cidade, seriam reformadas e pintadas de verde. </p>
<p>Pressionado pelo escândalo, em solenidade no Rio de Janeiro, o presidente da República recebeu os familiares das vítimas que, surpreendentemente, se mantiveram na firme posição de não admitir desculpas nem a presença do Exército no Morro. </p>
<p>Nitidamente contrariado, o governo federal decidiu então, numa insidiosa represália talvez, abandonar o morro e as obras inacabadas, deixando a população ao Deus dará.</p>
<p>Vocês sabem quem era o candidato envolvido neste lamentável incidente, não sabem? Ele mesmo: o bispo-senador, preferido do coração do nosso presidente.</p>
<p>--------------- </p>
<p>Pontinho 04<br />
<strong>Luta Democrática</strong></p>
<p>A máfia nordestina e outras máfias</p>
<p>
”<em>...Tenório Cavalcanti foi um dos muitos migrantes que vieram do Nordeste para a Baixada. Lá, enriqueceu e tornou-se uma poderosa figura política, criando um sistema clientelista e apoiando-se na violência como estratégia de conquista e manutenção do poder tanto econômico quanto político.  A sua volta, montou-se uma “densa rede de relações pessoais, de amizade, parentesco e patronagem, trançada pela reciprocidade, a dependência, a lealdade e a deferência, tendo no líder seu fio central”... </p>
<p>Em torno de sua pessoa, criou-se toda uma mistificação, apoiada na construção de uma personagem para Tenório, que passou a ser conhecido pelo uso de suas inseparáveis capa preta e sua metralhadora “lurdinha”, bem como pela fama de “ter o corpo fechado”, por ter conseguido escapar ileso de uma série de conflitos a bala.</p>
<p>“...Para complementar ainda mais essa imagem, um episódio ocorrido em julho de 1962, que ficou conhecido como o “quebra-quebra”, ocupou por semanas as páginas dos noticiários, associando a região à falta de segurança e à prática da violência. Na verdade, a sucessão de depredações e saques ocorridas na Baixada no dia 5 de julho de 1962 fizeram parte de um contexto histórico de “revoltas populares” em todo o estado do Rio de Janeiro. </p>
<p>“...Este episódio, segundo Marlúcia dos Santos Souza, teria marcado o surgimento de milícias pagas pelos comerciantes locais para garantir a segurança de seus estabelecimentos. ‘... em 62, com o saque, as polícias privadas atuaram como repressores das revoltas e como mantenedoras da ordem.’ A partir deste contexto, marcou-se o início da ação de “grupos de extermínio” na região, como vão demonstrar Josinaldo Aleixo Souza e José Cláudio Alves Souza. </p>
<p>Segundo este último, “desde o golpe de 1964, sobretudo a partir de 1967, a Polícia Militar vinha assumindo um papel coadjuvante na repressão montada pela ditadura ...”, o que a levaria a atuar diretamente na formação de “grupos de extermínio”. A ação desses grupos, porém, se efetivaria de forma mais veemente a partir da década de 70...”</em></p>
<p>(Extraído de <strong>favelatemmemoria.com.br</strong></p>
<p>-------------</p>
<p>Pontinho 05 <br />
<strong>Welcome to Congo!</strong></p>
<p>Ano de 1998 </p>
<p>O Rio de Janeiro é uma cidade com um explosivo problema de segurança pública localizado, exatamente, em suas áreas mais carentes (segundo diz o velho ramerrão, por falta de políticas públicas), áreas estas que foram sendo, progressivamente, ocupadas por grupos armados, a princípio identificados, genericamente, como Comandos de Traficantes (em bom português,  milícias armadas, portanto). </p>
<p>De uns tempos para cá, a situação, por si só já muito dinâmica, por culpa da renitente e oportunista omissão das ‘autoridades constituídas’, evoluiu para o perigoso estágio da cooptação ou da simples corrupção de indivíduos integrantes das forças de segurança convencionais (Polícias Militar e Civil) que passaram a se mancomunar com as facções criminosas tradicionais. </p>
<p>A tal dinâmica dos acontecimentos tinha, inclusive, um viés tenebroso, prenúncio do que viria: Engrossando o caldo do equilibrado conflito entre Comando vermelho e Terceiro Comando, aparecia como uma cunha para fracionar a clássica dicotomia polícia-bandido, uma nova facção denominada, sugestivamente, A.D.A ou ‘Amigos Dos Amigos’ ou seja, uma organização que poderia abrigar integrantes de qualquer uma das partes em conflito, inclusive policiais, desde que partidários de um pacto de cooperação (é esta mesma facção a que controla a favela onde os jovens da Providência, supostamente, foram torturados e mortos).</p>
<p>E assim ‘evoluímos’ para um estágio no qual passou a não existir mais diferença perceptível alguma entre os modos de agir de policiais e bandidos (no que diz respeito à prática de delitos criminosos, roubos, assaltos e assassinatos, bem entendido).</p>
<p>Chegamos então, infelizmente, no curto espaço de menos de cinco anos, se muito, a um ponto de difícil retorno, no qual as próprias instituições policiais se organizaram (ou se ‘desorganizaram’) em braços clandestinos, que a população denominou a princípio de Polícia ‘Mineira’. </p>
<p>Logo denominadas pela imprensa, mais apropriadamente, de <a href="http://maps.google.com/maps/ms?ie=UTF8&#38;hl=pt-BR&#38;msa=0&#38;msid=100029860383604228831.000452cfd19b4a4580c3b&#38;ll=-22.894615,-43.453519&#38;spn=0.263142,0.540358&#38;t=h&#38;source=embed">‘Milícias’</a>, estas <a href="http://www.overmundo.com.br/banco/carnaval-a-mineira">‘Mineiras’ </a>(o nome - que evoca a truculência da polícia de Minas Gerais em décadas anteriores - se popularizou na Baixada Fluminense na década de 70) são instituições paramilitares que, estimuladas pela ‘vista grossa’ da classe média, cada vez mais rapidamente, vão usurpando, sob o pretexto de cuidar da segurança privada, do controle de todos os tipos de serviços públicos, historicamente negligenciados pelas autoridades legalmente constituídas (além de serviços privados, é claro). </p>
<p>No contexto desta situação dramática, alguns especialistas em segurança pública (omitindo o fato da falta de políticas públicas ser a causa evidente de todos estes males) vêm solicitando há tempos, a intervenção das forças armadas. O governo federal, por intermédio do Ministério da Defesa, do congresso Nacional e do próprio Exército, tem relutado, alegando não ser esta função constitucional das forças armadas (embora elas atuem com esta função no Haiti, por solicitação da ONU e –cala-te boca- tenham atuado, exatamente, assim no incidente aqui narrado, ocorrido no Morro da Providência.)</p>
<p>Para agravar o quadro, estas <em>autoridades constituídas</em>, começam a assumir, a partir do Governo Collor de Mello, cada vez mais claramente, modus operandis muito semelhante ao de instituições de caráter mafioso, criando uma espécie de sociedade bandida, anômala, um tanto parecida - se projetarmos a evolução do problema e guardadas as devidas proporções – com a de certos países africanos modernos (como o Congo atual, por exemplo)</p>
<p>Duvidam? Vão pagar pra ver?</p>
<p>--------------- </p>
<p><strong>Bye Bye Brasil</strong><br />
Este é um país que vai pra frente?</p>
<p>
Como se sabe o fenômeno não é simples. Possui fundas raízes no arcaísmo de nossa estrutura social, sempre calcada na injustiça social a qualquer custo, gerando tudo que aí está, há séculos e séculos, amém.</p>
<p>Se juntarmos mais ainda os pontinhos, veremos as figurinhas do misticismo político-religioso de Conselheiro e do Padre Cícero, ligados com os do proto-comunismo da Coluna Prestes, passando pelo banditismo do capitão Lampião. A cada conjunto de pontinhos juntados, quantas e quantas elucidativas imagens vamos conseguindo formar. É o Brasil Bandido mostrando a sua cara feia. </p>
<p>O curioso é que os pontinhos mais incríveis - principalmente, por suas inquietantes ligações com a nossa conversa - são aqueles ligados ao místico Conselheiro.</p>
<p>Ele foi, todo mundo sabe, aquele beato piradão, espécie de bispo de uma seita inventada ali, na época, um ícone invertido do senador de nossa história. Ele mesmo, o líder da cidadela rebelde (a primeira favela mítica), guarnecida por uma milícia popular, que lutou contra as mesmas injustiças sociais clássicas, vigentes no modelo social brasileiro, enfrentando encarniçadamente o Exército Brasileiro até ser massacrada.</p>
<p>Pois não é que foi aqui, no Rio de Janeiro– santa coincidência! - que alguns soldados veteranos daquelas mesmas batalhas contra o Conselheiro, desengajados, sem soldo e largados à própria sorte pelo Exército Brasileiro, não tendo outra alternativa de sobrevivência ocuparam as encostas de um certo morro bem perto da perímetro urbano da Corte?</p>
<p>O morro passou a se chamar ‘da Favela’, em alusão à presença na vegetação do morro da ‘fava d’anta’ (dimorphandra mollis Benth), leguminosa típica do cerrado brasileiro, também conhecida, no diminutivo, como favela, da qual os veteranos soldados tinham muitas lembranças dos tempos de Canudos, por causa da localidade existente na região dos combates chamada, pela mesma razão, Alto da favela. <br />
<a href="http://spiritosanto.files.wordpress.com/2008/08/fava-dc2b4anta-ou-favela-cientificamente-conhecida-como-dimorphandra-mollis-benthwwwcetecbr.jpg"><img src="http://spiritosanto.wordpress.com/files/2008/08/fava-dc2b4anta-ou-favela-cientificamente-conhecida-como-dimorphandra-mollis-benthwwwcetecbr.jpg?w=300" alt="" width="300" height="209" class="alignleft size-medium wp-image-592" /></a></p>
<p>
Com a generalização do nome Favela, por conta da pauperização do Brasil urbano e a palavra passando a denominar qualquer conjunto de habitações miseráveis, o local fundado pelos veteranos de Canudos, mudou de nome, passando a se chamar, não <em>Nova Canudos</em>, como deveria, mas... Morro da Providência’.</p>
<p>Êpa, êpa! De novo? Mas não é aquele mesmo Morro da Providência no qual uma tropa do mesmo Exército seqüestrou e levou à morte três jovens, no incidente que levou a população do local (em certa medida descendente dos veteranos de Canudos), a invadir o Palácio Duque de Caxias, sede do comando militar leste, outrora (e bota outrora nisto) também invadido pelos mercenários europeus, logo após a nossa independência?</p>
<p>Roda viva. Círculo vicioso: Independência, favela, nordeste, Canudos, Lampião, Exército, providência, presidentes, bispos, seitas, máfias, seqüestros e chacinas, balas achadas e perdidas, num verdadeiro suflê de sangue, suor e lágrimas.</p>
<p>Viram só, que incríveis coincidências formam o nosso ‘muderno’ Brasil profundo? Bastou juntar os pontinhos.</p>
<p>------------ </p>
<p>Existem algumas maneiras de escapar de uma situação como esta. Você pode se deitar na calçada e esperar mais um tiroteio passar; você pode fugir pelo bosque escuro da floresta da Tijuca e deixar marcado o caminho percorrido com bolinhas de miolo de pão; pode mostrar para a bruxa que te seqüestrou, o delgado rabo de um ratinho, para ela pensar que você está muito magrinho ainda para ser comido; pode sair correndo em zig zag; pode enfim, esbugalhar os olhos e se fingir de morto, sei lá tantas coisas...</p>
<p>Tomara que eles, já perdendo o controle da situação, não venham com a idéia de jerico de contratar, de novo, uma milícia de mercenários estrangeiros.</p>
<p>(Se bem que, a esta altura dos acontecimentos, juro que até eu -como D.Pedro I - iria adorar ter um exército para chamar de meu).</p>
<p><strong>Spirito Santo</strong></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Ausländer haus, negão!]]></title>
<link>http://spiritosanto.wordpress.com/2007/07/04/auslander-haus-negao/</link>
<pubDate>Thu, 14 Aug 2008 03:19:09 +0000</pubDate>
<dc:creator>spirito</dc:creator>
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<description><![CDATA[

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&nbsp;
El negrito nazi



 	 Intole]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<table class="padding10top" border="0" cellpadding="0" cellspacing="0" width="100%">
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<td valign="top">
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<td valign="top">
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<p class="contador" align="center"> 												<span class="txt21btn"><br />
</span><span class="txt7btn"></span>
</p>
<p class="gostei" align="center">&#160;</p>
</td>
<td class="txt13 preto" valign="top" width="435">
<p style="margin:0;"><img src="http://www.overmundo.com.br/_overblog/img/1183339687_negro_nazista_copy.jpg" alt="Angel Gonzáles" class="foto" style="padding:0;" height="323" width="421" /></p>
<p style="width:421px;margin:4px 0 15px;">&#160;</p>
<p style="background:#eeeeee url('../images/images/det_bg_legenda.gif') repeat-y scroll 0 50%;padding:8px 8px 8px 13px;" class="txt11">El negrito nazi</p>
<p><!-- coluna de conteúdo --></p>
<table cellpadding="0" cellspacing="0" width="421">
<tr>
<td class="txt13"><!-- div texto--> 	 <strong>Intolerância também é cultura</strong></p>
<p>Em 1992 eu morava em Viena, Áustria. Já estava por lá há três anos, de certo modo cansado de tanta civilização e morrendo de saudades daquela saudável bagunça brasileira, cuja lembrança, nos fazia tão bem, às vezes.Além da overdose de ordem e civilização, mesmo depois de tanto tempo por lá, ainda me surpreendia com a quase total ausência de rejeição da população local, diante de pessoas com o meu perfil e o da minha família: Negros brasileiros, muito parecidos com os cubanos, com os caribenhos, com os norte-americanos, um pouco com os africanos, negros em suma, quase em nada parecidos com eles, os austríacos.</p>
<p>A estranheza vinha, principalmente, do fato de não ser, absolutamente, esta a maneira como éramos tratados no Brasil, sempre que circulávamos por áreas como a Zona sul do Rio de Janeiro, por exemplo, onde a estratificação social é bem determinada, dividida entre 'Brancos' (habitantes das ruas elegantes, os 'patrões' e as 'madames') e 'Negros' ou 'Paraíbas' (habitantes das favelas e dos subúrbios, os empregados ou serviçais).</p>
<p>Não percebíamos isto, tão claramente, quando estávamos ainda por aqui, é verdade. É que já estávamos acostumados. Foi só em Viena que isto nos chamou mesmo a atenção. Lá só havia, a princípio, a curiosidade e o respeito diante dos estrangeiros que éramos (turistas, talvez pensassem).</p>
<p>Aqui, quase sempre, os olhares de desconfiança ou de desdém (bandidos, desclassificados, seres inferiores, pensavam, com toda certeza). Gosto desta descrição assim, sem nenhuma filigrana ou arroubo sociológico porque ela é bem clara, síntese perfeita do que realmente ocorre, de como a coisa é vista, assim, do lado de cá da cerca.</p>
<p>A estranheza com relação a como éramos tratados lá e aqui era maior ainda porque, como bem sabemos, praticamente não existem brancos no Brasil. Os 'brancos' do Brasil, seriam tratados lá como... árabes, talvez. Isto ficava límpido e claro para nós quando cruzávamos com aqueles milhares de seres louros de olhos azuis, grande maioria da população vienense.</p>
<p>Porque seria que aquelas pessoas tão descaradamente brancas, nos tratavam assim tão bem? Sem nenhum receio, às vezes com certa curiosidade até, pedindo licença para passar o dedo na pele dos mais escuros para confirmar se não era pintada? Me recordo de várias vezes, ao necessitar de alguma informação, de ser atendido por duas ou três pessoas, uma disputando com a outra, a chance de nos ser gentil.</p>
<p>Mas havia sim, um leve incômodo na nossa relação com os austríacos: Éramos, invariavelmente, chamados por eles de <em>Africanisches </em>(africanos), seja lá qual fosse a nossa origem ou do tom de nossa pele. Todos os negros que circulassem pelas ruas de Viena, fossem cubanos, norte americanos, para eles seriam <em>africanisches</em>.</p>
<p>O adjetivo ganhava contornos bem desagradáveis quando, <em>espertos</em>, cometíamos algum ato inaceitável para as regras sociais deles, tais como jogar papel e guimbas de cigarro na rua, falar alto, andar no bonde sem pagar, urinar na rua, etc. Aí o termo nos era lançado com todo o rancor de um xingamento, quase uma maldição: <em>Africanisches</em>! Muitas vezes até complementavam a injúria com o que, para eles, eram horríveis palavrões: <em>Mohr</em>! <em>Negger</em>! (que no Brasil corresponderia aos populares <em>Crioulo! Macaco</em>!)</p>
<p>Curiosas analogias pude constatar depois, estudando o assunto.</p>
<p><em>Africanisches </em>todos nós éramos porque, do ponto de vista deles, descendentes de africanos, africanos são. Mohr viria de Mouro, palavra portadora do extremo ódio que, até hoje, as pessoas daquela região tem pelos árabes que invadiram e dominaram grande parte da Europa, deixando marcas profundas na cultura deles, entre as quais os arabescos e capitéis da curiosa arquitetura do <em>Stephandomme </em>(a Catedral de São Estevão) e a prática do islamismo em certas partes dos bálcãs (notadamente na antiga Iugoslávia), são marcas eloqüentes.</p>
<p>Como mais um dado a ser inserido na conversa, alguns brasileiros me contaram também, que já haviam presenciado senhoras indignadas com algum mal feito de um africanische, sendo multadas por policiais, na rua, porque se excederam na virulência dos xingamentos. Logo, havia intolerância racial na Áustria sim. Haviam inclusive leis contra o racismo. O que não havia por ali era hipocrisia.</p>
<p>A Áustria, como se sabe, é a terra de <em>Adolf Hitler</em>, ali nasceu a semente do Nazismo, o ovo da intolerância. As estúpidas e inconseqüentes razões do racismo fermentaram ali, do mesmo modo que as frágeis idéias de resistência contra a intolerância racial e as injustiças sociais de qualquer ordem também por ali vicejaram.</p>
<p>Ali viveu Sigmund Freud, Beethoven, Schümann, por ali passaram Karl Marx e Frederick Engels, Einstein, Mozart. Não podemos esquecer também de que, em Viena residem, ainda hoje, muitos descendentes, diretos, dos milhares de mortos dos campos de concentração nazista.</p>
<p>---------------</p>
<p>Em Viena morei em quase todos os bairros. Desde o <em>Grinzing</em>, no bezirk (distrito) 15, o bairro nobre (mais ou menos como uma barra da Tijuca com morros e sem praia), até o suburbano <em>Gumpendorfstrasse</em>. No Grinzing reside gente rica ou moderna, artistas e intelectuais. Ali se curte a vida boêmia, a cultura alternativa, a diversidade racial, cultural e tudo que há de bom na Europa.</p>
<p>Em bairros como <em>Gumpendorfstrasse </em>moram os pobres, o povão. Circulando entre um bairro e outro tive uma lição de sociedade e pude compreender melhor como caminha a humanidade e, enfim, saber com quantos paus se faz a canoa que pode nos levar, dependendo apenas de nosso discernimento, para a civilização ou para a barbárie.</p>
<p>-------------</p>
<p>A vida no apartamento que dividíamos com outra família, era bem tensa. Bairro popular, composto por prédios antigos, do tempo da segunda guerra mundial, no <em>Gumpendorfstrasse </em>não era hábito morarem estrangeiros. Quanto mais negros. Encontrávamos os habitantes locais todo dia, na pracinha do bairro, passeando com seus cachorros. Velhos, em sua maioria. Quase nenhum jovem ou criança, pelo menos à vista.</p>
<p>Quando cruzavam conosco, olhavam para nós com um misto de curiosidade e um mal disfarçado desprezo, cumprimentando-nos por entre os dentes com um '<em>guten Tag!</em>' ou um <em>'guten abend!</em>' formal. Alguns, mais atirados, as vezes nos inquiriam, querendo saber de onde vínhamos e quanto tempo ficaríamos por ali. Nestes momentos de inquirição, sorriam dissimuladamente. Nunca usavam, no entanto, como já disse, aquela sutil hipocrisia daqui do Brasil.</p>
<p>A dissimulação dos sorrisos ficava evidente porque o Strassenbahn (bonde) que nos levava de <em>Gumpendorfstrasse </em>até a estação do metrô, que por sua vez, nos levaria ao centro de Viena, tinha a fórmica dos anteparos dos bancos pichadas à caneta hidrocor, com frases que entendíamos muito bem:</p>
<p>_<em>'Ausländer haus!'-</em> ('fora estrangeiros! ').</p>
<p>A primeira vez que vi a frase assim, diante de mim, gelei da cabeça aos pés. É que ela estava ilustrada com uma inconfundível suástica vermelha. Os outdoors do caminho também continham a mesma suástica com a mesma palavra de ordem assustadora: <em>'Ausländer haus!'</em> Em algumas destas pichações a frase era complementada com mais ênfase ainda:</p>
<p><em>'Ausländer Tod! </em>(Morte aos estrangeiros! ')</p>
<p>Quem escrevia aquelas frases? Estava claro que só poderiam ser jovens suburbanos, punks de periferia, neonazistas, filhos daqueles vizinhos francamente inamistosos. A gente via estes jovens, sempre, alguns de roupa preta, circulando pelos vagões do metrô, em bandos. Os africanos e brasileiros, nossos conhecidos, já haviam nos alertado para não ficar perto deles, porque costumavam furar estrangeiros com armas brancas.</p>
<p>Eu era apenas um músico brasileiro em Viena. Cantava e tocava na noite. Estava acostumado a cortar a cidade a pé, cruzando a neve, na alta madrugada, rumo à <em>Gumpendorfstrasse</em>, sempre que a grana não cobria o táxi e não havia mais metrô circulando. Eram mais de duas horas de trajeto. Fumava bem uns quatro cigarros neste caminho, para esquentar os beiços. Numa destas noites, os cigarros acabaram antes do tempo. Pensei comigo:</p>
<p><em>_”Nenhum problema. Entro naquele gasthaus </em>(bar 'pé sujo'),<em> pego um bom maço de Hobby na cigarreten machine e pronto. '</em></p>
<p>Mas havia um homem na porta do <em>gasthaus </em>com um cão pastor alemão na coleira. Devia ser o dono do estabelecimento. Achei estranho ele não ter se afastado para a minha passagem. Tentei mais um vez e o cão rosnou, ameaçador. O homem nem me olhou, impassível. Aturdido com a situação, desisti de fumar e segui meu rumo, preocupado com a cena.</p>
<p>A frieza dele foi o que mais me assustou. Ela me lembrou outro incidente, também muito estranho, ocorrido num dia em que eu fui assinar um contrato para um show num bar latino. Eu andava pela calçada distraído. O bairro era tranqüilo, de periferia. Um barulho de freada e minha atenção foi atraída pela seguinte situação:</p>
<p>Um homem gordo, atarracado, com um solidéu na cabeça, árabe, por assim dizer, segurava uma bicicleta minúscula, de seu filho talvez, com o celim alto para que lhe servisse na altura. Engraçada a figura. O sinal havia fechado e um carro conversível vermelho - um Lambourghinni talvez - pilotado por um austríaco jovem e bem vestido, havia esbarrado na bicicleta do árabe, quase o derrubando. O austríaco, com o carro engrenado, não se moveu. Não dispensou sequer um olhar para o árabe, ignorando-o.</p>
<p>Indignado com a indiferença do outro, o árabe se aproximou dele e o recriminou, severamente, ainda com educação. O austríaco não se moveu.</p>
<p>O árabe xingou o homem, de tudo quanto foi , pelo que deduzi, nome feio, na sua língua, é claro, aos berros. O austríaco não se moveu.</p>
<p>Foi então que, quase explodindo de raiva, o árabe, cuspiu no rosto do austríaco que, ainda assim, não se moveu, nem para limpar o rosto. O sinal abriu e o Lambourguinni partiu. O árabe olhou para um lado e para o outro, sem compreender direito o que se passou e seguiu, desolado.</p>
<p>Testemunha ocular da inusitada cena segui pensando do que seria capaz um ser humano, tão frio e arrogante a ponto de não reagir a uma agressão daquelas, só para não pedir desculpas à alguém que, provavelmente ele desprezou apenas porque era um árabe?</p>
<p>Uma coisa, porém, me confortava: Eu estava ali incólume. O discriminado era o outro. Eu podia observar e avaliar a situação sofrida pelo árabe, de camarote.</p>
<p>Aquilo me lembrava também um dia em que, num mercadinho perto de casa, procurei uma fechadura nova para comprar. A marca mais famosa de produtos de segurança em Viena (cadeados, correntes, fechaduras, trancas de automóveis, e outras tralhas do tipo), tinha nas caixas uma curiosa ilustração de um ladrão típico (para o consumidor austríaco):</p>
<p>Ele era um árabe com a barba por fazer, mal encarado, invadindo uma casa na calada da noite, com uma lanterna acesa. Racismo explícito, ora, pois.</p>
<p>Não sou árabe (pelo menos que eu saiba). Como faz a maioria dos 'brancos' do Brasil poderia, tranquilamente, pensar:<em> 'pô, que chato, o que o austríaco fez com o cara, né?' </em>E seguir meu caminho, assoviando.</p>
<p>E foi, de fato, o que fiz. Neste ponto foi bom. Deu pra ver, friamente, como as coisas funcionavam por ali. Sórdidas, porém, explicáveis.</p>
<p>-------------------------</p>
<p>A época, início dos anos 90, coincidia com o recrudescimento da imigração de africanos para o centro da Europa, antes dominada, inteiramente, por imigrantes árabes, turcos em sua maioria. Era a faca de dois gumes da economia globalizada mostrando seus maus efeitos e dando o seu troco.</p>
<p>Entre outras regiões do outrora chamado terceiro mundo, com a globalização, a África, deixada à margem do mercado por razões históricas, depauperando-se pela fome, parecia que ia se transformar, rapidamente, numa espécie de favela continental.</p>
<p>Havia também a guerra entre Sérvios e os Croatas na Iugoslávia, os massacres étnicos contra muçulmanos e a vinda maciça de refugiados para a Áustria, antiga sede do império Austro húngaro que é, até hoje, uma espécie de capital da região, que envolve também a Polônia, a Tchecoslováquia e a Hungria, países cujos habitantes fogem da miséria para Viena, exatamente, como os nordestinos aqui no Brasil fogem para as favelas próximas à Barra da Tijuca.</p>
<p>Com verdadeiras hordas de imigrantes pressionando as economias dos países europeus mais ricos, os negros, os <em>africanisches </em>de qualquer origem, passaram então a integrar também, a raça dos estrangeiros indesejáveis. Entre eles estava eu. <em>Haus! Fora!</em> Gritavam os furibundos arautos do neo-nacionalismo, bem na minha cara.</p>
<p>O partido de direita da Áustria havia acabado de escolher seu candidato. Ele era um jovem político do sul do país, chamado Jorg Heider, simpatizante confesso de <em>Adolf Hitler.</em></p>
<p>Uma amiga alemã a quem eu pretendia visitar em Munique me telefonou assustada, pedindo-me para não ir para a Alemanha, de jeito nenhum. Neonazistas estavam atacando negros da estação ferroviária. Haviam incendiado um alojamento de estudantes do Ghana e dois haviam morrido no ataque.</p>
<p>------------------------</p>
<p>Por alguma razão que não me recordo agora (talvez o alto preço do aluguel), tive que mudar de bairro. Fui para mais longe um pouco, um bairro de classe média, quase fora dos limites da cidade. Na pressa, larguei para trás uma caixa de brinquedos do meu filho e tive que voltar ao prédio do <em>Gumpendorfstrasse </em>para buscar. Foi num sábado, de manhãzinha. Um sábado de terror.</p>
<p>As paredes da escada do prédio até a porta do apartamento no qual eu morara, estava toda pichada pelos neonazistas:</p>
<p><em>-'Ausländer haus! Fora estrangeiros! Morte aos estrangeiros! </em><em>Africanisches! Negger! -</em>diziam as inscrições.</p>
<p>Suásticas, muitas, suásticas enormes. Tudo pichado. Peguei a caixa e desci, rapidamente, as escadas. Sentei na pracinha para tomar fôlego, em pânico ainda. Os vizinhos, os mesmos que eu via todos os dias, passaram com seus cachorros. Não me cumprimentavam mais. Dava para ler no olhar deles que sabiam das suásticas, sabiam de tudo.</p>
<p>Com a expressão <em>ausländer haus </em>ecoando na minha cabeça, lembrei de todos aqueles aterrorizantes filmes de nazistas que assisti na vida. <em>Achtung</em>! Gente de Deus! Agora não era filme não. Era eu mesmo quem estava ali, de corpo presente, indefeso estrangeiro, no meio da branca neve dos outros. Os judeus da vez poderíamos ser eu e minha família.</p>
<p>Vade retro Satanás!</p>
<p>Vendi alguns dos instrumentos musicais exóticos que levara, alguns postais e até os originais de gravuras que havia desenhado para uma revista de lá, para completar o orçamento e, juntando mais alguma grana emprestada, comprei as passagens.</p>
<p>Quinze dias depois estava de volta ao Brasil. Me lembro que, ainda no céu, pouco antes de pousar, o avião cruzou com estranhos balões de plástico preto que anunciavam o impeachment de Fernando Collor de Mello, o ex 'caçador de marajás'.</p>
<p>De volta ao passado, ao velho Brasil de sempre, desembarquei aliviado.</p>
<p>-------------</p>
<p>É por isto que hoje, quinze anos depois, quando vejo jornalistas e intelectuais como <em>Ali Kamel</em> (de ascendência árabe, por sinal), <em>Demétrio Mangnoli, Ivonne Maggie e Peter Fry</em> (cidadão inglês, se não me engano), muito bem articulados entre si, espalhando aos quatro ventos e de forma militante, em artigos, teses, manifestos, a sua ojeriza por ações afirmativas e leis de cotas de reparação para os 'não brancos' do Brasil, me dá um frio na espinha. Fico lembrando daqueles últimos tempos em Viena.</p>
<p>Tenho minhas razões para não ver esta oposição ferrenha que este grupo faz às ações afirmativas no Brasil, como honestas e simples divergências de princípios. Foi, exatamente, por isto que contei para vocês logo, de antemão, a minha pós graduação na terra do Adolf.</p>
<p>Conheço também de relance, porém, de longa  data, as atividades junto ao <em>Movimento Negro </em>da década de 80, de alguns destes intelectuais e acadêmicos, hoje ligados à importantes universidades federais brasileiras. Simpatizantes da luta anti racista de então, convidados pelo Movimento Negro para muitas mesas redondas contra o Racismo, formaram suas sólidas carreiras acadêmicas, defendendo teses que agora, por alguma estranha razão, passaram a combater.</p>
<p>São ainda hoje figuras acadêmicas importantes e poderosas, dirigindo estratégicos departamentos no campo da antropologia e da sociologia, na qualidade de especialistas no assunto raça e sociedade. Seriam estas suas recônditas razões?</p>
<p>Não é cisma, portanto, permitam-me considerar, alguém como eu estranhar a mudança de lado destas figuras, justamente agora, a esta altura dos acontecimentos.</p>
<p>Surpreende-me muito também a fragilidade, quase absoluta, de seus argumentos apoiados, quase que tão somente, pela grande ascendência que possuem junto a certos meios de comunicação, nos quais as vozes que deles discordam não tem tido, praticamente, nenhuma chance de se manifestar.</p>
<p>Observem por favor, que, na intensa campanha que fazem, está embutida também a tentativa de negar, não só, a existência de raças, mas, também a do próprio racismo. Contraditoriamente, portanto, negam agora, o cerne, a essência de sua própria militância intelectual do passado.</p>
<p>Há, com efeito, no bojo de sua campanha (pelo menos na de Ali Kamel, seu principal porta voz), distorções grosseiras e deliberadas de dados estatísticos do IBGE e sobre as recentes – e a rigor pertinentes- descobertas da genética, preconizando a inexistência de diferenças raciais, usando o torto raciocínio de que, <em>se não há raças como poderia haver racismo? Se nunca houve Racismo por que haveria necessidade de reparação?</em></p>
<p>Anti-abolicionistas tardios, é o que parecem.</p>
<p>Contudo, como qualquer estudante de história do nível médio deve saber, a prova científica da inexistência de diferenças raciais é justamente atribuída ao esforço de cientistas engajados na luta contra o Racismo no mundo. Como também se sabe, no caso do Brasil, estas falsas diferenças foram adotadas pelas próprias elites racistas, logo depois da abolição da escravatura, como argumento para a manutenção da desigualdade e da opressão social, por parte de uma aristocracia, de ascendência européia, contra a maior parte da população 'não branca' que, no caso do Brasil, era – e é, como conseqüência do próprio racismo - composta por ex-escravos africanos, índios e seus descendentes.</p>
<p>A afirmação - e a denúncia- de que, efetivamente, há racismo no Brasil, não poderia, portanto, de modo algum, ser negada, por meio, exatamente, do mais eloqüente argumento que prova que, o Racismo tanto existe quanto precisa ser, veementemente, combatido, por todos os meios que se fizerem necessários, entre os quais as ações afirmativas e as políticas de reparação são os mais pertinentes, principalmente por serem democráticos, legais e, principalmente, <em>pacíficos</em>.</p>
<p>Neste quadro, é lamentável portanto que, atribuindo a culpa pelo crime à própria vítima, os ideólogos desta estranha campanha, sem argumentos válidos para justificar o seu reacionarismo, estejam acusando os partidários das políticas de ação afirmativa, de estarem propondo a <em>institucionalização do Racismo no Brasil </em>(que para eles nunca teria existido) o que, também segundo eles, geraria o <em>ódio fratricida entre as raças</em> (o que, a despeito das centenas de mortos na atual Guerra do Rio, não estaria ocorrendo).</p>
<p>Sua proposta rasa, única, curta e grossa é incluir os excluídos na sociedade de cotas e privilégios que ocupam e usufruem, apenas quando... a galinha criar dentes.</p>
<p>Só peço para que, por conta da forma tão aberta e franca quanto me expressei aqui, eles não tentem me expulsar, de vez, de minha própria terra, aos berros:</p>
<p><em>- 'Ausländer haus, negão!' </em></td>
</tr>
</table>
</td>
</tr>
</table>
</td>
</tr>
</table>
</td>
</tr>
</table>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[KUDURO. AfroHipHop de periferia]]></title>
<link>http://spiritosanto.wordpress.com/2007/10/27/kuduro-afrohiphop-de-periferia/</link>
<pubDate>Fri, 25 Jul 2008 02:41:19 +0000</pubDate>
<dc:creator>spirito</dc:creator>
<guid>http://spiritosanto.wordpress.com/2007/10/27/kuduro-afrohiphop-de-periferia/</guid>
<description><![CDATA[
Foto:José Silva Pinto(tonspi)
Aldeia de todas as tribos
Existe uma polêmica bizantina no âmbito ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://spiritosanto.files.wordpress.com/2008/07/kuduro_ok_4_bunda_angolana.jpg"><img src="http://spiritosanto.wordpress.com/files/2008/07/kuduro_ok_4_bunda_angolana.jpg" alt="" width="481" height="301" class="alignleft size-full wp-image-468" /></a><br />
Foto:José Silva Pinto(tonspi)</p>
<p><strong>Aldeia de todas as tribos</strong></p>
<p>Existe uma polêmica bizantina no âmbito da musicologia acadêmica que divide, de um lado os ‘Tonalistas’ (os que afirmam que existe um sistema musical moderno e avançado, criado por sumidades burguesas européias, entre os séculos 17 e 19, supostamente, superior à uma música ‘primitiva’ praticada pelo resto do mundo) e, de outro lado, os ‘Modalistas’, aqueles que acreditam que a música, surgindo de um fenômeno físico elementar, está subordinada apenas à determinadas leis da natureza, condição a qual estão expostos todos os seres humanos, sem qualquer distinção.</p>
<p>Realmente, se na natureza <em>nada se cria, tudo se transforma</em>, enquadrando a musica neste contexto, poderíamos compreendê-la sim, como um fenômeno caracterizado pela relatividade, num âmbito onde, a rigor, não existiria qualquer possibilidade de haver modernidade, primitivismo, ou qualquer outra instância de temporalidade, nenhum certificado de superioridade para quem (ou para o que) quer que seja.</p>
<p>Como música é também sinônimo de ritmo, movimento (tudo que ouvimos se move e nos move), obviamente, o mesmo raciocínio poderia ser utilizado para se definir Dança.</p>
<p>Música e Dança, seriam assim, fenômenos circulares, como galáxias, nas quais tudo circularia em torno de um eixo (elemento que os tonalistas odeiam de paixão) no caso, uma freqüência, uma nota (ou um gesto) agregadora de outras, como um sol agregando planetas, numa lógica sistêmica, quântica, harmônica enfim.</p>
<p>Toda esta conversa fiada - e, aparentemente, maniqueísta - é apenas para introduzir o tema que o blogueiro e Dj Lucio K, chamou de <em><a href="http://www.submusica.com/2007/05/18/conheca-os-ritmos-da-periferia/">Ritmos de Periferia</a></em>, <a href="http://sol.sapo.pt/blogs/royal/archive/2007/03/01/Kuduro_2C00_-a-nova-voz-dos-mussekes-de-Luanda.aspx">Kuduro</a>, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=aSwH-N9ml-Y&#38;mode=related&#38;search=">Kwaito</a>, Grime, e outras elétricas bossas afro-pops, hoje muito recorrentes e prestes a se tornar fenômenos universais.</p>
<p>Estamos propondo também, neste mesmo sentido, que o tema <em>Kuduro e afins</em>, seja discutido aqui, despido de todas as suas máscaras modernistas ou do esperto - com o perdão do trocadilho -  <em>bunda-molismo</em> fashion daqueles argutos formadores de opinião, que ficam esperando de plantão, alguma nova onda surgir, para dela se tornarem os pais descobridores.</p>
<p>Em terra de cego...</p>
<p>--------------------</p>
<p><strong>O vírus na maçã.</strong></p>
<p>A chamada Cultura Pop sempre foi gerada no caldeirão fervente das periferias. Obvio ululante. Mesmo a cultura HipHop, este emaranhado de atitudes sócio culturais atribuído à juventude desvalida das grandes metrópoles norte americanas, pode ser descrita, coerentemente, como o ôvo do futuro, gerado no mais remoto e desprezado dos passados. Pura relatividade, portanto.</p>
<p>Sejamos francos: Não há ‘modernidade’, ‘novidade’ possível (pelo menos em se tratando de música e dança populares) fora do contexto efervescente das periferias. Fora dos guetos e favelas nada se cria. Tudo se copia. Sempre foi assim e, talvez, sempre será. O eixo irradiador de toda esta fervura é o mesmo eixo de um centro econômico de cada época, cada ocasião, no caso, em nossos dias, Nova York, onde vicejaram o <a href="http://www.suapesquisa.com/rap/">Rap</a>, o Street Dance, o Grafitti, manifestações criadas nas periferias da grande maçã podre, a Big Apple sem Beatles, sem MacIntosh, sem nada.</p>
<p>Cultura popular orgânica, com potência de vírus (benigno?), estas manifestações são, em ultima análise, o antídoto humanizador para o veneno intrínseco a um sistema arcaico e carcomido (pelo menos do ponto de vista cultural), totalmente ‘out’ e ‘nada a ver’.</p>
<p>Se duvidam, experimentem traçar uma linha de tempo e enxerguem (em preto &#38; branco, é claro), lá longe, nos idos dos anos 50, um grupo de negros marcando o tempo com o estalar dos dedos, criando vocais em contraponto, nas esquinas de conjuntos habitacionais infectos ou cantos de quadras de basqueteball suburbanas. Soul e Funk básicos (e ainda o velho Rock and Roll), rolando já ali naquelas manifestações atávicas, quase ancestrais.</p>
<p>Firmem a vista e vejam o que se dança nestas esquinas. Andem para trás, um pouco mais, e vejam o som das plaquetas metálicas do sapateado ecoando no paralelepípedos das ruas. Isto mesmo! É aquele mesmo sapateado do Gregory Heynes, do Sammy Davis Junior, antes mal assimilado pelos Fred Astaires de ocasião, usufruidores dos lucros do mainstream, este ambiente insípido, onde tudo que uns criam os outros copiam.</p>
<p>Saiam da Broadway, rápido, e vejam mais longe ainda o som vibrante do bate-enxadas e do baticum ritmado das botas dos trabalhadores das estradas de ferro que cruzaram os States de leste á oeste, unificando as distancias, antes, sofridamente, percorridas à cavalo ou pelas empoeiradas diligências que conhecemos nos filmes de Far West (e bota <em>Far </em>nisto). Escutem o que eles cantam.</p>
<p>Há work songs, Gospels, Spirituals, Rhytm’n’ Blues, Soul e Funk ainda rolando por ali. Querem regredir um pouco mais? Não? Ok. Já sabemos muito bem onde isto vai dar.</p>
<p>Mas, vejam bem, são cruzamentos entre vias as mais diversas, os mais inusitados caminhos. Não importa muito se são negros ou brancos os criadores dos elementos básicos desta cultura urbanopop, que nos apaixona a todos. Afinal, são meros seres humanos os criadores desta força emocional que nos mantém, a todos, unidos, vivos e felizes.</p>
<p>Os criadores são o que são – ocorre que, no caso deste nosso estranho mundo ‘moderno’, eles têm sido negros (ou não brancos, tanto faz) desde há muito tempo – É que o universo capitalista é mesmo este insano criador de periferias, pústulas urbanas, lixo debaixo do tapete, encruzilhadas e guerras. Mundo extremista, cruel, que ainda morre disto um dia.</p>
<p>Mas, e o Kuduro? Brasileiros que somos, se focarmos mais ainda a nossa lente, vamos encontrar no Kuduro, a mais pura essência (os tonalistas também odeiam este conceito) de nossa tão ambígua e fugidia brasilidade. Duvidam?</p>
<p>------------------------------</p>
<p><strong>Saudades da <em>Ala dos Malandrinhos</em></strong></p>
<p>Em minha já quase remota adolescência, ali por volta de 1960, exposto como todo mundo de meu bairro, à arte de nossa escola de Samba, me vi, certa feita, irremediavelmente, tomado pelo prazer de assistir a um ensaio de um grupo de jovens passistas, homens e mulheres, a maioria meus amigos de rua ou de esquina.</p>
<p>Por sermos pobres, mesmo sendo sábado, nos vestíamos, modestamente, com roupas de domingo. Aquele ensaio era muito especial. Eles, os amigos, haviam me dito que no dia do desfile arrasariam, vestindo calças e sapatos brancos, camisetas listadas e chapéus duros, de palhinha, evocando malandros de antigamente. Me contaram tudo em detalhes porque queriam que eu também fizesse parte do novo grupo que, a exemplo do que ocorria em outras escolas de Samba da região (Portela, Império Serrano e Mocidade Independente de Padre Miguel) se transformava num grande fenômeno suburbano, atendendo pelo curioso nome de <em>Ala dos Malandrinhos</em>.</p>
<p>Não tive jamais coragem de entrar naquela dança, deste rito de passagem eu sobrei (até hoje não consigo dançar melhor do que um ganso manco). O fato é que as <em>Alas dos Malandrinhos</em>, eram uma coisa realmente inusitada no âmbito tradicionalista das escolas de Samba e, por isto mesmo atraíam a parcela da juventude tida como a mais ‘moderninha’ do bairro.</p>
<p>Nas <em>Alas dos malandrinhos </em>não se dançava, convencionalmente, como nosso pais e avós dançavam. Ali, podíamos inventar intrincados passos, um pouco parecidos com passos de Samba, tirados, sabe-se lá de onde, de que memória ancestral. Ali se dançava, simplesmente, em conjunto, como um grupo de bailarinos disciplinados que, vez por outra partiam para solos endiabrados, como se dizia na época: ‘Ditos no pé’.</p>
<p>Os mais velhos torciam o nariz enojados, chamando aquilo, depreciativamente, de ‘coreografia’, acusando-nos de reles imitadores de crioulos americanos (não sabia como eles conseguiam enxergar influência estrangeira naquele samba estilizado que meus amigos faziam).</p>
<p>Mas hoje vejo que era mesmo Funk e Soul, Blackdance em suma, o que vasava daquela complexa fraseologia de passos ‘marcados’, que rolava ali na quadra, que fazia as vezes de uma esquina de um Harlen desconhecido e improvável.</p>
<p>Agora mesmo diria mais: Era a África possível pulsando no corpo da gente. Atavismo na medida certa para a nossa desmedida juventude.</p>
<p>Ontem assisti à dezenas de vídeos de jovens angolanos dançando o Kuduro. A grande coqueluche das periferias africanas, sobretudo os <a href="http://www.cplpcienciassociais.org/index.php?option=com_content&#38;task=view&#38;id=38&#38;Itemid=85">mussekes </a>de Luanda, Angola, onde dizem, o Kuduro começou. A seção de vídeos me paralizou. Me chamou, particularmente a atenção, o trio de meninos que se intitulam ‘os <a href="http://www.youtube.com/watch?v=qYkRhx-KdoA">Pupilos do Kuduro</a>’ Incrível! Minha memória se acendeu, imediatamente, iluminando tudo.</p>
<p>---------------------</p>
<p><strong>O Kuduro e nós. Teria mesmo algo a ver?</strong></p>
<p>Ku, palavra e não palavrão, parece vir do mais puro vernáculo do Kimbundo (MataKu=nádegas, assento plural de ritaku), principal língua falada em Luanda, Angola (da qual falamos centenas de vocábulos, sem saber - inclusive Ku, certo?) O sentido figurado da palavra é, exatamente, o mesmo que usamos no Brasil: Bunda (palavra aliás, oriunda também do mesmo Kimbundo), literalmente traduzida para o portugês também como nádegas.</p>
<p>O sentido da expressão Kuduro poderá ser melhor explicado por um Angolano, mas, ao que tudo indica, significa o que parece: Kuduro= Bunda imóvel, sem rebolar, o que, considerando-se que um dos movimentos fundamentais da dança angolana é o sofisticado rebolado (dos homens inclusive), é muito significativo. Algo como uma dança diferente , supostamente ‘moderna’, no âmbito das danças tradicionais que, como já disse são, extremamente, rebolativas.</p>
<p>Contudo, dança livre que é, no Kuduro também se pode rebolar, é claro, basta querer.</p>
<p>Dito isto, o Kuduro, inserido no âmbito da cultura Hip Hop, é uma dança de rua (ou uma street dance, para quem gosta americanismos) Como todos os outros gêneros assemelhados, o Funk carioca e o <a href="http://www.afromix.org/html/musique/styles/kwaito/index.pt.html%29">Kwaito </a>(da África do Sul) é a resposta africana avassaladora influência da indústria cultural de massa capitalista, cujo eixo como se sabe, localiza-se, desde o fim da segunda guerra mundial, na América do Norte.</p>
<p>Mas o Kuduro também é um símbolo dos mais fortes, neste momento, da enorme capacidade da resistência cultural das populações não-brancas, do outrora chamado Terceiro Mundo, diante da pressão globalizante, sinônimo evidente de aculturação.</p>
<p>-----------------------</p>
<p><strong>Kuduro Checkup</strong></p>
<p>No Kuduro angolano – e <a href="http://youtube.com/watch?v=c8v-i2VOvg4&#38;mode=related&#38;search=">vejam vocês mesmos</a> que coisa curiosa! - os passos do mix, da fusão com o break, são o mais puro e carioca dos Sambas. Incrível!</p>
<p>Acreditem, mas, os Pupilos do Kuduro, e outros <em>kuduristas </em>, quando em conjunto, dançam, quase exatamente, o que a nossa <em>Ala dos Malandrinhos </em>dançava lá naqueles bem passados anos 60. Os braços e as mãos dançam break, mas, da cintura para baixo, bundas e pernas dançam o mais desbragado dos Sambas. Pode?</p>
<p>Teria sido aquela minha saudosa rapaziada de Padre Miguel a inventora do Kuduro?</p>
<p>Alguns pesquisadores tentam explicar a estrutura da base rítmica, da batida (beat) do Kuduro por meio de teorias moderninhas ou simplificações que insistem em preconizar a importância, ao nosso ver, exagerada, das tecnologias na criação e na evolução destas danças e gêneros musicais. Os reis da parada seriam portanto os equipamentos eletrônicos (como o já velho <a href="http://www.homestudio.com.br/artigos/Art024.htm">Sampler</a>, por exemplo).</p>
<p>Apenas uma opinião, mas, é preciso cuidado porque assim, por extensão, o papel do Mocinho poderia ser atribuído a sociedade neoliberal globalizada, ao Capitalismo em suma, e ao estupendo grau de desenvolvimento tecnológico que ele propicia.</p>
<p>Besteira. Baita injustiça, sobretudo. Não há nada de novo nesta praia deserta, neste giro do prato de velha vitrola <em>hi fi</em>.</p>
<p>O Sampler e sucedâneos são, neste contexto, apenas instrumentos musicais, meios, facilitadores de registro, meros suportes. Se disponíveis estiverem, ferramentas de cultura serão. Se não estiverem, outras ferramentas se inventarão.</p>
<p>Aliás, o que um Sampler faz mesmo? Não muda nada. Copia. E haja periferia e miséria para samplear.</p>
<p>A grande sacação (e isto vem desde que o mundo é mundo) é , portanto, a capacidade do homem de tirar leite das pedras, resistir sem esmorecer jamais, reinventando linguagens, recriando sempre a partir de dados do cotidiano, subvertendo referências e sentidos comunicativos, extraídos de seu passado mais remoto, cimentando os degraus do presente, sem ilusões de modernidades vãs ou de futuro radiante.</p>
<p>Vírus no sistema. O Mocinho verdadeiro desta história– o anti herói – não é a sociedade,mas sim o homem.</p>
<p>----------------------</p>
<p><strong>Inside the Kuduro</strong><br />
(em português não ficaria melhor não)</p>
<p>Senão vejamos: Em todos os gêneros citados (entre outros), a alma do negócio é um som de caixa e contratempo. É esta a célula rítmica base, a matriz, o DNA, sobre o qual se criará os sons que bem entendermos. Poderia ser um humano baterista lá no fundo, marcando a batida, mas, fica bem mais econômico usar um som gravado.</p>
<p>No caso do <a href="http://youtube.com/watch?v=hHgvOXHULUU">Kuduro clássico</a> (como ocorre com toda coqueluche pop, as distorções e deformações aparecem rapidamente), a batida copiada (sampleada) parece ser o que se chamava nos anos 70, 80 de Kabetula, um ritmo muito popular em Luanda, semelhante ao Semba, do qual talvez seja uma variação (uma outra corrente afirma, contudo, que o Kuduro é uma variação do Kuzukuta, ritmo popular do carnaval angolano).</p>
<p>Ficou tudo em casa, no entanto, porque ambos os ritmos (como a maior parte das danças de negro do Brasil, desde, pelo menos, o século 19), tipicamente urbanos que são, vieram, provavelmente, do Kaduke, espécie de Kuduro surgido na cidade de Ambaça (Mbaka), grande centro urbano e comercial (!) lá pelos idos de 1880 (veja <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Hermenegildo_Capelo">Capello e Ivens</a>), no tempo da colonização portuguesa em Angola</p>
<p>Este Kaduke, talvez tenha gerado, a partir do mesmo processo, no Brasil colonial, o Kalundu que, mesclado à danças européias como a Polka e a Mazurka (espécies de danças de periferia brancas, populares na Europa central), deram numa dança popularíssima na Corte brasileira (um Kuduro colonial) chamada de Lundu.</p>
<p>Pois não é que o Kaduke, o Kalundu e talvez até mesmo o Jongo formaram talvez, a base principal – coreográfica e musical- do que conhecemos vulgarmente hoje no Brasil como Samba?</p>
<p>Viram só? Kuduro e Samba: Tudo a ver.</p>
<p>Fenômeno recorrente, efetivamente, existem manifestações como o Kuduro em todas as periferias do mundo. Decupando a estrutura de todas elas, especialmente no que diz respeito à coreografia, encontraremos, quase que invariavelmente, a seguinte composição: Passos e gestos de Break Dance, fundidos a movimentos de uma ou mais danças tradicionais, tribais mesmo em muitos casos, existentes na cultura local.</p>
<p>Alguém já parou para pensar que na violenta e exuberante expressão coreográfica de uma multidão de jovens favelados do Rio, muitos deles portando fuzis automáticos como se fossem lanças, existem passos completamente estranhos ao novaiorquino repertório de movimentos de break original, de, entre outros, James Brown e Michael Jackson? Há break sim, mas, um pouquinho só. Há desconjuntamento de braços e punhos, movimentos robóticos, como imagens de luz negra intermitente, mas, o que será que significam os outros passos?</p>
<p>Ora, é evidente que, olhando detidamente os movimentos de dança deste Funk Carioca, iremos encontrar a mesma filosofia coreográfica do Kuduro, em nosso caso, representada por passos de umbanda e candomblé (ritmos aliás, hoje banidos de algumas favelas cariocas, dominadas pela cultura ditatorial-evangélica das milícias).</p>
<p>Assim como na África e no Brasil, na Índia, no Afeganistão, na Indonésia, a fórmula <em>beat futurista somado à tradição</em>, se repetirá. Uma lógica planetária, uma espécie de cultura global periférica se estabelecerá. Para nós brasileiros, por exemplo, o Kuduro pode vir a representar a feliz descoberta de que, embora alguns anseiem, desesperadamente, pelo nosso ingresso no clube dos brancos países desenvolvidos, fazemos parte sim – e disto muito devemos nos orgulhar- do universo paralelo da mais complexa, viva, diversificada e pujante Periferia.</p>
<p>Como, facilmente, se pode notar, o mundo roda enquanto a cultura das periferias gira, circula, como um bambolê. Somos do Overmundo, o pá! O <em>Bicho</em>, o vírus da maçã. Y love you Angola!</p>
<p>(Em tempo: Em terra de cego, quem tem um olho, infelizmente é... caolho.)</p>
<p><strong>Spirito Santo</strong><br />
Outubro 2007</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[A Roça de Teresa]]></title>
<link>http://spiritosanto.wordpress.com/2007/06/29/a-roca-de-teresa/</link>
<pubDate>Fri, 29 Jun 2007 23:22:19 +0000</pubDate>
<dc:creator>spirito</dc:creator>
<guid>http://spiritosanto.wordpress.com/2007/06/29/a-roca-de-teresa/</guid>
<description><![CDATA[

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Fotos de Victor Frond (1859-Brasil)/Litografias de F. Sourrieu, J.La]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<table class="padding10top" border="0" cellpadding="0" cellspacing="0" width="100%">
<tr>
<td>&#160;</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top">&#160;</td>
<td valign="top">
<table border="0" cellpadding="0" cellspacing="0" width="504">
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<td valign="top">
<table border="0" cellpadding="0" cellspacing="0" width="100%">
<tr>
<td align="left" valign="top" width="68">&#160;</td>
<td class="txt13 preto" valign="top" width="435">
<p style="margin:0;">Fotos de Victor Frond (1859-Brasil)/Litografias de F. Sourrieu, J.Laurens, D.Duruv e Sebastien Sisson (Paris), entre outros <img src="http://www.overmundo.com.br/_overblog/img/1180239351_mandioca.jpg" alt="Foto-Litografia Victor Frond/S.Sisson" class="foto" style="padding:0;" height="272" width="421" />Escravas descascando mandioca-Vale do Paraíba do Sul-RJ</p>
<p><img src="http://www.overmundo.com.br/_overblog/multiplas/1180239527_acucar_frond.jpg" style="max-width:200px !important;max-height:139.688px !important;" class="txttoimage_image" /></p>
<p class="cinza1 txt10 caption" style="line-height:110%;"> Pátio de Fazenda de café </p>
<p><!--imagem1-->
<p class="img_overblog" style="margin:0 0 12px;padding:0;">&#160;</p>
<p style="margin:0 0 4px;padding:0;"> <img src="http://www.overmundo.com.br/_overblog/multiplas/1180290569_frond_fila_roca.jpg" style="max-width:200px !important;max-height:141.25px !important;" class="txttoimage_image" /></p>
<p class="cinza1 txt10 caption" style="line-height:110%;">Fila de escravos </p>
<p><!--imagem1-->
<p class="img_overblog" style="margin:0 0 12px;padding:0;">&#160;</p>
<p style="margin:0 0 4px;padding:0;"> <img src="http://www.overmundo.com.br/_overblog/multiplas/1180239527_senzala_frond.jpg" style="max-width:200px !important;max-height:135.417px !important;" class="txttoimage_image" /></p>
<p class="cinza1 txt10 caption" style="line-height:110%;">Senzala/p&#62;<!--imagem1--></p>
<p class="img_overblog" style="margin:0 0 12px;padding:0;">&#160;</p>
<p style="margin:0 0 4px;padding:0;"> <img src="http://www.overmundo.com.br/_overblog/multiplas/1180280145_frond_farinha.jpg" style="max-width:200px !important;max-height:135px !important;" class="txttoimage_image" /></p>
<p class="cinza1 txt10 caption" style="line-height:110%;">Escravos fazendo farinha</p>
<p><!--imagem1-->
<p class="img_overblog" style="margin:0 0 12px;padding:0;">&#160;</p>
<p style="margin:0 0 4px;padding:0;"> <img src="http://www.overmundo.com.br/_overblog/multiplas/1180280145_frond_pilando.jpg" style="max-width:161.562px !important;max-height:200px !important;" class="txttoimage_image" /></p>
<p class="cinza1 txt10 caption" style="line-height:110%;">Escravas pilando</p>
<p><!--imagem1-->
<p class="img_overblog" style="margin:0 0 12px;padding:0;">&#160;</p>
<p style="margin:0 0 4px;padding:0;"> <img src="http://www.overmundo.com.br/_overblog/multiplas/1180280146_frondfazenda.jpg" style="max-width:200px !important;max-height:139.062px !important;" class="txttoimage_image" /></p>
<p class="cinza1 txt10 caption" style="line-height:110%;">Escravos descansando na roça</p>
<p><strong></p>
<p>Juro, de pés juntos, que é tudo verdade</strong>.</p>
<p>Numa noite de 1973, na quadra de uma Escola de Samba em Cascadura, fiz uma entrevista impressionante. Eu e um grupo de amigos (entre os quais estava o radialista Rubens Confeti, da Rádio nacional aqui do Rio de Janeiro e o fotógrafo José Ricardo Almeida).</p>
<p>O impressionante era que a entrevistada estava prestes a completar 117 anos e...havia sido escrava!</p>
<p>Quem já ouviu, ou mesmo viu, uma pessoa de 117 anos? São pessoas raras. Muitos eventos que só conhecemos pelos livros, foram para elas corriqueiros. A visão clara que elas tem do passado remoto, para nós é tão desconcertante que parece mentira.</p>
<p>Mas juro. Não minto e repito: <strong>Isto não é ficção</strong>. Desta vez, a história é a mais pura realidade.</p>
<p>Os incidentes que a entrevistada nos dá conta são de 1874, quando ela estava com 15 anos. Aconteceram, numa fazenda de café do Vale do Paraíba do Sul, Rio de Janeiro, chamada Santa Teresa, num município denominado hoje Avellar (que, na época, ainda pertencia à cidade de Paraíba do Sul). O nome Avellar é emblemático pois o patrão de nossa entrevistada era, ninguém menos, que o Visconde do Paraíba, João Gomes Ribeiro de <strong>Avellar</strong>.</p>
<p>O nome de nossa entrevistada é <strong>Maria Teresa dos Santos</strong>, matriarca de uma espécie de dinastia que, sediada no morro da Serrinha, em Madureira, não só implantou no lugar o Jongo trazido da roça, como ajudou a criar, em 1947 a Escola de Samba Império Serrano (Teresa foi a orgulhosa mãe de Antônio dos Santos, o<strong> Mestre Fuleiro</strong>, histórico diretor de harmonia desta escola).</p>
<p>O registro foi feito num gravador K7, cuja fita, mídia fantástica que é, sobrevive intacta em meu arquivo (o arquivo do <strong>grupo Vissungo</strong>), aguardando digitalização. O documento - que eu tenho um orgulho enorme de ter produzido - é um dos mais impressionantes registros históricos em áudio, que eu conheço sobre o assunto e será, assim que digitalizado, posto à disposição dos interessados em algum acervo público, dos poucos que o Brasil possui. O primeiro destes arquivos poderá ser, com certeza, o Overmundo.</p>
<p>Decidi dar a este post, que reproduz a transcrição da entrevista (também extraída, em parte, do meu livro '<strong>O Samba e o Funk do Jorjão</strong>), um jeito menos formal. A idéia foi deixar Teresa falar sem edição, diretamente, para nós, seus leitores. Teresa morreu dois ou três anos depois da entrevista. Tinha, pelas contas que fazia, 120 anos.</p>
<p>Ao final deste post, alguns comentários se fizeram necessários, já que a entrevista gerou uma série de questões inéditas, a serem respondidas por uma pesquisa, de veios muito ricos, que, pelo visto não vai acabar tão cedo. Um destes veios é sobre o Jongo, enquanto ingrediente importante do caldo de cultura que é o Samba e que, a partir dos elementos trazidos à luz pela entrevista, ganha contornos muito mais nítidos, no tempo e no espaço.</p>
<p>Contudo e por tudo, mais uma vez afirmo, é Maria Teresa, a ex-escrava quem fala sobre o que viu em 1874. Por mais desconcertante que isto possa parecer, é tudo verdade.</p>
<p><strong>A Roça na voz de Teresa</strong></p>
<p>..<em>"Queria dizer que naquele tempo eles sabia fazer o que agora num vejo ninguém fazer. Faziam! Se você estava com dor de cabeça ou uma dor de barriga, eles passavam a mão assim na tua cabeça e a dor de cabeça ia embora, passavam a mão assim na tua barriga e dor de barriga ia embora. Agora não. Agora eles não faz nada. Eles não sabem é nada. Eu não...Naquele tempo era bom. Eu não. Não sabia (curar). Só o Jongo. Num podia nada. E, depois...naquele tempo não podia aprender mais nada porque o Sr. Num deixava. Nós carregava os filhos deles. Ah!.. Deus me livre se agora fosse como naquele tempo! Nossa Senhora! Se agora fosse como naquele tempo...O Visconde era de Paraíba. De Avellar. Visconde de Avellar.</em></p>
<p><em>Num sabe aquela família Avellar?Ainda está lá. O sobradão branco, diz que tá cheio de cobra. Num tem mais nada daquilo. Num tem mais nada daquilo, meu filho. Fui uma vez lá depois que eu vim pra aqui, com alguém. O sobrado tá a mesma confusão mas, o sobrado eu conheço por dentro. Um apartamento, lá no alto. Sobrado grande. Só a fazenda! Só o pessoal que tinha! O Visconde tinha escravo de pagode! Tinha escravo pra duas forma. Duas forma (cerca de 300 escravos)! O visconde botava duas forma. Visconde de Avellar. Foi senhor do meu pai.</em></p>
<p><em>...Pra quem viu o cativeiro como eu vi....É triste. Olha...se você não queria dançar,você tinha que levar couro. Se não queria fazer qualquer coisa, tinha que apanhar. Tinha tronco. Tinha tronco de campanha, tinha tronco de botar nos pés, tinha tronco de botar no pescoço, tinha isso tudo."<br />
</em><br />
<strong>A fuga da fazenda</strong></p>
<p>...<em>"Meu pai era capataz da fazenda. Meu avô criador de porco, mas era porco mesmo, num era esses porquinho de hoje não. A gente passava bem e passava mal. Mas morreu muita gente e, depois o Dr. Avellar era muito ruim! O pai dele num era ruim como ele não mas ele era. É brincadeira? Botar 'bacalhau'? Não sabe o que é 'bacalhau'?! Aqui na cidade tinha que ainda quando eu vim aqui pra cidade eu vi 'bacalhau', vi tronco aqui na cidade. 'Bacalhau é aquilo que é como se diz?...Como aquilo que é couro, enroscado assim...Um relho! Mas não era chicote não. Chicote era trançado e não era trançado não. É. É o que fazia...Dr. Avellar. Ele era filho do Visconde.</em></p>
<p><em>...Se fugia muita gente? Fugia! Fugia! Chamava Capitão do mato. Procurava eles. O que procurava eles era o Capitão do Mato. Coitados! Vinha tudo amarrado, algemado assim, tudo algemado, heim!(perguntada se lá tinha quilombo, não entende a pergunta): Em Paraíba tinha tudo. Pra onde eles fugia? Era no mato virgem. Era mais na roça. Paraíba, Campo Verde, Boa Vista, Conceição, Santa Teresa. Eu fui criada na fazenda da Santa Teresa. Era do Visconde de Avellar.</em></p>
<p><em>Ficavam lá no mato, coitados. As vezes eles vinham, roubavam um porco do senhor e iam comer no mato. Fazia fogo no mato pra comer. Ficava. No mato eles ficava escondido. Quando pegavam eles...meu senhor! Como passavam mal, como eles passavam mal no bacalhau...Olhe! Deus soube o que fez. Deus soube o que fez, meu filho! Eu vi isso tudo, sabe? Esse tempo eu tinha meus 15, 16 anos.</em></p>
<p><em>Eu vi muita coisa, né? Eu era Ventre Livre, eles queriam me bater, eu disse não! Eu sou forra! Eu sou ventre livre, não sou escrava não! Escravo é minha mãe e meu pai! Queriam me bater? Não. Não me batem não! Aí eu fugi. Eu fugi e fui encontrar com meu pai, aí meu pai era fugido...Que ele vinha fugindo do serviço, ora! Que vinha fugindo da roça!...Aí meu pai me disse: O que que ocê está fazendo aqui, minha filha? Eu falei: Eles queriam me bater, eu fugi! Meu pai: Você não pode apanhar, porque você é forra, minha filha. Escravo sou eu, que sou seu pai! Agora você não vai mais pra lá!</em></p>
<p><em>Aí eu fui lá pela roça, com meu pai. Ia pra roça com meu pai e minha mãe. Deus faz a verdade, o que eu vi aquele pessoal passar aquele tempo. Dava tapa na cara das criada, dos escravo. Olha!.. Eu tinha raiva de um tal de nome Lulu. Era filho do Dr. Avellar, de que meu pai era escravo. Eu não sei o que foi que meu pai fez, meu pai ia levar o... ele foi, veio de lá, e mandou um tapa na cara de meu pai. Aí meu pai ficou revoltoso. Ai meu tio disse assim: Vamo embora! E o meu pai, não sei se queria matar ele. Eu num sei. Foi embora. Pra roça. Aí eu tomei raiva dele. Aí ele falou: Ô crioula! Eu falei: Crioula é a sua mãe! Que ocê deu um tapa na cara do meu pai agora! Se eu fosse meu pai eu te capava a barriga agora! E ele: Ó sua negrinha! Negrinha, não. Não sou negrinha. Tava com 15 anos. Aí eu fui indo pra roça. Aí meu pai: Mas ocê veio pra roça? Falei: Vim que eu não quero mais ficar na fazenda. Que eles botava as crianças, as pequena, as negrinha, pra brincar com os filhos, pra carregar os filhos dela." </em><br />
<strong><br />
O Munhambano</strong></p>
<p>..<em>."Tinha festa. Eles davam muita festa pros escravos. Muito. Eles davam S.João, Santo Antônio, tudo. Eles davam...Natal. Tudo eles davam festa. No Natal eles davam roupa...Os fazendeiros é que dava. Dava tudo. Graças á Deus! Dava tudo mas...era aquilo. Mas, era ali, ó! Minha avó era lavadeira dos escravos. Meu avô era tratador de porco. Minha avó era Benta! Benta da Silva e meu avô também era Bento. Antônio Bento da Silva. Ela era Munhambana. Ele também era."</em></p>
<p><em>É. Todos dois eram Munhambanos. Ah...Eles num contaro como era de onde eles vinham não. Eles num contaro que a gente era criança naquele tempo...Meu avô num era preto não. Meu avô, o cabelo dele era aqui (mostra abaixo do ombro) Minha avó também. Meu pai era mulato mas casou com a minha mãe que era preta. E as outras minhas irmãs eram tudo mulata. Eu e meu irmão saiu da cor da minha mãe. Mas, meu avô? Meu avô o cabelo dele parava aqui (mostra de novo o ponto). Nós penteava o cabelo:(imitando avô:)' Ara! Ara eu! Ara eu pega ocê!' Tudo assim que ele falava. (imita de novo:) 'Oça o tutra!" Sei lá, colher que ele pedia, a gente não sabia, se era uma coisa que ele pedia e a gente não sabia. (imita de novo:) ' Mim dá essa coisa aí o ningrinha!': Nós pidia a ele. Aí ele sabia o que era. Meu avô Antônio. Ele não era preto. Era mulato. Se era mulato de cabelo liso? Era mulato de cabelo liso.</em></p>
<p><em>É. Veio da África. Meu avô, minha avó contava, porque na fazenda tinha muita gente africana, tinha...Angola, isso...D'Angola... isso tudo tinha. Os português trazia ele pra aí. Tudo era assim.</em></p>
<p><em>(Se irritando): Meu avô era africano! Meu avô, minha avó, era tudo africano....(de novo irritada com a insistência da pergunta sobre o estranho biotipo de seu avô): É. Africano. Gente africano. Pois ele era africano! Munhambano é África! É África. meu avô era africano! Quantas vezes quer que eu falo? (mais irritada ainda): Não! É África! Lugar na África (se acalmando:)... Aqui não tem Madureira? É como assim. É África. É mesmo que lugar da África. Aqui não tem cidade? Num tem Paraíba do Sul? Então? É como a África. É assim."</em></p>
<p><em>"Aquele tempo...A gente morria de medo de fazer filho. De que jeito que a gente vivia? O filho lá....Um dia chegava, tirava o filho da gente pra vender. Hum! Minha mãe num foi vendida? Minha mãe num era daqui. Minha mãe era lá da Bahia. Foi. Vendero aí pra um vendedor aí, ó! Meu avô num foi vendido? Meu avô era africano e foi vendido. Então? Foi vendido, num é? Foi o Visconde! Minha avó foi vendida. Isso tudo foi vendido. Agora vai vender quem é? Vão vender quem é? Vai vender ocê?...(Solta uma gargalhada) Vão vender quem é?"</em></p>
<p><em><strong>Teresa e a República</strong></em></p>
<p><em>..."Hoje é tudo diferente, meu filho. Óia...Porque que eles tiraram o Deodoro, da Fonseca? Porque Deodoro sabia governar!.Inda outro dia (imitando questionamento dos filhos)... Aí, oh mãe...Ó mãe, a Sra...(como se a interromper os filhos)...O que?? Deodoro sabia governar!! Assim que acabou o cativeiro, foi Deodoro que tomou conta. Deodoro botava tudo ali, na linha. Agora não. A mulher dele era boa. Ele era muito bom. A gente comia bem, bebia bem. Aquelas coisa que ficava ruim nas venda...ele mandava jogar tudo fora. Aí...Óia a gente panhando na rua! Que é de que tá assim agora? Que é de? Que é de?.. Peixeiro, que chegava aí, da praia, lá do lado de lá, da praia de Niterói,...Chegava os peixeiros ? Dava tudo pro home. Ah...!Ele botava aqueles peixes tudo fora. A gente panhava aqueles peixes grandes. Ficava bem bom. Óia a gente se espanando nos peixes. Mas, agora?</em></p>
<p><em>Trabalhei pra Deodoro da Fonseca! Eu que tô aqui! Não me incomoda. Aqueles soldados (imitando o soldado lhe fazendo a corte:) ..Ih! De adonde ocê é, heim? E eu: Num tem conversa! Subia. Levando a roupa que minha tia lavava, eu ajudava ela a lavar, ajudava a engomar, viu? E tô aí, com a graça de Deus! Eu agora nem sei o que é soldado!? Soldado hoje é porcaria, não vale nada, não vejo nada. Eu ando na rua e num sei quem é soldado! Porque, aquele tempo...era SOLDADO! Aquele tempo ocê conhecia GENERAL! Hoje em dia num sabe quem é general, não sabe quem é doutor, num sabe nada nesta vida!...Aquela época tinha (imitando marcha:) báu, báu, báu, báu! Aquelas fardas, que a gente passava, as fardas alumiando o sol, assim...ninguém podia. Agora, hoje em dia num se vê nada. Num vê nada. Anda de calça arregaçada. Aquele tempo, ocê via isso aqui do general, dos soldado... Você dizia: Ih!, fulano, eles vem lá! Hoje em dia ocê até empurra eles assim...Soldado muito bem vestido, a roupa bem engomada. Quando era gala, a roupa branca...a coisa ali, ó!</em></p>
<p><em>Eu tinha (respeito)! Eu tinha! Tanto que as vezes até tomava benção. Ocês sabe que general naquele tempo era General. Hoje eu não sei quem é general! General assim, com estrela, (imitando marcha de novo:)...Táu, táu, táu, táu, chega só...só naquele pisar dele eu sentia medo. Soldado que ocê tem aí? As vezes eu fico assim oiando. Lá perto de mim mora um soldado. Eu falo (desalentada:)... Isso é soldado?! Ah...Eu tinha respeito de soldado. Hoje em dia não tenho respeito de soldado. Tinha".<br />
</em><br />
<strong>Jongo em 1874</strong></p>
<p>.<em>.."O Jongo é dos africanos. É do meu avô...Meu avô era do cativeiro. Chamava Antônio Munhambano, africano. Eu sou de Paraíba do Sul. Ele primeiro era do Dr. Avellar. Ele era escravo do Dr. Avellar, num sabe? Ele era escravo do Visconde e do Visconde ele foi para o Dr. Avellar. O Visconde era o pai do Dr. Avellar. Não sei Visconde de quê. Só sei que é visconde, seu conde...naquele tempo, num é ? Foi lá em Paraíba do Sul, na fazenda de Avellar, num sabe? Meu avô era africano. Foi achado. A parte da África eu não lembro. Só sei que ele era africano. Era 'munhambano'. Era de Munhambá e quem trouxe ele pra aqui foi o português, né? Foi quem trouxe ele. O meu avô. Ele tinha raiva de português porque trouxeram ele pra aqui. Diz que abanavam lenço encarnado e eles vinham chegando. Eles não sabiam naquele tempo quem eram e aí, trouxeram ele.</em></p>
<p><em>...O Jongo representa pra mim a mesma coisa que é: Negócio da gente africana. O Jongo era festa dos cativos. Era Caxambu, viola...Tinha viola. Meu pai era tocador de viola. Antônio Bento da Silva. Tocava viola...e meu avô, tocava urucungo.</em></p>
<p><em>Não...cantado mesmo em...O Jongo era a festa dos pretos. Se era dos preto velho? Não. Era festa </em><em>dos pretos</em>. Pros brancos vê a gente dançar. Era um terreiro grande, tocava o caxambu e os brancos vinham e a gente cantava pra eles vê a gente cantar e dançar. Era só pra eles vê. Que a gente era escravo, tava na fazenda. O que é que ia fazer? E se não dançasse, ó...!</p>
<p>Era sábado e domingo. As vezes fazia na festa de São João. Foi meu avô quem trouxe o Jongo da África e botou na fazenda pra todo mundo. Até hoje eu danço, canto o Jongo.</p>
<p>Os instrumentos? O que eu sei era caxambu...É aquele de bater: caxambu. A viola era de tocar e o pandeiro acompanhava a viola e o meu avô tocava urucungo, sabe o que é não é ? Botava na barriga ...O senhor não sabe o que é urucungo?! Pois então!? É igual a berimbau. Só que naquele tempo não era berimbau. Era urucungo. Botava aqui, ó (mostra a barriga). Botava no umbigo a cuia e batia.</p>
<p>Eu achava o Jongo daquela época mais bonito. Agora eu faço o desse tempo mesmo. Deixa eu lembrar...Um bom...Jongo dele mesmo, do meu avô. Quando ficou forro e a gente cantava. '<strong>Carolina</strong>'. Cantava assim:"</p>
<p>(cantando)<br />
(Áudio e partitura:Arquivo <strong>grupo Vissungo</strong>, RJ)</p>
<p><em>Oh pra que pente carorina?<br />
Num tem cabelo<br />
Pra que pente Carorina?<br />
Sem cabelo<br />
Pra que pente Carorina?<br />
Ê pra que pente Carorina?<br />
Sem cabelo, pra que pente Carorina?<br />
Ê pra que pente Carorina?<br />
Não tem cabelo,<br />
pra que pente Carorina?"</em></p>
<p>...”Mas era eles que cantavam e a gente respondia...Era língua africana sim, uai?! Assim. A gente até caçoava deles (zombando): Canta assim, num é ? (enfática): Era língua sim! (repete a letra do ponto de Jongo sem explicar)...essa era na língua deles (canta mais) ...mas a gente não respondia assim. Respondia depois.”</p>
<p><strong>Jongo 100 anos depois </strong></p>
<p><em>...”Hoje num tem mais nada. De primeiro, na casa dessa só tinha Jongo. Todos os sábados nós dançava mas...o pessoal morreu. Num ficou ninguém. Cada casa tinha Jongo. Cada casa tinha Jongo. Era todo sábado. Ah...Quem canta o Jongo sou eu...tem essa outra aqui mais...as outra precisa...Pode aprender. Nós aprendemo, num é? Elas pode aprender, vê a gente dançar, cantar e elas aprende também.</em></p>
<p><em>...Tem. Tem. Em Madureira tem muito. Tem muito, oh!.. A Maria quando deu o Caxambu teve gente lá assim, ó! Na casa dela. Agora eu não. Se ocês for lá vê. Eu nunca mais dei. Eu não. Meu marido morreu, eu fiquei eu com meus filhos, sabe. Graças a Deus. Fiz Jongo! Óia...Ainda hoje eu soube que lá na minha terra tem Jongo quase todo sábado. Diz que tem Jongo. Naquela casa que ocês....diz que eu vou lá. Ela disse que qualquer tempo ela vai me levar lá. Diz que o Jongo, que o bagúio lá é assim! O Caxambu lá é de arromba. (para Joana):..Ocê tem num vontade de pular no Caxambu de lá não, Maria? O Caxambu lá é </em><em>de fato</em>.</p>
<p>E a gente sabe cantar aqui? Num sabe cantar. Num tem voz! Essa gente aqui num tem voz pra cantar. Quem vai cantar o Caxambu sou eu...Aquela pequenazinha hoje num sei se vem, é só. E lá não...todo mundo à cantar, todo mundo à dançar! Lá em minha terra. Graças a Deus! Óia...Todo mundo fala: A Sra., já tá com essa idade e ainda dança? Danço! Inda pulo o meu Caxambu! Graças á Deus!"</p>
<p>--------</p>
<p><strong>Notas finais:</strong></p>
<p>Maria Teresa teria nascido em 1859. Os fatos dos quais nos dá conta são de quando ela estava com cerca de 15 anos. Logo, o Jongo que descreve é, portanto, aquilo que sobre a manifestação poderia saber uma adolescente. São preciosas no entanto as descrições sobre uso no Jongo da época, de instrumentos como o <strong>Urucungo </strong>(um arco musical tipicamente Bantu) e a viola.</p>
<p>Em 1874, já com o processo de decadência das fazendas da região se aguçando, sabe-se que foi hábito comum entre os 'Barões do Café' demonstrar, ostensivamente, os resquícios de fausto que lhes restavam, forçando seus escravos a se exibir para visitas, vindas, não raro, da Corte. Foram, certamente, a partir destas viagens, que danças como o Lundu, por exemplo, migraram para a os salões da Corte.</p>
<p>São importantíssimas as informações que presta, no sentido de que seu avô, africano de nação 'Munhambano', foi quem trouxe a prática do Jongo para o local (não o seu avô, pessoalmente, é claro, mas africanos bantu, trazidos para aquela região, de cultura similar a dele). O fato curioso dela falar e insistir que seus avós eram mulatos de cabelo liso, pode ser, definitivamente, explicado pelos dados a seguir.</p>
<p>Num gráfico sobre a demografia escrava na região de Vassouras, RJ, está demonstrada a existência na região de Vassouras e Paraíba do Sul de indivíduos da etnia <strong>Inhambane</strong>, associação evidente com o 'Mu-nhambano' citado por Maria Teresa.</p>
<p>Inhambane é de fato, um povo que habita uma vasta região ao norte de Maputo, em Moçambique, no litoral do país e que foi, por conta disso, exposta, durante muito tempo, às influências gerais das históricas relações entre Ásia e África, ocorridas na costa africana do Oceano Índico, relações estas que produziram, entre outros efeitos, alguma mestiçagem de negros com árabes (cujos interesses comerciais penetraram ali antes dos portugueses) e indianos (que marcaram fortemente o perfil étnico da população do Madagascar, por exemplo, ilha muito próxima à costa a Moçambique).</p>
<p>Por esta hipótese, os avós de Maria Teresa foram pegos no território Inhambane e postos num navio que, atravessando o cabo da Boa Esperança, deu no oceano Atlântico, seguindo para o Brasil.</p>
<p>Segundo o gráfico acima citado (de Flávio G. dos Santos), haviam apenas 8 indivíduos de origem Inhambane na região de Vassouras entre 1837 e 1840, seis deles residindo em fazendas nas quais pode ser incluída a Santa Teresa, citada por Maria Teresa. A hipótese de, pelo menos, dois destes seis escravos serem parentes (dois seriam os próprios avós 'Munhambanos') de Maria Teresa é de todo modo, impressionantemente plausível.</p>
<p>Precioso é, do mesmo modo, seu testemunho pessoal - e ocular- de que eram comuns na região as torturas, as fugas e os 'aquilombamentos'. Os locais descritos por ela, correspondem a onde está circunscrito hoje parte do Município de Avellar, vizinho de Paraíba do Sul. Na crônica da insurreição de escravos conhecida como '<strong>Quilombo do Manoel Congo</strong>', ocorrida em 1838 nesta região), tem papel importante nos conflitos a fazenda de Santa Teresa, já pertencente naquela época a João Gomes Ribeiro de Avellar, o Visconde do Paraíba (chamado de Visconde de Avellar por Maria Teresa). O Barão de São Luiz, Paulo Gomes Ribeiro de Avellar, filho do visconde, (talvez o tal que bateu na cara do pai de Teresa e é chamado por ela de 'Lulu') é citado no processo que condenou Manoel Congo à morte, como dono do escravo citado como sendo o próprio 'Vice Rei' do quilombo, um tal de Epifânio Moçambique, morto na refrega.</p>
<p>Não tendo feito qualquer comentário sobre o retorno de seu pai, de sua mãe ou dela mesma para a fazenda, depois da fuga narrada, fato que, por sua relevância dramática, com certeza teria sido citado na entrevista, pode-se deduzir que Maria Teresa (e toda a sua família), viveu na condição de quilombola a partir de 1874.</p>
<p>A afirmação que faz de que ainda viu instrumentos de tortura na Corte, atesta o fato surpreendente de que ela já estava residindo no Rio de Janeiro, na proclamação da República, havendo ficado livre, portanto, cerca de 14 anos <strong>antes </strong>da Abolição.</td>
</tr>
</table>
</td>
</tr>
</table>
</td>
</tr>
</table>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[A Iconografia da Barbárie]]></title>
<link>http://spiritosanto.wordpress.com/2007/03/17/a-iconografia-da-barbarie/</link>
<pubDate>Sat, 17 Mar 2007 22:38:10 +0000</pubDate>
<dc:creator>spirito</dc:creator>
<guid>http://spiritosanto.wordpress.com/2007/03/17/a-iconografia-da-barbarie/</guid>
<description><![CDATA[

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Atenção distinto público. Conforme anunciado aqui mesmo neste ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<table class="padding10top" border="0" cellpadding="0" cellspacing="0" width="100%">
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<p class="botao">&#160;</p>
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<p style="margin:0;"><img src="http://www.overmundo.com.br/_overblog/img/1173753329_10463745.pict0382.jpg" alt="k43.pbase.com/.../large/10463745.PICT0382.jpg" class="foto" style="padding:0;" height="316" width="421" /></p>
<p>Atenção distinto público. Conforme anunciado <a href="http://www.overmundo.com.br/overblog/nao-ha-nenhum-mal-neste-brasil-canibal">aqui mesmo </a>neste sítio, temos o orgulho de apresentar o segundo e último (pelo menos por enquanto) episódio da transcendental série:</p>
<p>“BARBÁRIE TAMBÉM É CULTURA'</p>
<p>Apresentando hoje um tema que apesar de, enquanto peça de humor, não ter a menor graça, nos ajudará sem dúvida nenhuma a compreender, definitivamente, porque talvez devêssemos começar a nos livrar logo (além da hipocrisia, do cinismo e de outras manias sub- urbanas) de algumas expressões outrora tão jocosas e pitorescas (ó jocosidade brasileira hoje tão efêmera!), tais como, por exemplo, 'Bárbaro!' (quando nos referíamos a uma coisa tão boa, que chegava a ser fantástica) ou a gauchíssima “Barbaridade!” (com um sentido mais ou menos igual, só que exagerando mais ainda), ou mesmo “Sinistro!” (algo assim como 'Incrível!', 'Pra lá de bom'!), ou mesmo “Terror”, 'Horror', 'Alucinante' e outras palavrinhas que, ditas assim, no calor de uma conversa sadia e sem compromisso, podem agora assustar alguns desavisados, estressados, como estamos ficando nós todos hoje em dia -principalmente os cariocas- que de hilários piadistas de plantão, antes cuca-frescas profissionais, nos tornamos pilhas de nervos, literalmente perdidos como cegos em tiroteio, ouvindo a briga de foice no escuro, abaixando aqui e ali a cada zás das foices (vai que uma delas é a daquela 'velha dama' que nos quer a todos, um belo dia, em sua fria companhia?). Coisa de louco!</p>
<p>Vamos nessa então, enquanto vivos estamos (o episódio de hoje aliás, passa ao largo destas palavras que não se deve mais sequer ousar falar).</p>
<p>Escrito no já distante 4 de Janeiro de 2004 e publicado em 2005 (nesta versão de 2007 há uma brevíssima atualização), num jornal on line chamado '<a href="http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/">Observatório da Imprensa</a>', leiam o candente tema da escuridão jornalística, do 'apagão' imagético, do 'branco' da nossa antes tão corajosa e impoluta mídia, enfim sobre a ausência de imagens que a barbaridade real (até demais) destes nossos dias vai nos legar para o futuro (que, se recuarmos à 2004, nada mais é do que este inquietante presente). Com vocês então:<br />
<strong><br />
A Iconografia da Barbárie </strong><br />
Mídia e imagem popular no Brasil</p>
<p>Como um filme mal editado, a Mídia no Brasil começa a sofrer, em muitos aspectos, as conseqüências da ausência de imagens que reflitam o que realmente acontece nas entranhas de nossas grandes cidades, principalmente no interior dos enormes bolsões de exclusão e miséria ainda hoje chamadas, com certo descaso semântico, de 'comunidades carentes'.</p>
<p>Que efeitos estas circunstancias produzirão num futuro mais imediato, sobre o acervo de imagens da vida contemporânea de nossas grandes cidades, principalmente Rio e São Paulo; sobre a iconografia de nossa alma urbana em suma? Que falta estas imagens farão á compreensão de nossa realidade, aquela compreensão tão necessária á formulação de políticas que estimulem nosso desenvolvimento ?</p>
<p>Para início de conversa, pode-se supor talvez que, entre outras razões, a circunstância desta nossa carência de imagens reais do cotidiano, foi recentemente instalada pela violenta e absoluta rejeição que os traficantes de drogas – e as diversas outras modalidades de bandidos que hoje infestam o nosso Brasil -- passaram a sentir pela imprensa em geral, principalmente por aqueles setores voltados para o registro de imagens, em coberturas jornalísticas que, por força do enorme aguçamento da violência urbana, passaram rapidamente a assumir a condição de cobertura de guerra.</p>
<p>Havia já na moderna iconografia jornalística do Brasil (na filmografia inclusive), por conta dos renitentes (embora sutis) mecanismos de afirmação do nosso elitismo, um certo manto de invisibilidade que encobria, por exemplo, a trágica vida nas favelas, invisibilidade esta encoberta pela criação de uma imagem, idílica, romântica, do favelado cordial, pitoresco e submisso, dominado por meia dúzia de contraventores fuleiros e desorganizados, imagem que talvez nada mais fosse do que uma espécie de projeção de como os intelectuais de nossa iníqua classe média, gostariam que os favelados efetivamente fossem: Seres miseráveis porém, conformados, bem humorados, e inofensivos.</p>
<p>Foi justamente quando este manto de hipocrisia jornalística parecia se dissipar, que a síndrome <a href="http://www.timlopes.com.br/central_globo_jornalismo.htm">Tim Lopes</a> se abateu, de forma definitiva sobre esta arriscada forma de se fazer imprensa no Brasil.</p>
<p>Produzindo sub-repticiamente o registro, flagrando os delitos, o modus operandi da bandidagem, num contexto que já poderia ser descrito, sem nenhum exagero, como um típico estado de guerra, com dois lados empenhados em verdadeiras batalhas de morte; auxiliando (ou sendo utilizada) na produção de certo tipo de retrato do submundo que, por sua contundência, acabavam por se transformar em provas e atos de denúncia direta contra indivíduos de alta periculosidade, nossa imprensa talvez só tenha se dado conta dos enormes riscos – jornalísticos e humanos- contidos nesta sua temerária estratégia, quando Tim Lopes foi barbaramente trucidado por Elias Maluco.</p>
<p>O fato é que, no afã de cumprir, talvez açodadamente, sua função de caçadora de notícias, a imprensa de nossas grandes cidades, passou a divulgar, de maneira muito sistemática, certos segredos estratégicos cruciais para a estabilidade do crime organizado esquecendo-se de que estava envolvida na cobertura de uma guerra e que, neste caso, não poderia autorizar jamais, que seus correspondentes penetrassem, sem apoio policial ou militar, nas linhas inimigas.</p>
<p><strong>Na Teletela de <a href="http://educaterra.terra.com.br/voltaire/politica/bigbrother.htm">Orwell</a></strong></p>
<p><strong>Esta ojeriza pela utilização judicial ou comercial de imagens de seu cotidiano, foi crescendo lentamente no meio dos traficantes, ao mesmo tempo em que ia se formando no Brasil, a exemplo do que já ocorria no resto deste nosso globalizado mundo, uma espécie de sociedade “Big Brother”, com a privacidade de cada cidadão (sempre em nome da segurança de todos), sendo controlada por milhares de câmeras e microfones ocultos, gerando em todas as pessoas de bem, uma sensação de contraditória insegurança.</strong></p>
<p><strong>Perdendo o controle da situação e abandonado a imparcialidade (condição difícil mas, essencial á imprensa também em situações de guerra) os jornalistas (fotógrafos, principalmente) passaram a ser vistos como 'chisnoves', espiões em potencial, se transformando, na ótica dos traficantes, em bolas da vez, vítimas preferenciais de mortes exemplares, assassinatos emblemáticos, quase culturais, como efetivamente aconteceu com o hoje mítico Tim Lopes.</strong></p>
<p><strong>É por esta, entre outras razões, que hoje existem apenas lendas, relatos orais do que acontece realmente no interior de um complexo de favelas.</strong></p>
<p><strong>Circula também, a bem da verdade, um certo tipo de imagem bem próxima do real (talvez um tanto glamurizada demais) que anda sendo expressa por aí em bons filmes e telefilmes como <a href="http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/filmes/cidade-de-deus/cidade-de-deus.asp">Cidade de Deus </a>e <a href="http://cidadedoshomens.globo.com/">Cidade dos Homens</a> . Desde que o controle violento dos traficantes sobre os espaços mais carentes da cidade se agudizou no entanto, rigorosamente nenhuma imagem real - principalmente noturna - pôde ser gerada ou trazida para fora do contexto onde foi produzida (neste ponto um novo preâmbulo com uma pergunta que não quer calar: Haverá uma iconografia autorizada pelas '<a href="http://www.overmundo.com.br/banco/carnaval-a-mineira">milícias</a>'?).</strong></p>
<p><strong>Outro aspecto importante é que, ao mesmo tempo em que a enorme popularização de máquinas, meios e equipamentos para o registro de imagens virava um fenômeno de consumo no Brasil, o crescente interesse das, agora escaldadas, empresas jornalísticas (principalmente emissoras de TV) pela aquisição das impactantes imagens desta guerra, passou a ser orientado no sentido de racionalizar, ou mesmo anular, todos custos operacionais e humanos diretos, comprando imagens geralmente produzidas por outro interessante personagem de nossas selvagens cidades: O bravo e indefectível “cinegrafista amador”.</strong></p>
<p><strong>É com efeito esta conjuntura que acaba por estimular, se não o surgimento, pelo menos a afirmação deste tipo de ‘profissional’ de imprensa, safo, ágil, clandestino, biscateiro especializado na documentação de solenidades comunitárias, batizados, festas de casamento, bailes Funk, etc. indivíduos que, transformados numa espécie de paparazzi de mazelas e tragédias urbanas, logo se transformaram em incansáveis caçadores de qualquer imagem inusitada que tenha interesse jornalístico especial (e o conseqüente valor comercial) - exceto é claro aquelas cuja obtenção signifique o risco da vida ou a certeza da morte.</strong></p>
<p><strong>Ninguém sabe...ninguém viu.</strong></p>
<p>Está se criando por conta disso tudo, uma extensa área de sombra na iconografia de nossas grandes cidades, um apagão provocado pela falta de registros gráficos (fotografia, cinema, TV) retratando o dia á dia, o bem e o mau viver dessa gente, ou até mesmo o que acontece nos espaços públicos onde vivem ou circulam estes milhões de pessoas que o Brasil rico e remediado, hoje já meio apavorado, teima em esconder.</p>
<p>Infelizmente este vazio, muito provavelmente, só poderá ser preenchido um dia, pela pesquisa ou coleta de imagens privadas, registradas por aqueles mesmos cinegrafistas amadores em festas comunitárias, casamentos, álbuns de família, etc. imagens aleatórias, cifradas, censuradas por severíssimas leis do 'silêncio', geradas que serão pelas mais vagas motivações e interesses fortuitos, sobre as quais não podemos ainda sequer prever a estética e os conteúdos que conterão porque, serão reflexo da visão estreita, da visão possível, obtida através de um ângulo bem fechado, de dentro destas comunidades, que se tornaram trágicas cidadelas da invisibilidade.</p>
<p>Parece óbvio, pelo menos nos aspectos abordados até aqui, que esta situação só poderá provocar a curto prazo, a confrontação na mídia brasileira de duas iconografias contraditórias mas não excludentes: Uma hegemônica, que voltará a ser imaginada ou idealizada pelos habituais profissionais criadores de imagens (fotógrafos e cineastas principalmente), segundo sua exclusiva visão estética e ideológica, alimentada por seu interesse comercial evidente e aquela outra, produzida pelos próprios habitantes das tais comunidades carentes (inclusive os traficantes e integrantes de 'milícias'), anárquica, espécie de iconografia autofágica, movida por códigos de linguagem e conteúdos absolutamente imprevisíveis mas de valor sociológico muito maior.</p>
<p>Não é difícil se concluir portanto que na falta de outras, estas imagens quase endoscópicas ou tomográficas de nossa sociedade, serão essenciais á compreensão de nossas doenças sociais mais graves, pistas vagas porém, quiçá únicas, para almejarmos talvez alguma cura no futuro.</p>
<p>Extrair e compreender as imagens retidas no interior destas nossas cidadelas de invisibilidade será uma tarefa jornalística urgente daqui para a frente. Sem elas não haverá antropologia possível no futuro. Quem sobreviver verá. O melhor cego é aquele que <strong>quer </strong>ver.</p>
<p>Spírito Santo</p>
<p>Rio, 4 de Janeiro de 2004<br />
(publicado em Observatório da Imprensa em 2005)</p>
</td>
</tr>
</table>
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</tr>
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</td>
</tr>
</table>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Não há nenhum Mal neste Brasil Canibal]]></title>
<link>http://spiritosanto.wordpress.com/2007/03/06/nao-ha-nenhum-mal-neste-brasil-canibal/</link>
<pubDate>Tue, 06 Mar 2007 22:39:08 +0000</pubDate>
<dc:creator>spirito</dc:creator>
<guid>http://spiritosanto.wordpress.com/2007/03/06/nao-ha-nenhum-mal-neste-brasil-canibal/</guid>
<description><![CDATA[

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A Primeira Missa em São Paulo, realizada por padre]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<table class="padding10top" border="0" cellpadding="0" cellspacing="0" width="635">
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<td class="txt13 preto" valign="top" width="435">
<p style="margin:0;"><img src="http://www.overmundo.com.br/_overblog/img/1173047244_ptocolegio0.jpg" class="foto" style="padding:0;" height="277" width="421" /></p>
<p style="width:421px;margin:4px 0 15px;">&#160;</p>
<p style="background:#eeeeee url('../images/images/det_bg_legenda.gif') repeat-y scroll 0 50%;padding:8px 8px 8px 13px;" class="txt11">A Primeira Missa em São Paulo, realizada por padres jesuítas em 1554</p>
<p><!-- coluna de conteúdo --></p>
<table cellpadding="0" cellspacing="0" width="421">
<tr>
<td class="txt13"><!-- div texto--> 	 <!-- box de imagens, video, audio --></p>
<p style="width:144px;float:right;margin:0 0 6px 8px;"> <!-- box imagens --></p>
<p class="img_overblog" style="margin:0 0 12px;padding:0;">&#160;</p>
<p style="margin:0 0 4px;padding:0;"> <img src="http://www.overmundo.com.br/_overblog/multiplas/1173056092_canibal3p.jpg" style="max-width:200px !important;max-height:180.444px !important;" class="txttoimage_image" /></p>
<p class="cinza1 txt10 caption" style="line-height:110%;"> Hans Staden (o branco de barba) assiste a um esquartejamento ritual</p>
<p><!--imagem1--></p>
<p class="img_overblog" style="margin:0 0 12px;padding:0;">&#160;</p>
<p style="margin:0 0 4px;padding:0;"> <img src="http://www.overmundo.com.br/_overblog/multiplas/1173056093_canibal4p.jpg" style="max-width:200px !important;max-height:180.889px !important;" class="txttoimage_image" /></p>
<p>Em época de se discutir a barbárie nossa de cada dia, que tal mudarmos um pouco o rumo da prosa para um enfoque, digamos assim, menos baixo astral? Humor, por favor (mesmo que seja 'negro').</p>
<p>O tema que propomos é assaz conhecido de nós todos, brasileiros, desde que os primeiros contadores de histórias europeus estiveram por aqui (os que não foram comidos, é claro): A Antropofagia.</p>
<p>Chamamos a atenção do leitor apenas para um transcendental detalhe: a história abaixo narrada, por mais incrível que possa parecer, é rigorosamente verdadeira.</p>
<p>De insofismável conteúdo cultural e, por que não dizer profundamente antropológica (já que não trata apenas de 'canibalismozinhos', comezinhos e suburbanos), a história fala daquela antropofagia de alto nível, ritual, tradicional, contida nas curiosas e meticulosas maneiras de se destrinchar fibras, carnes e ossos de indigitados inimigos humanos, com intenções altamente simbólicas (logo, de modo algum meramente alimentícias). Antropofagia artística, poderíamos dizer em suma.</p>
<p>O tema (ainda muito mais relevante se considerarmos os animados dias de hoje) pode servir também para muitas elucidativas, e sobretudo divertidas, reflexões acerca da natureza da alma brasileira, notadamente naqueles pontos que tentam explicar por que vivemos ainda, mais de quatrocentos anos depois da história narrada haver transcorrido, a nos comermos uns aos outros, assim, de forma tão... tão sem cerimônia, sem pompa, sem circunstância.</p>
<p>É com esta dignificante intenção que lançamos aqui o primeiro capítulo da série...(“tchan, tchan, tchan, tchan” de Villa Lobos, por favor):</p>
<p>“BARBÁRIE TAMBÉM É CULTURA”:</p>
<p>Hoje apresentando o sensacional episódio:</p>
<p>“ O MOTIM DO MONTE CALVÁRIO”<br />
(Uma história que só poderia ter acontecido no Brasil.)</p>
<p>(Descrita no livreto do padre Carlos Bresciani Sj “ A primeira evangelização das aldeias em redor de São Salvador, Bahia1549-1569” publicado pela Fundação Gregório de Matos da Prefeitura Municipal de Salvador, 2000).</p>
<p>Em suas primeiras cartas em 1549, logo assim que chegou ao Brasil, chefiando uma missão jesuíta composta por quatro frades que desembarcaram com o primeiro governador geral Tomé de Souza, na barra da Bahia de Todos os Santos, o Padre Manoel de Nóbrega revelava sincero otimismo com relação a possibilidade de converter nossos índios à fé cristã:</p>
<p>“_ Todos estes que tenham conosco, dizem que querem ser como nós...se ouvem tanger a missa, já acodem, e quanto nos vêem fazer, tudo fazem; assentam-se de joelhos, batem nos peitos, alevantam as mãos aos céus...”</p>
<p>Contudo, esta missão de catequese do gentio local não era de modo algum desprovida de dificuldades como as cartas dos missionários as vezes demonstravam. Conta-se que certa vez, a despeito da não recomendação do governador geral preocupado com os riscos da empreitada, padre Nóbrega decidiu que se construísse uma casa, ‘a modos de ermida’ dentro de uma aldeia de índios, próxima à Salvador a qual eles, os padres, haviam dado o nome de Aldeia do Monte Calvário.</p>
<p>Escalado para nela morar, um dos missionários, o padre espanhol João Azpilcueta Navarro contou em suas cartas que ali catequizou vários índios, entre os quais muitos, ‘todos os que quiseram’, foram batizados. A ermida foi passada para o substituto do padre Navarro chamado Irmão Vicente Rodrigues, que em carta de maio de 1552 narra a história seguinte.</p>
<p>” Conta-nos que, numa guerra contra índios adversários, a Bastian Teles, filho do principal da Aldeia do Monte Calvário, foi adjudicado, como troféu da vitória, um preso para ser morto e comido numa grande festa. Mas Bastian e o pai, principal da aldeia, eram cristãos e não consentiram. Porém não eram cristãos os parentes da mulher de Bastiam e estes, como muitos outros, insistiram para que se aceitasse o preso e fosse comido em grande festa, segundo seu costume.</p>
<p>Quando chegou o corpo do preso já morto, Bastian se opôs, apesar das ameaças que lhe faziam de lhe tirar a mulher. Diante da fúria dos portadores do corpo, preferiu mudar-se para outra aldeia. Entrementes, foram avisados do caso o Pe. Paiva e o Ir. Vicente, que na ocasião estavam juntos na aldeia. Intervieram repreendendo fortemente, e, com força, conseguiram arrebatar-lhes o corpo, que, de noite, às escondidas, enterraram na horta da própria casa. Mas os parentes, que viviam em outra aldeia, ao saberem desta desonra sofrida, vieram armados de frechas e arcos, para desenterrar o corpo. Opuseram-se novamente os dois Missionários. “Acudimos - narra Ir. Vicente - e grande coisa foi não nos frecharem; fugiram.</p>
<p>Às duas horas daquela noite, os dois missionários conseguiram sepultá-lo perto da cerca da cidade, à revelia dos índios, que, naquela hora, jaziam todos embriagados pelas bebedeiras da festa. Ao amanhecer, os índios escavaram todo o terreno em redor da casa dos padres, inutilmente. Ficaram revoltados.</p>
<p>O fato se deu entre abril de 1550 e junho de 1551. Os padres, sob estas ameaças, se retiraram a morar dentro da cidade, continuando porém a cuidar da aldeia com freqüentes visitas.</p>
<p>A aldeia continuou por muitos anos. Pe. Luis de Grã, em Dezembro de 1554, nos diz que muitos de seus habitantes se mudaram, até mudou-se a aldeia toda. “Andam pela aldeia muitos que eram cristãos e moravam numa aldeia situada aqui perto da cidade (a do Calvário), na qual, os padres, que estiveram no princípio, tinham casa e ermida, e ali os ensinavam a grandes e pequenos, a homens e mulheres e, como seu costume é mudar-se freqüentemente, por qualquer capricho queimam a sua choupana em que moram; ninguém lhes impede, ainda que queimam toda a aldeia. Mudaram-se e, finalmente, se mudou toda a aldeia. Para eles eu trabalhava, mas porém seus costumes estão sem nenhum sinal de cristão...esqueceram-se tudo”.</p>
<p>“Sim, esquecemo-nos de tudo”, poderíamos confirmar hoje mesmo nós outros (com os arcaísmos, por favor!). 'Caranguejamos', Andamos para trás, poderíamos afirmar também.</p>
<p>Dizem que naqueles banquetes de antanho, nossos silvícolas antepassados (talvez os inventores do 'churrasco', tal qual o conhecemos) assavam as vítimas com ervas aromáticas. Hoje em dia nós outros, apesar de sermos orgulhosos urbanóides com freezers e microondas ultramodernos, nem as assamos mais.</p>
<p>E isto é o fim da picada.</p>
<p>Que nos sobrem ao menos alguns guerreiros vivos, para levantarmos, em algum lugar, a nossa nova aldeia. É só o que desejamos.</td>
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<title><![CDATA[JONGO! Patrimônio imaterial?]]></title>
<link>http://spiritosanto.wordpress.com/2007/03/03/jongo-patrimonio-imaterial/</link>
<pubDate>Sat, 03 Mar 2007 22:43:35 +0000</pubDate>
<dc:creator>spirito</dc:creator>
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Fazenda com escravos no Vale do Paraíba do Sul



 Foi lo]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<table class="padding10top" border="0" cellpadding="0" cellspacing="0" width="100%">
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<p style="margin:0;"><img src="http://www.overmundo.com.br/_overblog/img/1172740852_acucar_frond.jpg" alt=" Foto-litografia de Victor Frond e Sebastien Sisson - séc19" class="foto" style="padding:0;" height="294" width="421" /></p>
<p style="width:421px;margin:4px 0 15px;">&#160;</p>
<p style="background:#eeeeee url('../images/images/det_bg_legenda.gif') repeat-y scroll 0 50%;padding:8px 8px 8px 13px;" class="txt11">Fazenda com escravos no Vale do Paraíba do Sul</p>
<p><!-- coluna de conteúdo --></p>
<table cellpadding="0" cellspacing="0" width="421">
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<td class="txt13"><!-- div texto--> Foi logo no início das nossas colaborações por aqui. O Boletim Famaliá, no qual o tema apareceu, atraindo o meu comentário, já freqüentava a minha caixa de e.mail bem antes disso. Andava me dedicando ao tema há muitos anos e ele sempre tinha sido, pelo menos para mim, um mistério irresistível, coisas antigas, daquela que mãe da gente conta assim, por entre os dentes, no meio de uma conversa fortuita sobre assombrações: O Jongo!Quem sabe o que é isso exatamente? Para nos situarmos na conversa reproduzo aqui o link do verbete (que eu, fiel à memória do que aprendi e vivi sobre o assunto, criei e disponibilizei no sistema criative commons).Veja em <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Jongo">http://pt.wikipedia.org/wiki/Jongo</a>.A natureza das contribuições dos grupos, comunidades e instituições envolvidas no processo deste inventário e, principalmente, o grau de ligação real (conhecimento de causa) dos envolvidos, com relação a uma manifestação cultural tão antiga quanto o Jongo, não estão explicitados no corpo do artigo. Não se pode deixar de aludir que o Jongo, uma manifestação até bem pouco tempo vagamente conhecida por nossa etnologia, é um tema muito complexo, ligado a uma espécie de 'elo perdido' - e sistematicamente subestimado por nossa academia: O caráter fundamental das particularidades das culturas africanas originais que informaram a cultura negra existente no Brasil.</p>
<p>Esta impossibilidade de se fazer uma avaliação criteriosa sobre o assunto atrapalha bastante a formação de um juízo de valor, uma opinião definitiva a respeito de uma ação de tamanha envergadura, podendo atrapalhar a própria decisão da comissão incumbida de legislar sobre a questão. É importante se frisar também que se está propondo a implementação de políticas públicas (de certo modo invasivas), ações governamentais que produzirão um impacto importante sobre o caráter de uma manifestação cultural que, cá entre nós, vivendo há mais de um século esquecida na roça, por alguma razão, de repente 'caiu na moda'.</p>
<p>“No decorrer do processo de inventário foi fundamental o apoio da Universidade do Rio de Janeiro (UniRio), do Grupo Cultural Jongo da Serrinha, da Rede da Memória do Jongo, do Grupo Cachuêra e de lideranças de várias comunidades jongueiras...”</p>
<p>O pleito pela transformação do Jongo em patrimônio imaterial (objeto da matéria do Boletim Famaliá neste link: <!-- BBCode auto-link start --><a href="http://www.overmundo.com.br/blogs/artigo-jongo-patrimonio-imaterial-brasileiro%29" target="_blank">http://www.overmundo.com.br/blogs/artigo-jongo-patrimonio-imaterial-brasileiro)</a><!-- BBCode auto-link end --> - por sua inusitada relevância nos dias de hoje - me parece um tema por demais polêmico. Fico mesmo surpreso que ele não esteja sendo amplamente debatido, pelo menos em seu âmbito mais direto.</p>
<p>Eu penso que patrimônio cultural material ou imaterial são conceitos bastante óbvios; patrimônio material mais ainda, porque neste caso, geralmente, estamos nos referindo a artefatos, obras concretas, acabadas, que não são muito passíveis de intervenção, transformação, ou mesmo apropriação. O grande X da questão na verdade é mesmo esta palavra de peso tão forte: Apropriação.</p>
<p>Afinal, por que se apropriar? Quem tem necessidade de se apropriar? Ninguém tem necessidade de se apropriar de sua própria cultura, conclusão pra lá de óbvia, não é mesmo? Logo 'alguém', por alguma razão (que não discuto ainda) só pode querer se apropriar da cultura do 'outro', daquele culturalmente diferente, claro!</p>
<p>'Nós' e os 'outros'. A velha dicotomia. Temos um problema bem controvertido aí, vocês não acham?</p>
<p>Esta mesma questão nos leva à outra: O Registro. Parece óbvio mas vale a pergunta: Por que registrar? Já veiculamos e registramos cultura por intermédio das chamadas linguagens artísticas, melhor entendidas, a grosso modo, como Arte, Mídia, ou seja lá o que for. Parece que, de uma forma ou de outra, o homem sempre encontrou maneiras, muito eficientes e sofisticadas até, de veicular (transmitir, disseminar, etc.) seus pontos de vista, pensamentos, sentimentos, sua cultura enfim. São estas formas de comunicação que acabam cristalizando certos aspectos de uma manifestação cultural, gerando os tais 'registros', imprecisos, geralmente codificados em intrincadas simbologias, esoterismos, etc. (como os da literatura oral, por exemplo) mas que, mesmo no caso das mídias mais modernas, não passarão jamais de 'flash backs', imagens virtuais do que já foi, do que 'já era'.</p>
<p>Neste aspecto do Registro e como argumento preservacionista, a discussão costuma se basear também na comparação entre mídias 'modernas' e 'arcaicas'. A transmissão oral (a memória das pessoas contidas em sua arte) seria a mídia imperfeita, frágil, enquanto que a literatura 'culta', a Internet e suas diversas mídias correlatas seria o processo 'novo' e, por conseqüência, perfeito. Por meio da transmissão oral perderíamos gradualmente o foco, a manifestação se esmaeceria e perderíamos uma peça de nosso 'patrimônio' cultural. Patrimônio? Imaterial? Numa sociedade tão corrupta como o Brasil vale perguntar: Patrimônio Imaterial de quem,“cara pálida”?</p>
<p>O fato é que, ao que parece, não é correto intervir muito nestas coisas, assim como donos da verdade, como um grupo social isoladamente – uma 'elite' portanto -, decidindo que aspectos da cultura de uma sociedade devem e quais não devem ser preservados. Isto é menos correto ainda quando não pertencemos àquele meio cultural específico, ou quando somos de contexto social diferente daquelas pessoas que praticam aquilo que estamos querendo 'preservar'. Aí o perigo é muito grande porque, quando dominamos meios de registro rápidos, modernos, estando diante de culturas cujo principal mídia ainda é a transmissão oral, acabamos nos iludindo e achando que 'copiar' Cultura' é o mesmo que 'fazer' Cultura.</p>
<p>É quando nos arriscamos a entrar no campo da apropriação (copiando a Cultura do 'outro' com estranhos fins) ou, o que é pior, participando da criação de um modelo 'fake' daquela cultura, 'desvirtuando-a' completamente e aí sim contribuindo, decisivamente, para neutralizá-la e destrui-la. Com efeito, a parte crucial – e surprendente- da matéria (extraída do documento oficial do Iphan) é aquela que, a título de melhor justificar a pertinência do pleito, diz o seguinte:</p>
<p>...”As crianças, por exemplo, que durante muito tempo não podiam freqüentar as rodas de jongo, hoje são estimuladas a aprender o canto e a dança de seus ancestrais. E em muitas comunidades, hoje em dia, não é mais necessário ser filho de jongueiro para ser considerado jongueiro. A aproximação de pesquisadores e estudiosos, bem como, mais recentemente, de jovens das camadas médias urbanas, fez com que a participação em uma roda de jongo não seja mais limitada aos membros das comunidades jongueiras. Além disso, algumas comunidades passaram a fazer apresentações artísticas, nas quais as rodas de jongo acontecem sob a forma de espetáculo.”</p>
<p>Este tipo de processo de apropriação, como o se processa agora com o Jongo, com o alegado intuito preservacionista, costuma ser muito comum em países onde a sociedade é muito desigual, muito dividida (como é o caso do Brasil). Aliás o fenômeno anda se tornando por demais ocorrente em grandes centros urbanos, envolvendo outras manifestações tais como o Samba tradicional carioca, o Maracatu e outras manifestações tradicionais, outrora exclusivamente 'populares'. De um lado pessoas com muitas posses e pouca ou nenhuma identidade cultural, engolfadas e, de certo modo, envergonhadas de seu 'verniz' 'estrangeiro'. De outro, pessoas muito pobres mas com uma cultura tradicional, muito original e de grande personalidade, reconhecida academicamente como... Cultura 'Nacional' brasileira.</p>
<p>Acabam uns querendo se apropriar (geralmente com os tais estranhos fins, geralmente pecuniários) da Cultura dos outros.</p>
<p>Afora outros comentários possíveis acerca da pouca relevância dada no texto do Iphan à essencialidade antropológica das tradições expressas pelo suposto passado do Jongo (que justificariam, por exemplo, a participação apenas de iniciados), afinal de contas, como justificar a pertinência do pleito pela transformação de uma manifestação cultural em patrimônio imaterial (um atributo apenas justificável se comprovada sua perenidade e autenticidade) se, ao mesmo tempo se ressalta – ou na verdade quase se propõe - a sua completa descaracterização, o seu 'aviltamento' sociocultural, sua banalização travestida de popularização?</p>
<p>O fato é que não adianta muito gravar um DVD sobre a exótica cultura de pessoas muito diferentes da gente ou tentar convencer estas pessoas a praticar a Cultura que nós, do alto de nossa suposta 'sabedoria acadêmica', achamos que elas devem praticar. No final serão sempre elas, as pessoas, que decidirão. Se quisermos praticar também a cultura que elas praticam, tudo bem, que entremos na dança pois, mas nunca sem antes mergulhar de cabeça no jeito de vida delas, se possível nos transformando nelas também.</p>
<p>Afinal há que se pagar o preço da travessia, perder o 'verniz', 'trocar a pele' (já que, aparentemente, não existe neutralidade em Cultura). O certo é que não dá pra se ter um pé na sala e o outro na cozinha. É melhor procurar, com ética e sinceridade, a nossa turma. Um saião de chita estampada não fará jamais de uma garota de Ipanema uma jongueira ou uma caixeira do Divino.</p>
<p>Há também o recurso natural de se incorporar elementos extraídos da cultura tradicional em nossa cultura pop, relendo, fundindo, criando novos gêneros híbridos, um recurso que sempre gerou excelentes resultados artísticos em nossa música popular ou 'contemporânea'.</p>
<p>O que não se pode, de jeito nenhum, é sub-repticiamente trocar a cultura do 'outro' por uma 'adaptação', de modo a trocar a cópia pelo original (que passa a ser o 'falso', o impuro), ocupando no contexto da cultura tradicional de uma sociedade, o lugar que era do 'outro' , justamente no que diz respeito a auferir algum tipo de benefício, verbas, patrocínios, etc.</p>
<p>Não seria o caso de se debater mais profundamente o assunto, antes que seja tarde demais?</td>
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<title><![CDATA[Mundão Véio sem Porteira]]></title>
<link>http://spiritosanto.wordpress.com/2007/02/17/mundao-veio-sem-porteira/</link>
<pubDate>Sat, 17 Feb 2007 22:48:52 +0000</pubDate>
<dc:creator>spirito</dc:creator>
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Capa do disco com a trilha sonora de `Salutos`, filme de W]]></description>
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<p style="margin:0;"><img src="http://www.overmundo.com.br/_overblog/img/1171262005_brazilposter.jpg" alt="Divulgação / Todos os direitos reservados" class="foto" style="padding:0;" height="315" width="315" /></p>
<p style="width:421px;margin:4px 0 15px;">&#160;</p>
<p style="background:#eeeeee url('../images/images/det_bg_legenda.gif') repeat-y scroll 0 50%;padding:8px 8px 8px 13px;" class="txt11">Capa do disco com a trilha sonora de `Salutos`, filme de Walt Disney.</p>
<p><!-- coluna de conteúdo --></p>
<table cellpadding="0" cellspacing="0" width="421">
<tr>
<td class="txt13"><!-- div texto-->Xenofobia e sexo dos anjos“...obviamente o Overmundo não advoga um nacionalismo retrógrado e isolacionista, nem é contra - por exemplo - debates mais estritamente políticos ou sobre a produção cultural internacional”Hermano Vianna- Observatório do Overmundo - 4/2/2007Começou assim, com esta defesa algo enfática no Overmundo diante de alguma inusitada acusação de xenofobia. A conversa no Observatório do site, ainda restrita a alguns poucos adeptos da discussão, escorregou naturalmente para temas afins entre os quais, a esta altura de uma conversa que promete ser longa, dois se destacam: A já mui citada Xenofobia e o que poderíamos chamar de Xenomania, palavra improvisada para um tema que não ousa dizer seu nome, evitado como uma espécie de tabu e que aparece ainda cifrado na maioria das conversas sobre cultura brasileira: A aculturação.</p>
<p>A conversa no fórum anda bem, mas há sempre o risco de se mergulhar naquela velha discussão de 1922: Tupi or not Tupi? Seria o velho maniqueísmo simplista de sempre, querendo dar as caras? Estaríamos mesmo divididos entre os que são, de um lado, supostamente ingênuos defensores da pureza imaculada do folklore nacional e, de outro, aqueles moderninhos que consideram tudo na cultura brasileira lixo subdesenvolvido, que o Brasil precisa mesmo é de um up grade, um bom banho de civilização primeiro mundista? Menos! Menos! É preciso urgentemente relativizar, rapaziada!</p>
<p>É para ajudar a desarmar esta triste arapuca que mando este meu franco e emocionado post.</p>
<p>Posso começar dizendo que aquele papo antigo de 'união entre três raças tristes', sugerido num dos comentários do fórum, precisa ser definitivamente superado. O que ocorreu aqui, no Brasil, não foi exatamente um congraçamento harmônico e feliz entre índios, africanos, europeus, árabes e outras galeras. Temos agora mesmo no Rio de Janeiro, comunidades inteiras sendo enclausuradas em guetos urbanos, dominados por 'milícias'. Houve na nossa hist