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	<title>analises-politicas &amp;laquo; WordPress.com Tag Feed</title>
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	<description>Feed of posts on WordPress.com tagged "analises-politicas"</description>
	<pubDate>Sun, 06 Jul 2008 12:44:01 +0000</pubDate>

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	<language>en</language>

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<title><![CDATA[Resgate heróico ou negociado?]]></title>
<link>http://framos.wordpress.com/?p=151</link>
<pubDate>Fri, 04 Jul 2008 20:17:03 +0000</pubDate>
<dc:creator>framos</dc:creator>
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<description><![CDATA[Desde o início me soou um pouco estranho esse papo de que um punhado de soldados colombianos se pas]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Desde o início me soou um pouco estranho esse papo de que um punhado de soldados colombianos se passaram por agentes humanitários, pousou no ninho das FARC e levou seus principais reféns, dentre eles a franco-colombiana Ingrid Betancourt. Até que uma <a href="http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15092">rádio suíça</a> levantou a hipótese (fundamentada) de que o resgate, na verdade, foi pago pelo governo colombiano (alguns milhões de dólares). As especulações vão desde a mediação dos governos da Espanha e da França,  às ações de inteligência da CIA e até mesmo as ações de Hugo Chávez. Bem, as dúvidas são muitas, mas o papel da mídia é bem claro: divulgar a versão oficial do heroísmo colombiano.</p>
]]></content:encoded>
</item>
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<title><![CDATA[Resposta ao leitor]]></title>
<link>http://framos.wordpress.com/?p=140</link>
<pubDate>Tue, 17 Jun 2008 22:35:24 +0000</pubDate>
<dc:creator>framos</dc:creator>
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<description><![CDATA[Recebi um e-mail de um leitor deste blog conforme segue abaixo:
&#8220;Caro Felippe,
Na condição d]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Recebi um e-mail de um leitor deste blog conforme segue abaixo:</p>
<p>"Caro Felippe,</p>
<p>Na condição de leitor do seu blog, trago-lhe a seguinte provocação: ao longo dos ultimos anos, a "grande midia" empenhou-se em popularizar expressões relacionadas a escândalos na política nacional. Deste modo temos: mensaleiros e mensalão, valerioduto, apagão aéreo, dilmagate, etc. Os casos trazem em comum a participação de pelo menos um, se não vários, governistas. Não achas estranho que essa mesma mídia ainda não tenha criado expressões para designar os escândalos que ora corroem o governo de Yeda Crusius ou as irregularidades ora descobertas na gestão Mario Covas/Geraldo Alckmin no <a href="http://congressoemfoco.ig.com.br/Noticia.aspx?id=22490">caso Alstom</a>? Seria a imprensa também membro da oposicão?</p>
<p>Cordialmente,<br />
Dário Júnior"</p>
<p>E respondo, prezado Dário, que a partidarização (em sentido amplo) da mídia é clara e não teria como ser de outra forma. A mídia nunca é confiável, a não ser para aqueles que nela confiam. Explico. O <em>bias</em> da mídia é seu pressuposto. Os órgãos de imprensa constroem sua credibilidade com discursos aceitáveis para seu público-alvo e, simultaneamente, tentam fazer prevalecer suas próprias idéias e interesses (ideológicos, mas, sobretudo, econômicos). Assim, por exemplo, eu tendo a dar mais crédito à CartaCapital do que à Veja. Os meios de comunicação de massa, em uma sociedade conservadora (política, social, cultural e moralmente), tendem a veicular o que o seu público espera ver. Finalidade óbvia: manter a fidelidade do telespectador e, assim, os níveis de audiência e os recursos provenientes dos anúncios publicitários. Assim, o grande e primeiro partido da mídia é o lucro. Contudo, a realização deste objetivo (o lucro desmedido) implica a constituição de um campo político composto por diversas forças sociais, no qual a mídia conta com diversos aliados (os setores mais conservadores da sociedade). Contudo, essa aliança conservadora da burguesia não é baseada no consenso e às vezes observamos conflitos intra-elite.</p>
<p>Acontece que a mídia só manterá a eficácia do seu objetivo se sustentar seu discurso legitimador básico: o da imparcialidade. Esse véu discursivo e ideológico é o que faz o consumidor da informação pensar que consome fatos, ao invés de interpretações. Daí que os indivíduos da massa social pensem que não possuem posicionamento político, quando, na verdade, ocupam espaço bem próximo às elites no que concerne aos seus valores (em outras palavras, a hegemonia).</p>
<p>É aí que entra a estratégia atual da grande mídia nacional: a produção do espetáculo político das crises que aparecem e evaporam sem deixar vestígios. Os dossiês ou mensalões são explorados ao máximo enquanto há audiência para eles. Uns chamam mais atenção do que outros, como o dito mensalão, que chegou a desestabilizar o governo. Mas, no fim, em tempos de aceleração do consumo, descartabilidade e obsolescência programada, a audiência cansa. Aí a mídia simplesmente deixa de abordar a questão. Aos casos políticos citados, sempre se pode argumentar que houve "pizza". Mas e no caso do apagão aéreo? Como o caos, a catástrofe e a hecatombe anunciadas se resolveram como passe de mágica, frente à inépcia proclamada do governo? Resposta simples: não havia crise, mas apenas espetáculo. E como canta a banda Los Hermanos, "todo carnaval tem seu fim".</p>
<p>Nesse sentido, a grande mídia não fará o mesmo escarcéu perante seus aliados. Pode até noticiar os acontecimentos para alimentar o discurso da imparcialidade, mas jamais os explorará politicamente, a não ser que seja um dos casos de conflito intra-elite. De qualquer forma, se será difícil ver nos tempos atuais uma edição grotesca dos fatos, como no exemplo do episódio Lula-Collor, a razão é apenas porque os métodos estão mais sofisticados.</p>
<p>É assim que se dá o papel da grande mídia dentro de um contexto capitalista. A solução não é a censura. Mas há alternativas: por um lado, o incremento da consciência crítica e o combate à ingenuidade que faz da população presa fácil do discurso da imparcialidade (tarefa dos movimentos sociais e dos intelectuais progressistas no âmbito da sociedade civil) e, por outro lado, a quebra de monópolios de audiência, o incentivo à TVs públicas e universitárias em canais abertos e maior inclusão digital (tarefas do Estado, pressionado pelos setores progressistas).</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Quase dois irmãos]]></title>
<link>http://framos.wordpress.com/?p=137</link>
<pubDate>Thu, 12 Jun 2008 01:25:33 +0000</pubDate>
<dc:creator>framos</dc:creator>
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<description><![CDATA[Quase dois irmãos é um fantástico filme que eu assisti sem muito compromisso em um fim de semana.]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Quase dois irmãos</a> é um fantástico filme que eu assisti sem muito compromisso em um fim de semana. Trata-se de um filme nacional de 2004 que, pelo menos para mim, passou despercebido em seu lançamento. Não me lembro de ter ouvido um único comentário sequer sobre ele.<br />
.<br />
Eis a sinopse do seu <a href="http://www.taigafilmes.com/quase/o_filme.html">site oficial</a>:<br />
.<br />
Nos anos 70, quando o país vivia sob a ditadura militar, muitos presos políticos foram levados para a Penitenciária da Ilha Grande, na costa do Rio de Janeiro. Da mesma forma como os políticos, assaltantes de bancos também estavam submetidos à Lei de Segurança Nacional. Ambos cumpriam pena na mesma galeria. O encontro entre esses dois mundos é parte importante da história da violência que o País enfrenta hoje. “Quase Dois Irmãos” mostra como essa relação se desenvolveu e o conflito estabelecido entre eles. Entre o conflito e o aprendizado, nasceu o Comando Vermelho, que mais tarde passou a dominar o tráfico de drogas.<br />
.<br />
Através de dois personagens, Miguel, um jovem intelectual de classe média, preso político na Ilha Grand, e hoje deputado federal e Jorge, filho de um sambista que de pequenos assaltos se transformou num dos líderes do Comando Vermelho, o filme tem como pano de fundo a história política do Brasil nos últimos 50 anos, contada também através da música popular, o ponto de ligação entre esses dois mundos. Hoje, começa um novo ciclo: Miguel tem uma filha adolescente, que fascinada pelas favelas e pela transgressão, se envolve com um jovem traficante. [fim de sinopse]<br />
.<br />
<a href="http://framos.files.wordpress.com/2008/06/foto_11.jpg"><img src="http://framos.wordpress.com/files/2008/06/foto_11.jpg?w=300" alt="" width="300" height="200" class="aligncenter size-medium wp-image-142" /></a><br />
.<br />
O ponto do filme que trago para discussão é a atribulada relação entre a classe média engajada (então chamada de pequena burguesia) e a classe popular, o povão, a massa. Adeptos políticos do socialismo revolucionário, um grupo de jovens militantes presos são postos em contato com presos comuns e tentam pôr em prática a teoria marxista da superação da consciência em-si para uma mais elevada, a para-si, ou seja, da alienação para uma consciência da condição de exploração pela burguesia. Assim, na visão desta elite revolucionária (uso propositalmente elite ao invés de vanguarda), era preciso educar a massa, mesmo a delinqüente. Quando os primeiros presos comuns chegam à prisão política, os revolucionários marxistas eram majoritários. Foram abordados pelos comuns: “quem é o xerife dessa porra?”. Ao que responderam: “aqui não tem isso, não; só não pode pederastia e dar um dois (fumar maconha)”. Evidentemente, as regras moralizantes da esquerda ortodoxa eram burladas frequentemente. Com o passar do tempo, a política nacional foi se abrandando e a situação social oriunda da ditadura se agravando, o que reduziu o número de prisões políticas e ampliou o número de prisões comuns (de negros da periferia). O resultado é que a periferia é que passou a mandar no presídio. A cadeia passou a ser igual a qualquer outra, com baseado, homossexualidade, grupos inimigos, privilégios, “xerifes”, violência e linchamentos. Nesse contexto, trava-se a discussão - seria melhor dizer assembléia, conforme o vocabulário da esquerda da época - entre os que são favoráveis à separação entre presos comuns e políticos e os que se mantém firmes na idéia de “educar a massa”. O argumento racional dos defensores da separação é que eles são minoria dentro da prisão e precisam sobreviver para o bem da revolução, uma vez que há poucos revolucionários devido à repressão. Os realistas vencem o debate sobre os idealistas. No entanto, e esta é a grande sacada do filme, a verdadeira razão da separação dos presos em duas alas, a dos comuns, para negros da periferia, e a dos políticos, de classe média, é a própria incompatibilidade entre as duas formas de ser e estar no mundo. O discurso da educação das massas pode ser atraente, mas em condições extremas, como a de um presídio com todas as suas crueldades e adversidades, ele se mostra artificial. Assim, a construção do muro de concreto separando os dois pavilhões é, na verdade, uma metáfora para o muro social que já separava os dois estratos sociais. E a película encerra-se com uma frase de efeito: “um é o mundo que sonhamos, outro é o que vivemos”. </p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[O velho conflito Norte-Sul reloaded: a UNASUL e a IV Frota]]></title>
<link>http://framos.wordpress.com/?p=134</link>
<pubDate>Sun, 01 Jun 2008 00:30:52 +0000</pubDate>
<dc:creator>framos</dc:creator>
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<description><![CDATA[A criação da União Sul-Americana de Nações (UNASUL), com status de organização internacional ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">A criação da União Sul-Americana de Nações (UNASUL), com status de organização internacional e personalidade jurídica de Direito Internacional Público, foi anunciada em Brasília no último dia 23. Isso significa que deverá ser mais do que meros encontros esporádicos de chefes de Estado. Trata-se de uma tentativa de revigorar a Comunidade Sul-Americana de Nações - incapaz de resolver os conflitos da região, como os recentes desentendimentos entre Venezuela e Equador, por um lado, e Colômbia, por outro - através de uma organização permanente que consiga ampliar diálogos, intercâmbios e políticas multilaterais em diversas áreas. A idéia é de, para além da integração regional, tentar resolver os conflitos sem ter necessariamente de recorrer à Organização dos Estados Americanos (OEA), hegemonizada pelos Estados Unidos.</p>
<p style="text-align:justify;">A potência do norte, obviamente, não gostou da idéia e tratou de concertar a estratégia de criação de dificuldades à iniciativa através de seu incondicional aliado colombiano, o presidente Álvaro Uribe. Este não pôde rejeitar pura e simplesmente a participação colombiana na organização, pois tal movimento aumentaria seu isolamento regional, na contramão da tendência mundial de fortalecimento das iniciativas de integração. O argumento para a reclamação de Uribe, no entanto, foi a idéia do presidente Lula da constituição de um Conselho de Ministros da Defesa da América do Sul. A iniciativa foi apelidada por alguns órgãos de imprensa, de modo infeliz, de OTAN do Sul. Infeliz porque não se trata de uma organização com efetivos militares ou verbas próprias, mas apenas de uma tentativa política, mais do que militar, de criar convergências nos processos de segurança subcontinental. Uribe, orientado por Washington, pulou fora. Argumentou que, antes de qualquer coisa, as FARC precisam ser reconhecidas enquanto grupo terrorista. Mas, na verdade, o presidente colombiano, não tinha muitas alternativas, se considerarmos o histórico do seu projeto político. Sua política de governo tem se transmutado em política de Estado e, desse modo, sinaliza que enquanto a Colômbia conviver com as FARC dominando cerca de 40% de seu território restará ao governo direitista ações que lembram a situação do conflito Israel-Palestina. Nesse contexto, faz sentido a tentativa de Hugo Chávez de transformar as FARC em grupo político desarmado (no médio prazo). Sua leitura é de que a situação política na América Latina favorece as iniciativas de governos populares e que, caso haja um desfecho democrático para as FARC, o império americano perderá seu grande álibi para incursões militares na região. Daí os diálogos entre Chávez e Raúl Reyes para a libertação paulatina de reféns da guerrilha colombiana. Esse projeto, na visão estratégica colombiana e estadunidense, precisava ser abortado. E a Colômbia, com ajuda da inteligência norte-americana, cumpriu o intento: assassinou o número dois das FARC em território equatoriano, o que gerou a recente crise, amplamente divulgada pela mídia nacional e internacional.</p>
<p style="text-align:justify;">Assim, a tendência é que o Conselho de Defesa surja sem a Colômbia que, na verdade, era um dos principais objetivos da iniciativa. Tal situação gerou um mal-estar que desembocou na recusa, pela Colômbia, da oferta da primeira presidência rotativa da UNASUL. Não pegaria bem um país que, no presente contexto de guinada à esquerda da América do Sul, apresenta desconfianças às iniciativas de integração sul-americana à frente da organização.</p>
<p style="text-align:justify;">Em meio a esta confusão, os Estados Unidos não ficaram parados. Pelo contrário, o presidente George W. Bush e a secretária de Estado Condoleezza Rice anunciaram a reativação da IV Frota. Trata-se de um comando militar para a América do Sul, principalmente a partir da Marinha, criado durante a II Guerra Mundial para abater navios e submarinos alemães que vinham sistematicamente atacando embarcações mercantes dos países aliados aos EUA no Cone Sul. A IV Frota havia sido extinta no início da década de 50 do século passado. O Departamento de Estado justificou a iniciativa: “trata-se de uma demonstração do compromisso dos Estados Unidos com seus aliados na região”. Mas a coincidência com o lançamento da UNASUL dá o que pensar.</p>
<p style="text-align:justify;">Por fim, há outra coincidência: as manobras do porta-aviões norte-americano George Washington em águas brasileiras e argentinas desde o fim do mês passado para uma operação de treinamento militar conjunto. A esta altura, o presidente Lula já vinha conversando com Hugo Chávez sobre a criação do Conselho de Defesa. Mas, a um só tempo querendo demonstrar liderança e ansioso por provar que não adere ao radicalismo chavista, o governo brasileiro optou por morder e assoprar. Assim, adere à UNASUL e propõe o Conselho de Defesa, contudo, simultaneamente, demonstrando proximidade com os Estados Unidos. Por sua vez, Hugo Chávez afirmou, em seu tom característico, que o porta-aviões não lhe assusta.</p>
<p style="text-align:justify;">Este é o grande dilema da integração sul-americana: a Colômbia, às voltas com as FARC, adere ao projeto de segurança dos Estados Unidos através do Plano Colômbia; os países mais importantes, Brasil e Argentina, evitam radicalismos e tentam retomar o protagonismo político dos governos mais à esquerda, dialogando com o império e com os contra-hegemônicos; e, por fim, o radicalismo dos governos populares dos países mais atrasados (Venezuela, Equador, Bolívia). Com que agulha se poderá costurar essa colcha de retalhos?</p>
<p style="text-align:justify;">Uma coisa é certa: com o fim do conflito Leste-Oeste da Guerra Fria, parece que o conflito Norte-Sul, aventado pelos teóricos da dependência, ganha novo destaque por estas paragens tropicais.</p>
<p style="text-align:justify;">
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[De onde veio 68?]]></title>
<link>http://framos.wordpress.com/?p=132</link>
<pubDate>Wed, 28 May 2008 20:03:55 +0000</pubDate>
<dc:creator>framos</dc:creator>
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<description><![CDATA[O mês de maio está chegando ao fim e eu não poderia me furtar de abordar os 40 anos do Maio de 68]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">O mês de maio está chegando ao fim e eu não poderia me furtar de abordar os 40 anos do Maio de 68. Não o fiz antes por diversos motivos, um dos quais foi justamente meu envolvimento na organização do evento "Maio de 68: dos 40 anos do levante juvenil às leituras do mundo contemporâneo", realizado de 6 a 14 deste mês na Escola de Administração da UFBA. O que se segue é a sistematização de uma pequena parte das minhas idéias, expostas durante minha conferência no evento. Em breve, a <a href="http://www.tv.ufba.br/">TV UFBA</a> disponibilizará os vídeos. <a href="http://www.cadernosnpga.ufba.br/viewarticle.php?id=109&#38;layout=abstract">Como sempre</a>, privilegiei um olhar que congrega a história e a sociologia política, buscando, mais do que entender o passado, entender o presente levando o passado em consideração.</p>
<p style="text-align:justify;">Para a economista Maria da Conceição Tavares, o mundo contemporâneo vive uma transição da geopolítica à geoeconomia, ou seja, os imperativos últimos da ordem mundial não são mais balizados por decisões políticas, ideológicas e/ou estratégicas dos gestores do Estado, mas, sim, pelos constrangimentos "técnicos" e "neutros" do mercado financeiro globalizado. Daí o que eu chamo de transição da Economia Política à política econômica. A primeira formulação ficou famosa nos escritos de Karl Marx, que estava preocupado em demonstrar a influência decisiva da materialidade da vida social, ou seja, a esfera econômica, na estrutura social e na vida das pessoas comuns - a classe trabalhadora. Assim, qualquer decisão econômica seria, na verdade, uma decisão política. No período de vigência da bipolaridade da Guerra Fria (1947-1991), a Economia Política fez por merecer as letras maiúsculas. Lembremos o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Plano_Marshall">Plano Marshall</a>: haveria algo mais absurdo para a ótica monetarista do neoliberalismo atual do que dar dinheiro a fundos perdidos para países se reconstruírem? A decisão política do <a href="http://www.vivercidades.org.br/publique222/media/oTerrorismo_TioSam.jpg">Tio Sam</a> remou contra a lógica da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Economia_neocl%C3%A1ssica">Economia neoclássica</a> - e o mais impressionante: foi um sucesso! Hoje, predomina a política econômica (com letras minúsculas mesmo): superávit primário, taxas de juros, especulação financeira etc etc etc. Mas que ninguém duvide que esta minusculização da política seja uma decisão política!</p>
<p style="text-align:justify;">Assim, podemos dizer que a década de 60 do século XX, de onde saiu o tal ano de 68, foi parte da hiperpolitização da estrutura social, o que não implica necessariamente atores (indivíduos reais como você e eu) politizados e totalmente conscientes do que se passava ao seu redor, ou melhor, acima de suas cabeças de reles mortais. Imaginem os noticiários da época: Estados Unidos contra União Soviética ou, ainda, Capitalismo contra Socialismo. Que duelos de Titãs! O povão ficava lá embaixo, sem saber direito o que eles tinham a ver com tudo isso. Assim, joguemos fora a ilusão de que todo mundo na década de 60 (notadamente os jovens) ou eram marxistas ou hippies. Na verdade, os jovens politizados, até 1968, eram apenas uma parcela vanguardista dos estudantes, numericamente pequena, mas extremamente barulhenta e, portanto, visível. Até aquele ano fatídico, jovem era só o estudante e vice versa. A partir de 68 ficará claro até os dias atuais que jovem também pode ser o negro, a mulher, o gay, a ambientalista etc etc etc.</p>
<p style="text-align:justify;">68 testemunhou a irrupção de diversas manifestações de protesto ao redor do mundo ocidental - do Norte desenvolvido ao Sul subdesenvolvido. Primeiro, porque o capitalismo estava atravessando mudanças econômicas e sociais importantes, com o crescimento econômico (seja do Estado de Bem-Estar, no Norte, ou do Estado nacional-desenvolvimentista, no Sul, não raro, sob ditaduras) e o baby boom (a explosão demográfica do pós-guerra, que ampliou a percentagem de jovens na população na década de 60, tendo consequências diretas nos campos da cultura, da educação e do lazer). Segundo, porque, enquanto isso, o socialismo, política e economicamente, se desiludia consigo mesmo. Dessa forma, 68 nasce das condições estruturais do mundo ocidental e transmuta-se onde quer que irrompa. 68 é a luta estudantil e sindical (separadas) na França, o assassinato de Martin Luther King Jr., as lutas pacifistas contra a Guerra do Vietnã e a queima de sutiãs nos Estados Unidos, o massacre de Tlatelolco (estudantes em protesto) no México às vésperas das Olimpíadas, a breve Primavera de Praga (tentativa pelo próprio Partido Comunista local de humanizar o socialismo na Tchecoslováquia) e seu esmagamento pelos tanques soviéticos e do Pacto de Varsóvia etc etc etc. No Brasil, 68 testemunhou o assassinato do secundarista Edson Luís, a passeata dos cem mil contra os militares, a tentativa do Congresso da UNE em Ibiúna, onde cerca de mil líderes estudantis foram presos e, por fim, a vitória reacionária com a edição do AI-5 em 13 de dezembro.</p>
<p style="text-align:justify;">Assim, onde quer que surgisse algo neste ano tão simbólico, surgia com suas especificidades. A unificação se dava no único sentido de que todas estas manifestações eram um grande grito contra a opressão econômica, social, étnica, de minorias, sexual e até mesmo existencial. 68 é um ponto significante dentro de uma linha: há ensaios com a mobilização social das lutas de descolonização, com o ponto alto da Argélia, bem como há desdobramentos em Woodstock (1969), dentre tantos outros exemplos que poderíamos aqui listar. Podemos dizer, concluindo, que 68 começou bem antes, no início da década de 60, e terminou bem depois. Há ainda quem diga que <a href="http://www.livrarialoyola.com.br/images/produtos/8520918581.jpg">ele não terminou</a>.</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Advogado do Diabo: há exageros de parte à parte  ]]></title>
<link>http://framos.wordpress.com/?p=123</link>
<pubDate>Mon, 05 May 2008 15:47:44 +0000</pubDate>
<dc:creator>framos</dc:creator>
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<description><![CDATA[O professor Antonio Natalino Dantas, que afirmou que baiano tem QI baixo, renunciou ao cargo de coor]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">O professor Antonio Natalino Dantas, que afirmou que <a href="http://noticias.terra.com.br/educacao/interna/0,,OI2858408-EI8266,00.html">baiano tem QI baixo</a>, renunciou ao cargo de coordenador do colegiado do curso de Medicina da UFBA, lançando <a href="http://www.atarde.com.br/cidades/noticia.jsf?id=878339">nota pública</a> na qual se diz envergonhado, arrependido e mal-interpretado.  Os movimentos sociais e mesmo manifestações individuais foram fulminantes. Exigem a expulsão, execração, enxotamento etc do professor. Natalino foi estúpido, conforme já opinei <a href="http://framos.wordpress.com/2008/05/01/baiano-tem-qi-baixo-segundo-professor-da-ufba/">aqui</a>. Mas foi linchado pela mídia local e mesmo nacional, autuado pelo Ministério Público, renunciou ao cargo de coordenador, sofreu <a href="http://www.portal.ufba.br/ufbaempauta/2008/05maio/quinta01/notapublica">adverências oficiais da UFBA e da Faculdade de Medicina</a> e lançou uma carta na qual a vergonha é a tônica. Ademais os movimentos sociais já mostraram sua cara e deram seu recado. O que mais se pode exigir? O esquartejamento e a exibição em postes das partes do seu corpo? Deixemos - fiscalizando, é claro - a Justiça averiguar se medidas penais ou cíveis são cabíveis.</p>
<p style="text-align:justify;">Na democracia, mesmo que formal, como a brasileira, os cidadãos têm o direito à livre expressão. Como afirmou o ministro do STF Carlos Ayres de Britto, a liberdade de expressão é a maior expressão da liberdade. Mas quando os indivíduos ou grupos ultrapassam os limites do bom senso no usufruto desse direito e caem no preconceito/racismo a democracia tem que punir. Mas punição desmedida, nos ensinou o pensador francês Michel Foucault, só serve para alimentar a barbárie. Uma punição proporcional serve não apenas apenas para punir o infrator, mas sobretudo para educar os demais cidadãos através do exemplo.</p>
<p style="text-align:justify;">O desastre da Revolução Cultural na China já demonstrou que justiça sumária nas supostas mãos "do povo" leva à injustiça e ao abuso. Temos que equilibrar a ação institucional com a ação social. Os movimentos sociais devem, desse modo, medir palavras e ações na execução de sua justíssima luta. E focar no X da questão, que não é o comportamento ou a fala de um indivíduo isolado, mas o arraigado e atávico preconceito numa sociedade dita bastião da "democracia racial", do qual o comportamento do professor é apenas um dos muitos exemplos, mas que tomou eco por seu portador ser uma figura pública. A questão, contudo, é estrutural e os movimentos sociais devem aproveitar a oportunidade para educar a sociedade e não para saciar uma recôndita sede de sangue. O grande problema é a reprodução do pensameto (e ação) racista/preconceituoso no mundo da vida cotidiana, reproduzindo, dessa forma, de modo imperceptível ou silencioso a estrutura excludente da nossa sociedade. O sangue derramado de um bode expiatório sacia a indignação acumulada e reprimida, mas não resolve o problema. Ademais, bodes expiatórios são ótimos para a elite: vão-se os anéis, mas os dedos ficam intactos.</p>
<p style="text-align:justify;">Para continuar na polêmica, a realidade é como o <a href="http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI2858117-EI6594,00.html">berimbau</a>: aparenta ser simples, mas ultrapassa todos os maniqueísmos e demonstra, em um nível mais profundo, sua complexidade.</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Dia do Trabalhador ou dia de trabalho?]]></title>
<link>http://framos.wordpress.com/?p=121</link>
<pubDate>Thu, 01 May 2008 19:20:17 +0000</pubDate>
<dc:creator>framos</dc:creator>
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<description><![CDATA[A prostituição da CUT já é evidente. Sua relação simbiótica com o governo Lula levou este à ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">A prostituição da CUT já é evidente. Sua relação simbiótica com o governo Lula levou este à nomear Ministro do Trabalho um presidente da Central. Não é questão de "se hay gobierno, soy contra", mas é que as ações do governo Lula na área do trabalho são pautadas por divergências entre os interesses dos trabalhadores e os dos patrões. O mínimo que se espera de uma Central com a história da CUT é a defesa intransigente de sua classe, e não a conciliação em defesa do governo. É claro que o mundo mudou e não estamos mais na época moderna da centralidade do trabalho, mas na era pós-moderna de centralidade do consumo. Isso implica enfraquecimento das mobilizações classistas e trabalhistas. Mas ainda se pode ver Workers' Day (ou Labor Day) combativo ao redor do mundo. No <a href="http://www.cut.org.br/site/start.cut?infoid=17567&#38;sid=6">Brasil</a> e na <a href="http://www.cutbahia.org.br/conteudo.php?ID=191">Bahia</a>, a CUT transformou um <a href="http://www.culturabrasil.pro.br/diadotrabalho.htm">dia de combate</a> em um dia de espetáculo - festas que entretém e não lutas que ampliam ou garantem direitos e educam os cidadãos. Venceu o modelo pelego criado pela <a href="http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u323417.shtml">Força Sindical</a>.</p>
<p style="text-align:justify;">Enquanto a CUT de luta dorme um sono profundo, os trabalhadores estão bem acordados, trabalhando domingos e feriados, até mesmo no dia que antigamente era o seu dia.</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[A Marcha da Maconha e os direitos democráticos]]></title>
<link>http://framos.wordpress.com/?p=118</link>
<pubDate>Thu, 01 May 2008 18:27:55 +0000</pubDate>
<dc:creator>framos</dc:creator>
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<description><![CDATA[Impressionou-me a decisão judicial, amplamente coberta pela mídia local, a pedido do Ministério P]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Impressionou-me a decisão judicial, amplamente coberta pela <a href="http://www.atarde.com.br/cidades/noticia.jsf?id=875425">mídia local</a>, a pedido do Ministério Público, de proibir a realização da <a href="http://www.marchadamaconha.org/blog/">Marcha da Maconha</a> em Salvador. A dita marcha acontecerá em 235 cidades do mundo no mesmo dia, domingo, 04/05. Cada comitê local de organização atua dentro das leis do país no qual se encontra, pois o objetivo da marcha não é criar tumultos com o Poder, mas levantar uma discussão escamoteada pela sociedade e pelos três poderes, fugindo do senso comum e do preconceito. Para se ter idéia, os organizadores redigiram um manual de como se portar durante a marcha, proibindo a presença de menores e o porte ou uso da erva durante a caminhada. O evento poderia se transformar numa celebração da democracia, mas se transformou no desmascaramento da democracia legalista e a-histórica. A democracia deve ser entendida não apenas como direitos já garantidos, mas, como na concepção do pensador italiano Norberto Bobbio, no direito de ter direitos, o que abre-a para a luta dos atores sociais e uma a concepção dinâmica ao invés de estática. A ordem democrática se diferencia da ordem autoritária justamente porque permite um espaço para a ordem ir além da ordem, incluindo novos atores, garantindo novos direitos, excluindo antigos deveres, enfim, modificando a estrutura legal a partir de novas estruturas normativas socialmente compartilhadas. Enquanto a ordem autoritária implica conservação, a ordem democrática deve implicar a possibilidade da mudança.</p>
<p style="text-align:justify;">Dezenas de publicações nacionais, como a Superinteressante, por exemplo, já trouxeram a questão da legalização do uso da maconha e sabe-se que há milhares de usuários no Brasil. Ora, mais do que repressão bruta, o Estado e a ordem social a partir da modernidade são feitas com persuasão e hegemonia. A democracia deve ser um campo onde todos podem levantar questões, quaisquer que sejam. Ainda mais quando a questão se torna candente na sociedade.</p>
<p style="text-align:justify;">Ademais, o argumento do Ministério Público é infeliz: "pode haver traficantes por trás da organização da marcha". Ora, traficante quer legalizar as drogas desde quando? Ademais, há dezenas de figuras públicas na organização, como o antropólogo e professor Doutor da UFBA, <a href="http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4783157Y3">Edward MacRae.</a> A UFBA, aliás, tem sediado dezenas de <a href="http://www.maconhanaroda.blogspot.com/">eventos</a> democráticos, não apologéticos, sobre o tema.</p>
<p style="text-align:justify;">Bem, esperaremos ainda um bom tempo pelo amadurecimento da democracia provinciana de Salvador. Só lembrando que, em São Paulo, um juiz rejeitou ação semelhante do Ministério Público.</p>
<p style="text-align:justify;">E com este post, eu também posso entrar na lista dos investigados da Justiça (sic) baiana. Isso se não for obrigado a tirá-lo da rede.</p>
<p style="text-align:justify;">Canto como canta o Chico Buarque com o Miltom Nascimento: "pai, afasta de mim esse cálice (cale-se)".</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Rompendo o silêncio]]></title>
<link>http://framos.wordpress.com/?p=116</link>
<pubDate>Tue, 29 Apr 2008 20:33:15 +0000</pubDate>
<dc:creator>framos</dc:creator>
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<description><![CDATA[Claro que eu tinha que falar sobre o caso Isabela. A pauta dos assuntos a serem discutidos no espaç]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Claro que eu tinha que falar sobre o caso Isabela. A pauta dos assuntos a serem discutidos no espaço público é determinada pelo jogo midiático. No entanto, meu silêncio, quebrado por este post, não foi por acaso. Recusei-me o quanto pude a fazer parte deste espetáculo (e não falo do debordiano, mas do circense mesmo). Isso porque tocar no assunto é lhe fazer eco. Agora entendo bem a postura de Marilena Chauí, que recusou-se à falar com a mídia. É a única forma de estar fora do seu alcance. Criticá-la é reconhecer seu poder inelutável. Ademais, como disse em post anterior, já não existem ouvidos para escutar os outsiders. Ou há, na verdade. Mas são ouvidos já mercantlizados. Os próprios outsiders já são insiders.</p>
<p style="text-align:justify;">Navegando na internet, como estou agora, encontrei a opinião do jornalista, professor e ex-deputado <a href="http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&#38;a2=5&#38;i=801">Emiliano José</a>. Concordei com o essencial. Discordei apenas quando ele afirma:</p>
<p style="text-align:justify;"><em>O que interessa é aquela criança morta – branca, de classe média. “Que pauta!” – gritará logo o chefe de reportagem. “Vamos colocar todo o reportariado em cima da menina morta”. “Vamos fungar no cangote deles!” “E seguiremos até quando sobrar fôlego, e quanto mais demorar para chegar a conclusões mais definitivas, tanto melhor”.</em></p>
<p style="text-align:justify;">Na verdade, caro Emiliano, o espetáculo não pode ser encenado indefinidamente. Ele precisa se renovar constantemente, seguindo a mesma lógica da descartabilidade e da obsolescência programada das mercadorias da nossa sociedade de consumo. As pessoas cansam, ficam com enfado. A menina Isabela já deu o que tinha de dar para a mídia. Daí a culpa decretada não pelo juiz, mas pela imprensa. Porque a novela tem que ser encerrada em grande estilo, com um final arrebatador, para que o espectador pense que valeu a pena o valor do ingresso - sua consciência cedida aos "formadores de opinião". O ritmo da Justiça é outro, ainda mais na lentidão da burocracia brasileira. O ritmo da mercadoria e das trocas mercantis sob o capitalismo é sempre alucinante. Atualmente, contudo, a mercadoria somos nós mesmos. No caso da mídia, somos tomados no varejo. Foi a vez de Isabela.</p>
<p style="text-align:justify;">Fica uma certeza. A de que não veremos tão cedo a vez de meninos e meninas pobres - não raro, negros - maltratados todos os dias pelo imenso Brasil encontrarem o mesmo tratamento pela mídia. Estes, mais do que os contraculturais, são outsiders. Das benesses do sistema, deixemos claro. Afinal, eles são grande parte do público de massa que assiste a todo o espetáculo lá da fileira Z.</p>
]]></content:encoded>
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<item>
<title><![CDATA[A pesquisa do professor se transformou na lixeira do reitor!]]></title>
<link>http://framos.wordpress.com/?p=92</link>
<pubDate>Tue, 08 Apr 2008 11:14:07 +0000</pubDate>
<dc:creator>framos</dc:creator>
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<description><![CDATA[O título do post é uma das muitas palavras de ordem usadas pelo movimento estudantil na ocupação]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">O título do post é uma das muitas palavras de ordem usadas pelo movimento estudantil na ocupação da Reitoria da Unb. (Palavras de ordem: rimas curtas e de teor político usadas para a mobilização. Exemplo: "Um, dois, três! Quatro, cinco, mil! Aqui está presente o movimento estudantil!")</p>
<p style="text-align:justify;">Não raro, movidos por partidos políticos nanicos que pensam estar no auge da Revolução Russa, os movimentos de ocupação têm pautas distantes e sectárias, como "extinção do Reuni". Mas não é esse absolutamente o caso. A pauta é real e bem próxima do cotidiano. O reitor torrou cerca de 470 mil reais (dados do Ministério Público do DF) na reforma de sua residência oficial - comprou-se até lixeiras de mil reais -, ao que retruca eufemizando: "foram menos de 350 mil!". Enquanto isso, como grande parte das universidades públicas, as condições de ensino e pesquisa são precárias e não se vislumbra no horizonte movimento semelhante de derrame  tão generoso de divisas.  Motivo?  Faltam verbas!  Daí o acerto da palavra de ordem: "a pesquisa do professor se transformou na lixeira do reitor!". Com todos os equívocos que sempre rondam o movimento estudantil, podemos dizer que este tem um bom motivo de indignação ética e luta política. Espero que não se deixe contaminar por bandeiras exógenas, tal como fortalecimento da Conlute ou sei lá o quê. Eu sei que vocês não sabem o que é Conlute e, creiam, isso é positivo. O que importa é que continuem sem saber, para a saúde mental de vocês.</p>
<p style="text-align:justify;">No mais, a ocupação está igual às outras: Polícia Federal ameaçando, pedido de reintegração de posse, barracas, sexo, vinho, violão, "teatro popular", corte de água, internet e telefone, visita de políticos (no caso, Cristóvam Buarque, senador). Inesperado foi o apoio do Marcelo Tas, no ar, em <a href="http://marcelotas.blog.uol.com.br/">CQC</a>.</p>
<p style="text-align:justify;">Bem, espero que Timothy Mulholland saia logo. Não pelo bem do movimento estudantil. Mas pelo meu. É que não pretendo escrever sobre isso de novo. Lixeiras de mil reais e ocupação de reitoria são realmente um porre!</p>
<p style="text-align:justify;"><em>UPDATE</em>: O Ministério Público do DF acaba de dar razão aos estudantes ocupantes e pediu o afastamento do Reitor do cargo, acusando-o de ter usado indevidamente parte da verba destinada à pesquisa na reforma do apartamento oficial, ou seja, improbidade administrativa.</p>
<p style="text-align:justify;">
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Contra a ditadura da fé insuficiente]]></title>
<link>http://framos.wordpress.com/?p=71</link>
<pubDate>Sat, 22 Mar 2008 14:02:13 +0000</pubDate>
<dc:creator>framos</dc:creator>
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<description><![CDATA[Desde o século XIX, Nietzsche dizia que Deus morreu. Porém, desde Jesus Cristo conhecemos a capaci]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div align="justify">Desde o século XIX, Nietzsche dizia que Deus morreu. Porém, desde Jesus Cristo conhecemos a capacidade de ressurreição dos entes divinos. Assim, a pós-modernidade assiste ao retorno apoteótico da religião, após amplo combate a esta por parte das forças burguesas (liberais) e proletárias (socialistas) da modernidade iluminista - todos conhecem a formulação de Karl Marx, segundo a qual a religião é o "ópio do povo".</div>
<div align="justify"> .</div>
<div align="justify">Contudo, se a Igreja Católica representa um pé no passado feudal devido a seus dogmas e ritos, as igrejas protestantes, por sua vez, têm os dois pés no presente. Também é famosa a construção teórica de Max Weber, segundo a qual a ética protestante contribuiu de forma decisiva para a conformação do espírito capitalista, devido a sua defesa do livre-arbítrio, do lucro e da acumulação, bem como da possibilidade adaptativa devido à descentralização. Tal capacidade de adaptação é tão forte que chegou-se a criar uma denominação protestante de Estado: a Igreja Anglicana, na Inglaterra. Assim, as denominações protestantes são forças do <i>status quo,</i> e, devido a isso, bem aceitas nos centros do capitalismo mundial, vide o exemplo dos Estados Unidos da América. Ademais, o neoconservadorismo neoliberal convive bem com as teses protestantes, em um amplo pacto conservador no mundo atual. Trata-se de um pacto utilitário, no mais das vezes, que visa manter a hegemonia das forças de mercado no mundo. Os ateus e agnósticos acabaram tendendo perigosamente à esquerda do espectro político, segundo as análises conservadoras.</div>
<div align="justify"> .</div>
<div align="justify">A ditadura da razão foi a marca da modernidade (e mais, do processo de modernização). O iluminismo e seu ápice, o positivismo, tentaram matar Deus através da ciência. Hoje, contudo, é a ditadura da fé que luta para ser a marca da pós-modernidade. Ressurgem as religiões e não só as ocidentais. Há uma corrida ao orientalismo, ao budismo, <i>hare krishna, </i>etc. O espiritismo cresce. Por sua vez, a Igreja Católica oscila entre tentativas de reforma que a aproximem do imaginário contemporâneo e ofensivas retrógradas que a mantenha coesa e fiel à sua tradição. Mas o fenômeno maior, sem dúvida, é a expansão das religiões de mercado, como as chama o meu bom professor Gey Espinheira. Mais do que nunca ocorre a simbiose, apontada por Weber, entre mercado e fé, gerando o lucrativo mercado da fé. Nem preciso falar em Edir Macedo e nos bispos da Renascer.</div>
<div align="justify"> .</div>
<div align="justify">Assim, as denominações protestantes, mesmo as não-pentecostais, como a Batista, embarcam na onda e lucram horrores com a novo pacto. O melhor exemplo, contudo, na minha opinião, não é o sensacionalismo barato da Igreja Universal <strike>do Reino de Deus</strike>, mas o complexo padrão apresentado pelo pastor da Assembléia de Deus, Silas Malafaia.</div>
<div align="center">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">
<div style="text-align:center;"><img src="http://framos.wordpress.com/files/2008/03/silasmalafaia.jpg" alt="silasmalafaia.jpg" /></div>
<div align="center">
<pre>O pastor da ciência divina</pre>
</div>
</div>
<div align="center"> .</div>
<div align="justify">Na parte mercadológica, não há muita inovação. Em intervalos de suas pregações mostra diversos produtos cristãos de sua autoria e recomenda-os aos seus fiéis em troca da benção divina. "Só 10 x de R$15,90 e Deus vai te abençoar muito!".</div>
<div align="justify"> .</div>
<div align="justify"> O que inova é a forma como Malafaia tenta justificar cientificamente a fé. Ele rompe assim: 1) com o "padrão Igreja Universal" de buscar adeptos nas classes mais baixas e menos escolarizadas da população através de mensagem chocantes e diretas e coloca em seu lugar uma sedutora conciliação entre fé e razão que amplia sua pregação para setores escolarizados; 2) com a dicotomia entre fé e razão, típica da modernidade. Assim, sabiamente, Malafaia contorna os perigos que a expansão do ensino universitário sempre significou para a fé cristã. Claro que ele não é tão inteligente a ponto de criar a estratégia; apenas a importou dos Estados Unidos da América. Seu mérito está na competência da importação bem-sucedida. Lá na potência do norte, o poder da "ciência divina" é tão forte que já conseguiu substituir, ou ao menos conciliar, em alguns condados, o ensino da "teoria criacionista" com a teoria da evolução.</div>
<div align="justify"> .</div>
<div align="justify">Obviamente, contudo, a religião necessita de pressupostos metafísicos para legitimar-se interna e externamente. Esses pressupostos são eivados de consequências para o mundo civil e político. Assim, a sangrenta conquista moderna da laicização do Estado é atacada na pós-modernidade. Mas a discussão não é posta desta forma clara e unívoca. Ela é apresentada como conciliação democrática entre as duas ciências, a divina e a acadêmica, e não como substituição da ciência pelo dogma. Assim, Malafaia substitui o "acredito em Deus pela fé" por "acredito em Deus porque pode ser cientificamente provado a sua existência". Essa suposta prova científica o leva a meter o bedelho em diversos assuntos políticos. Nada de errado, uma vez que ele detém os direitos de cidadania como qualquer brasileiro, não fosse o uso eticamente indevido de autoridade para manipular opiniões e influenciar a vida pública.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify">Vamos aos exemplos. Todos eles retirados da pregação de hoje do famoso pastor "cientista" em um canal de televisão. Percebam as consequências políticas do discurso.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify">Exemplo 1. Malafaia afirmou que a mulher deve ser submissa ao marido. Usou um versículo bíblico - argumento religioso - e depois citou estatísticas - argumento científico - para provar que a insubmissão da mulher é um dos principais fatores da suposta desintegração familiar contemporânea. Não reparou ele que o contraditório é marca da boa ciência. A professora Maria Gabriela Hita, por exemplo, sustenta que a família atravessa metamorfoses que a adequam ao contexto atual. Assim, não seria necessariamente uma desintegração - termo que demonstra uma defesa ideológica do padrão familiar que vem sendo substituído. Ademais, desconsidera também ideologicamente as conquistas sociais alcançadas pelas mulheres para o alcance da igual dignidade em relação aos homens.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify">Exemplo 2. Malafaia condenou a rebelião às autoridades instituídas. A defesa do <i>status quo</i> é evidente. Isso em um país desigual e injusto como o nosso. E lembremos que rebelião não é apenas coisa de comunista. O próprio pai do liberalismo, John Locke, defendia a rebelião quando a ordem social e política se demonstrasse tirânica.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify">Exemplo 3. Para Malafaia, a teoria da criação deve ser igualmente ensinada em todas as escolas. O argumento é "científico": a teoria da evolução tem caráter especulativo. Como, para o pastor neopositivista, ciência é sinônimo de prova empírica, então a teoria da evolução é tão teoria quanto a da criação. Ambas apenas afirmam sem ter como provar. Desconhece Malafaia, que ciência, mais que prova, é método. E na ausência da primeira, deve-se usar o segundo para, processual e dedutivamente, se chegar a noções mais verossímeis da realidade. Ao contrário da teoria da criação, que tem como ponto de partida o que deveria ser ponto de chegada: a conclusão lógica de que Deus criou o mundo.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify">Exemplo 4. Malafaia, para sustentar o criacionismo, disse que a Terra está localizada no único ponto do sistema solar que poderia abrigar a vida - argumento científico. Assim, a Lua está a trezentos e tantos mil quilômetros de distância da Terra. Se estivesse a oitenta, as marés inundariam os continentes. Daí concluiu que existe uma inteligência cósmica, ou seja, Deus. Não explicou, contudo, que a distância se deve à repulsa e atração simultâneas que os corpos celestes exercem entre si devido às forças gravitacionais. Como acontece com dois ímãs. Assim, tal distância pode muito bem ser fruto do acaso cósmico.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify">Exemplo 5. Aqui a intervenção na área laica foi mais direta. Malafaia tentou demonstrar que a vida tem início no ato do encontro do espermatozóide com o óvulo para pregar contra a liberação de pesquisas científicas com embriões adultos inviáveis. Esta questão encontra-se em julgamento no Supremo Tribunal Federal. Tal intervenção é duplamente danosa. Primeiro, porque reveste de ciência o que deveria ser colocado como opinião fundada na fé - a qual o indivíduo tem todo o direito de abraçar. Segundo, porque visa ter alcance <i>erga omnes, </i>ou seja, aplicável a todos os cidadãos, concordem ou não. Ora, isso fere a liberdade básica dos indivíduos. Ninguém está dizendo que os deficientes físicos evangélicos devem ser tratados obrigatoriamente com os avanços das pesquisas em embriões. Eles que permaneçam deficientes! O que se está querendo fazer é criar a possibilidade de escolha para os deficientes que querem o tratamento. Aliás, a escolha não seria mais condizente com o livre-arbítrio cristão?</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify">Exemplo 6. Para finalizar o programa, Malafaia não podia deixar de apresentar sua mercadoria. Mas desta vez não se tratava de um livro sobre a fé de Jó ou coisa parecida. A mercadoria era o "Manual de Defesa da Fé", uma obra "acadêmica e apologética", como defendeu o pastor, para que os crentes não fiquem embaraçados com os ataques que a ciência satânica, a laica, empreendem contra os filhos de Deus. Nas palavras de Malafaia, os pais não precisam mais ficar embaraçados com os questionamentos dos seus filhos universitários. Obviamente, o objetivo é mais fortalecer a convicção dogmática dos crentes do que convencer o público das universidades. O formato do livro? O clássico das auto-ajudas: 100 perguntas e respostas. Imaginem a qualidade "acadêmica"...</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify">Uma das grandes virtudes da condição pós-moderna, com certeza, é acabar com o reinado absoluto da razão, supostamente monopolizada por cientistas devidamente certificados, como bem demonstrou Michel Foucault ao falar sobre o poder autoritário de quem detém o saber. Assim, a sociedade pôde respirar ares mais democráticos e experimentar novos saberes. Contudo, nada na realidade social é unilateral ou definitivo. Dessa forma, a nova atmosfera pós-positivista serviu também para a entrada vigorosa de atores religiosos na cena pública, detentores de privilégios de autoridade antes conferidos apenas à ciência positiva. Trata-se de um abuso da democratização dos saberes. O que se deve ter não é o fim da ciência, mas sim sua colocação no seu devido lugar em detrimento de sua hipertrofia social moderna. A religião, segundo Durkheim, é funcional e como tal deve ser valorizada, mas não é ciência e não deve gozar de seus privilégios. Assim como a ciência não salva a alma de ninguém, pois tal é típico das religiões. A convivência democrática de saberes não significa a intromissão de uns na arena de outros, mas a garantia de suas existências com dignidade a partir das escolhas livres dos indivíduos. Obviamente, há espaços para a reformulação daquilo que denominamos científico. Assim, conhecimentos que contrariem o<i> mainstream</i> científico podem vir a ser, e é bom que o sejam, reconhecidos como legítimos. Não defendo o engessamento da ciência, mas apenas a sua conformação como campo independente da realidade social, com suas regras próprias e seu regime de inclusão e exclusão, como defendido por Pierre Bourdieu. O inefável, por exemplo, é assunto muitíssimo importante para a compreensão existencial da condição humana, mas deve ser tratado por filósofos, religiosos e cidadãos comuns que o queiram fazer, mas não sob a autoridade da ciência, que serviria apenas para petrificar pontos de vistas particulares. Tal delimitação do campo científico limita-lhe a abrangência e a arrogância, reconhecendo que este é incompetente em diversas áreas do humano, e, ao mesmo tempo, evita o uso político deste por entes externos já demasiado poderosos - como a Igreja.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify">Na verdade, e digo isso com tristeza, a democracia nunca foi a marca principal da civilização ocidental, mas apenas um penduricalho colocado e removido sempre que necessário para se manter os interesses dos mais fortes - laicos ou religiosos. Contra os discursos democráticos apresentam-se as histórias das ditaduras da razão moderna e, mais recentemente, da fé pós-moderna, que insuficiente para legitimar-se sozinha no mundo do Deus morto, busca fontes complementares de legitimidade, estranhas, quando não antagônias, à sua própria dogmática. Assim, o que chamei de retorno apoteótico da religião é, na verdade, o retorno de diversas religiões, onde nenhuma detém o monopólio da verdade. As religiões cristãs, que almejam sempre a hegemonia, precisam, então, de novos recursos de legitimação. A ditadura presente não é a da fé de Jó, que se bastava a si mesma, mas, sim, a da fé insuficiente, como a de São Tomé - aquele que só acreditava vendo.</div>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Mudando de assunto]]></title>
<link>http://framos.wordpress.com/?p=65</link>
<pubDate>Fri, 14 Mar 2008 04:42:50 +0000</pubDate>
<dc:creator>framos</dc:creator>
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<description><![CDATA[.
Eu ia falar, obviamente, da visita de Condoleezza Rice ao Brasil e à Salvador. Já estava program]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div align="justify">.</div>
<div align="justify">Eu ia falar, obviamente, da visita de Condoleezza Rice ao Brasil e à Salvador. Já estava programada há tempos, inicialmente para a assinatura de um tratado bilateral para o combate ao racismo e o fortalecimento do turismo étnico (seja lá o que isso for; talvez pensem que <a href="http://nopedocaboclo.wordpress.com/2006/11/21/a-taxa-de-cambio-tambem-interessa-aos-negros/">os negros devem visitar lugares onde predomina a cultura negra</a>, o que explica a visita à Bahia - mais especificamente ao Pelourinho e à Igreja de N. Srª. do Rosário dos Pretos, depois de Condi ter recebido uma fita do Senhor do Bonfim de uma baiana típica). <i>Digressão: os brasileiros adoram cultivar seus estereótipos e depois ficam estupidamente <a href="http://www.overmundo.com.br/overblog/filme-turistas">reclamando</a> do filme <a href="http://nopedocaboclo.wordpress.com/2006/12/06/turistas-o-filme/">Turistas</a>. </i>Voltando ao assunto: com a <a href="http://framos.wordpress.com/2008/03/06/mais-a-respeito-da-crise/">crise diplomática na América do Sul</a>, obviamente esta se tornou pauta principal. Condi quer clareza acerca da posição brasileira sobre as FARC e o apoio ao <a href="http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=14848">governo democrático de Uribe</a>. O chanceler Celso Amorim, como bom diplomata, respondeu com um sorrisão no rosto:</div>
<div align="center">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">
<div style="text-align:center;"><img src="http://oglobo.globo.com/fotos/2008/03/13/13_MHG_mun_rice.jpg" height="202" width="266" /></div>
<div align="center">
<pre><i>Celso Amorim e Condi</i></pre>
<div align="justify">Porém, <a href="http://mais.uol.com.br/view/1575mnadmj5c/brasil-nao-rotula-farc-como-grupo-terrorista-040268D4A10366?types=A&#38;">ao que tudo indica</a>, o Brasil manterá sua linha <i>nem tanto nem tão pouco </i>- alisa Chávez e abraça Condi. Para deixar a conversa morrer, o chanceler tocará no assunto tabu: reforma do sistema ONU e assento permanente no Conselho de Segurança. Pronto. A partir daí, só mesmo biodiesel e turismo étnico.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">Mas o melhor da visita de Condi não teve nada a ver com o acima dito. É que a péssima cobertura da mídia tupiniquim sempre me leva a pesquisar mais informações na rede mundial. A princípio, os resultados também são pífios. O google exibe logo o Folha, Uol, G1, Globo e merdas do tipo. Mas lá pela página 10 da procura começam a aparecer páginas melhores - a maioria de língua inglesa. Hoje, por exemplo, acabei entrando na <a href="http://www.state.gov/">página do Departamento de Estado estadunidense</a>. Lá estava um destaque da visita de Condi à terra das anacondas comedoras de gente. Primeiro, descobri que Condi, ao contrário de <a href="http://blogs.guardian.co.uk/books/bush460new.jpg">Bush</a>, <a href="http://www.state.gov/r/pa/ei/bgn/35640.htm">sabe muito bem</a> que a capital do Brasil não é Buenos Aires e tampouco São Paulo ou Rio de Janeiro. Mas o que mais impressiona é a velocidade da atualização do site e da quantidade de informações à disposição. Enquanto em português eu achei <a href="http://www.atarde.com.br/cidades/noticia.jsf?id=850280">isso</a>, <a href="http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL349910-5598,00.html">isso</a> e <a href="http://ibahia.globo.com/plantao/noticia/default.asp?id_noticia=171503&#38;id_secao=151">isso</a>, no sítio de Condi eu achei toda <a href="http://www.state.gov/secretary/rm/2008/03/102230.htm">a entrevista de Condi à Waack</a> no Jornal da Globo e toda <a href="http://www.state.gov/secretary/rm/2008/03/102228.htm">a entrevista coletiva de Celso Amorim e Condi</a> à jornalistas brasileiros. Para não dizer que comparei alhos com bugalhos, dou outro exemplo: pesquisando sobre o Mercosul, cheguei à página do Itamaraty e encontrei uma notícia de 199epoucos como sendo a mais atual.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">É certo promover <a href="http://www.uai.com.br/UAI/html/sessao_3/2008/03/13/em_noticia_interna,id_sessao=3&#38;id_noticia=54507/em_noticia_interna.shtml">protestos contra a política imperialista de Bush-Rice</a>, mas é certo, também, que nossos sítios devem ser atualizados e conter mais e melhores informações. Senão a gente começa a falar de uma coisa e termina falando de outra, como aconteceu por aqui.</div>
</div>
</div>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[O espólio de ACM]]></title>
<link>http://framos.wordpress.com/?p=62</link>
<pubDate>Wed, 12 Mar 2008 17:31:23 +0000</pubDate>
<dc:creator>framos</dc:creator>
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<description><![CDATA[Na realidade social, a morte física não implica a morte política, o que fica comprovado pelo suic]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Na realidade social, a morte física não implica a morte política, o que fica comprovado pelo suicídio de Getúlio Vargas, que saiu da vida para entrar na história. Com ACM, vulgo Antônio Carlos Magalhães, não seria diferente. Após 50 anos de poder à frente da política baiana, cujo auge se deu ao fim da ditadura militar e início do período democrático, falece por problemas de saúde, com poder político um pouco mais tímido, devido à institucionalização tardia da ordem democrática - ordem, esta, que Sérgio Buarque de Holanda afirmou ter sido sempre um "mal-entendido" em nossa história. Sua morte foi lamentada em larga escala pelos setores populares que, a despeito do sonho dos revolucionários, o amavam profundamente. Contudo, o tamanho do cortejo fúnebre demonstrava claramente que a classe média já não era fiel ao grande líder. O noticiário nacional reservou-lhe apenas uma nota de rodapé. O acidente do avião da TAM, vôo 3054, era mais importante do que a morte de um idoso que em tempos passados havia desempenhado papel de destaque na política baiana e quiçá nacional.</p>
<p align="justify">&#160;</p>
<div style="text-align:center;"><img src="http://img.terra.com.br/i/2007/06/21/534445-2519-it2.jpg" height="211" width="183" /></div>
<div align="center">
<pre><i> Carlismo em declínio?</i></pre>
</div>
<p align="justify">Muito se discutiu entre os cientistas políticos da UFBA acerca do legado político da figura em questão. Para o professor Paulo Fábio Dantas Neto, poderíamos falar em carlismo pós-carlista, ou seja, os costumes e procedimentos políticos que permanecerão como diretrizes da política baiana, para além do DEM, contaminando, inclusive, setores ditos de oposição ao carlismo. Seria a força da tradição histórica da política autoritária já institucionalizada contra a boa vontade dos novos atores políticos em ascensão. Estes seriam obrigados a jogar com as regras do jogo e não estariam aptos, nem teriam base social suficiente, para mudá-las todas. Assim, o legado político não seria hereditário e nem poderia ser exclusivo do pouco carismático ACM Jr. ou do espevitado ACM Neto. O professor Paulo Fábio não quis concordar com seu colega Jorge Almeida, mas, na prática, essa interpretação significa mesmo, como afirmou o segundo, o declínio do carlismo, por mais que este não se dê por decreto, mas exija um tempo de transição no qual haverá misturas de práticas políticas, sempre permeadas pelo autoritarismo típico da tradição política brasileira, conforme brilhantemente demonstrado pelo já citado Sérgio Buarque de Holanda. Pela primeira vez em cinquenta anos, o clã Magalhães figura fora do executivo municipal da capital baiana e fora do governo estadual, além de não ter conseguido eleger o senador e, ainda por cima, ter assistido ao emagrecimento de suas fileiras partidárias, confirmando, mais uma vez, a tradição de que no Brasil se é amigo de quem está no poder. Se parecia lealdade programática, se devia apenas ao fato de que o velhinho se demorou muito tempo nos andares de cima da política. Mas seria errôneo pensar que sua morte marcou o começo do processo de declínio político. Este vinha acontecendo há alguns anos, desde a quase cassação no episódio da violação do painel do Senado e o caso dos grampos telefônicos. Mas a figura do chefe conseguiu evitar o desmoronamento total e, bem à brasileira, tratou de preparar a transição - projeto que havia sido interrompido com a morte de Luís Eduardo e retornou com a ascensão de ACM Neto. Contudo, o séquito carlista hoje se vê às voltas com grandes obstáculos para a continuidade do projeto. E na ausência de um grande poder, os pequenos poderes se animam - o popular "quando o gato sai, os ratos fazem a festa".</p>
<div align="justify"></div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify"></div>
<p>.</p>
<div align="justify"></div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">A mídia divulgou, não sem o devido e típico estardalhaço, o mandado de busca expedido por juíza - que parece que é casada com o petista Nelson Pelegrino ou algo assim - para que se efetivasse o arrolamento dos bens de ACM, em sua ex-residência no bairro da Graça. Tal mandado foi solicitado por uma das filhas do falecido, alcunhada Teresa, anisosa por meter a mão na parte que lhe é cabida dos 200 milhões de dólares do patrimônio material e financeiro legado. O ato jurídico foi representado como brutal e improcedente. Não posso julgar se o ato foi lícito ou se feriu as liberdades garantidas pela Constituição, uma vez que as informações disponibilizadas pela mídia apresentam alto teor de politização e interesses escusos que são incompatíveis com o bom jornalismo. Contudo, ficam duas certezas. A primeira, a morte física acaba por dar início - quando este início não se deu antes - à morte política, ainda que o tempo necessário possa variar conforme o caso. A segunda, há dez anos atrás - ou mesmo pouco antes da morte de ACM - jamais pensaríamos ser possível sequer imaginar a cena veiculada pela mídia ontem: um mandado de busca expedido contra a residência régia e a polícia - tão conhecida da sociedade civil organizada e dos moradores da periferia pela sua truculência a mando do falecido - invadindo a casa, usando para tanto até chave mestra. Evidentemente, as duas certezas estão inextrincavelmente conectadas.</div>
<div align="justify"></div>
<p>.</p>
<div align="justify"></div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">Sim, professor Paulo Fábio, a Bahia está a viver um novo tempo. Não é necessariamente melhor, devido à insuficiência dos nossos recursos políticos - vide os atuais, que aprovam o PDDU com o presente conteúdo.  Mas inegavelmente é diferente. Agora estamos a viver uma multiplicidade de conservadorismos em busca de lugar ao Sol e não mais o conservadorismo concentrado da era carlista.</div>
<div align="justify"></div>
<p>.</p>
<div align="justify"></div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">A grande questão que fica: encerrada a era ACM, será possível descortinar novos horizontes para a Bahia?</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify"></div>
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]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Fim diplomático da crise diplomática]]></title>
<link>http://framos.wordpress.com/?p=58</link>
<pubDate>Sat, 08 Mar 2008 01:26:32 +0000</pubDate>
<dc:creator>framos</dc:creator>
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<description><![CDATA[A Cúpula do Grupo do Rio presenciou hoje um debate belíssimo entre os chefes de Estado Álvaro Uri]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div align="justify">A Cúpula do <a href="http://www.mre.gov.br/CDBRASIL/ITAMARATY/WEB/port/relext/mre/orgreg/gruporio/index.htm">Grupo do Rio</a> presenciou hoje um debate belíssimo entre os chefes de Estado Álvaro Uribe (Colômbia), Hugo Chávez (Venezuela) e Rafael Correa (Equador). Depois de grave crise, o debate foi polarizado por Uribe e Correa acerca das visôes políticas divergentes e antagônicas sobre o conceito de resistência popular. <a href="http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2008/03/07/uribe_denuncia_que_as_farc_financiaram_campanha_eleitoral_de_correa_1220138.html">Uribe afirmou</a> que os membros das FARC-EP não são i<span>nsurgentes contra uma ditadura, mas sanguinários contra uma democracia. Ao que Correa levantou as mãos e disse: </span><span>"estas mãos não estão manchadas de sangue". É muito raro ver e ouvir <a href="http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2008/03/07/uribe_e_correa_protagonizam_um_tenso_debate_na_cupula_do_grupo_rio_1220189.html">presidentes frente a frente</a> expondo suas divergências à comunidade internacional.</span></div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">
<div align="center"><img src="http://framos.wordpress.com/files/2008/03/602731us_uribe_correa_209_279.jpg" alt="602731us_uribe_correa_209_279.jpg" /></div>
<div align="center"> Correa e Uribe na Cúpula do Grupo do Rio</div>
<div align="center">.</div>
<div align="center"></div>
<div align="justify">É saudável <a href="http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2008/03/07/correa_e_uribe_apertam_maos_e_poem_fim_a_crise_diplomatica_1220578.html">resolver assim um litígio</a>. Uribe formalizou o pedido de desculpas, ao que Chávez respondeu cantando uma música latina - e não foi o <a href="http://www.casadobruxo.com.br/poesia/m/pneumo.htm">tango argentino</a>.  Ao fim, os chefes de Estado apertaram as mãos. Cada qual retorna para casa com suas soberanias afirmadas e suas convicções e discordâncias intactas.</div>
<div align="justify"></div>
</div>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Agora, a Espanha...]]></title>
<link>http://framos.wordpress.com/?p=55</link>
<pubDate>Fri, 07 Mar 2008 19:07:51 +0000</pubDate>
<dc:creator>framos</dc:creator>
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<description><![CDATA[O Brasil agora precisa atuar em outro episódio diplomático, ainda que este não possa ser encarado]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div align="justify">O Brasil agora precisa atuar em outro episódio diplomático, ainda que este não possa ser encarado como uma crise. É a questão do tratamento da alfândega espanhola à brasileiros. Os telejornais deram bastante ênfase ao caso, mas, como sempre, não conseguiram trazer um debate que buscasse causas e consequências. Mostram cada notícia como se fosse equivalente à outra: nascimento de um panda na China, furacão no Sudeste Asiático, corrupção no Congresso e crise diplomática na América do Sul. Os telespectadores ficam sem as conexões causais e somam no seu cérebro milhares de informações que não sabem como usar. No máximo, falam na rua à um amigo: "Você viu o que aconteceu?".</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">Dois fenômenos básicos estão por trás do comportamento do governo espanhol. Primeiro: a União Européia tem apertado o pescoço dos países mais frágeis da comunidade para que fechem suas fronteiras para a imigração sul-norte (dos países periféricos em direção aos países desenvolvidos). Segundo: a Espanha tem longa tradição de nacionalismo exacerbado, oriunda da guerra civil (1936-39), da ditadura de Franco (1939-75), do combate ao separatismo basco e de governos de direita, como o do ex-presidente Aznar. A xenofobia, o racismo, e o preconceito em relação aos países periféricos são comuns na Europa. Os eleitores culpam os imigrantes pela perda de seus postos de trabalho, ao invés de aproveitarem seus níveis mais altos de escolaridade para perceber as consequências dos ajustes estruturais neoliberais em seus sistemas de <i>welfare. </i>Governos ditos progressistas são tímidos demais para mudar a situação, como acontece com o atual presidente Zapatero, do Partido Socialista. Assim, soma-se o (in)útil - o sentimento xenófobo - com o (des)agradável - os maus tratos à cidadãos de países do sul.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">O governo brasileiro, seguindo o princípio da reciprocidade nas relações internacionais, pode e deve defender sua soberania e cumprir o que manda a Constituição e o direito internacional: a proteção de seus cidadãos onde quer que se encontrem contra agravos físicos, materiais e morais. Caberia, no caso, a retorsão, que, em linguagem de direito internacional, signfica a prática de ato inamistoso, mas lícito, para responder a igual procedimento por parte de outro Estado.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">Mas não é fácil aplicar a teoria de que todos os Estados são igualmente soberanos na prática internacional, permeada por desigualdades de poder e interesse. Assim, o governo brasileiro pode escolher respeitar a decisão da União Européia e seus membros de combater a imigração dos países do sul, mesmo com meios abusivos, assim preservando interesses comerciais e políticos com as potências, ao invés de reeditar a <a href="http://www.historia.uff.br/nec/pgpei.htm">Política Externa Independente</a>. A opção de <i>deixa pra lá</i> deve ser mesmo a adotada, como faz crer a tímida nota expedida pelo Itamaraty. Apóia a decisão o ex-presidente Neoliberalizando Henrique Cardoso, como afirmou ontem em entrevista à Record News.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">Aqui em Salvador, oito espanhóis foram deportados ao chegarem ao <a href="http://nopedocaboclo.wordpress.com/2006/12/27/aeroporto-dois-de-julho-e-ponto/">Aeroporto Dois de Julho</a>, mas a Polícia Federal fez questão de esclarecer que o fato nada tem a ver com a atitude da polícia espanhola, uma vez que, para tanto, a PF precisaria de recomendação do Itamaraty.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">Nacionalismos sempre trazem consigo coisas ruins - como acabei de afirmar em relação a Espanha. Mas é preciso que o governo defenda a soberania do Estado brasileiro frente à seus iguais. Senão a gente fica igual à charge abaixo.</div>
<div align="justify"> .</div>
<div align="justify">
<div style="text-align:center;"><img src="http://framos.wordpress.com/files/2008/03/212001-12-31decgaptweenrichandpoor51.jpg" alt="212001-12-31decgaptweenrichandpoor51.jpg" height="305" width="442" /></div>
<div style="text-align:center;"></div>
<div style="text-align:center;"></div>
<div style="text-align:center;"></div>
<div style="text-align:center;"></div>
<div style="text-align:center;"></div>
</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify"></div>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Mais a respeito da crise diplomática sul-americana]]></title>
<link>http://framos.wordpress.com/?p=44</link>
<pubDate>Thu, 06 Mar 2008 00:06:10 +0000</pubDate>
<dc:creator>framos</dc:creator>
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<description><![CDATA[Em post anterior afirmei:
.

&#8220;Assim, o discurso moderado demais do chanceler brasileiro Celso ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div align="justify">Em <a href="http://framos.wordpress.com/2008/03/04/guerra-fria-pos-guerra-fria-e-a-corrida-armamentista-na-america-do-sul/">post anterior</a> afirmei:</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">"Assim, o discurso moderado demais do chanceler brasileiro Celso Amorim pode ter sido uma tática equivocada. A meu ver, ele deveria ter sido mais propositivo, sugerindo um encontro dos chanceleres do Equador e da Colômbia em Brasília, isolando Chávez e colocando a diplomacia brasileira em destaque. O isolamento de Chávez se justifica pelo fato da Venezuela não ter sido diretamente envolvida no conflito original e, ademais, por ter representado um papel belicista ao invés de conciliador."</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">Pois a posição brasileira hoje na sessão extraordinária da OEA, em Washington, foi muito mais propositiva e ativa. O embaixador brasileiro intermediou as negociações entre a Colômbia e o Equador, o que possibilitou a aprovação da resolução que reconheceu que a Colômbia violou o espaço aéreo e a soberania equatoriana, mas sem tecer maiores críticas. Em território brasileiro, Lula se encontrou com Rafael Correa e propôs um encontro entre o presidente equatoriano e colombiano, com intermediação brasileira. Correa, contudo, rejeitou a proposta e chamou Uribe de tudo quanto é nome feio.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">A Colômbia, por sua vez, entrou com ação na Corte Internacional de Justiça contra a Venezuela. Diz ter provas de que a movimentação militar da Venezuela para fechar suas fronteiras  se explica pelo fato de que o número um das FARC-EP se encontra  em território venezuelano com  aval de Chávez.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">A Venezuela e o Equador, contudo, disseram ter provas de que o ataque se deu enquanto os guerrilheiros das FARC-EP dormiam, contrariamente à versão colombiana de que houve combate e resistência.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">Mas o mais grave foi a divulgação de como a Colômbia tomou conhecimento do local exato de onde estavam Reyes e os demais guerrilheiros. O próprio governo colombiano admitiu que interceptou uma ligação entre Chávez e Reyes, a partir da qual localizou o segundo. O problema é que a Colômbia não tem a tecnologia necessária para tanto. Alguma dúvida de quem deu essa mãozinha? Claro. Os Estados Unidos. Isso explica porque o Império tem se mantido tão quietinho até agora.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">Nisso Chávez e seus discursos nada diplomáticos têm razão: "Nós não queremos guerra, mas não vamos permitir ao império norte-americano, que é o amo, nem ao seu cachorro, o presidente Uribe e a oligarquia colombiana, que venham nos dividir, que venham nos debilitar, não vamos permitir”, disse o mandatário venezuelano. Veja na <a href="http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=14841">fonte</a>.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify"><a href="http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=14844">Aqui</a> vocês terão acesso a uma análise crítica dos discursos proferidos pela mídia reacionária brasileira.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">Assim, diversos ingredientes estão aumentando a sopa. Vamos ver no que vai dar. Estarei por aqui comentando e torcendo para uma solução pacífica, mas que isole o governo subalterno de Uribe. O que está em jogo não é isolar-se dos Estados Unidos, afinal a maior potência econômica, mas investir na soberania e autonomia necessárias para o fortalecimento do Estado - o que lhe dará margem para agir de acordo com o interesse nacional e não a partir do humor do mercado ou das instituições financeiras internacionais. Com o atual andar da carruagem na América Latina, a Colômbia tem se posicionado como um entrave, à mando dos Estados Unidos, ao processo de integração das comunidades nacionais. Uribe quer ser o bastião solitário do neoliberalismo de sangue puro.</div>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Guerra Fria pós-Guerra Fria e a corrida armamentista na América do Sul]]></title>
<link>http://framos.wordpress.com/?p=41</link>
<pubDate>Tue, 04 Mar 2008 18:56:30 +0000</pubDate>
<dc:creator>framos</dc:creator>
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<description><![CDATA[O post de cima é o primeiro de uma série. Toda vez que eu for falar de algo sério, irei colocar a]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">O post de cima é o primeiro de uma série. Toda vez que eu for falar de algo sério, irei colocar algo engraçado antes. Assim, vocês vão pensar que o de baixo também é engraçado e vão ler até o final, ansiosos em descobrir qual a graça da merda toda. No Brasil, é preciso ter estratégias para ser ouvido quando o assunto é sério. Tinha pensado em falar até do BBB, mas aí seria apelação demais. Mas a estratégia seria brilhante, uma vez que há dezenas de blogs de fofocas sobre o BBB e todos são bem visitados.  Enfim.</p>
<p align="justify">O <a href="http://framos.wordpress.com/2008/01/12/chavez-e-emanoel/">caso do menino Emanoel</a> foi mais complicado de entender. A crise atual pode ser explicada rapidinho.</p>
<p align="justify">A América Latina vive uma guinada à esquerda (com variações do centro à extrema esquerda) desde 1998. Chávez (Venezuela), Morales (Bolívia) e Correa (Equador) formam o bloco mais radical, ou seja, nacionalista, populista e anti-americanista. Lula (Brasil), Nestór e Christina Kirchnér (Argentina) e Bachelét (Chile) formam o bloco moderado, misturando elementos social-democratas, populistas, desenvolvimentistas e neoliberais.</p>
<p align="justify">Nesse cenário, o Brasil, tradicionalmente o país mais influente e com maior inserção internacional da América do Sul, foi ofuscado pela guinada andina. Os conflitos entre Chávez e Uribe (neoliberal norte-americanista da Colômbia) se acirraram desde o momento em que o primeiro passou a ter boas relações com a guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC-EP). O discurso  fanfarrão e as intromissões de Chávez, como no caso das negociações para resgate de duas sequestradas pelas FARC-EP, levou o pacato - mas politicamente feroz - Uribe a aprofundar o poder de fogo da Colômbia através de alianças militares com os Estados Unidos, o que já vinha ocorrendo desde o início do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Plano_Col%C3%B4mbia">Plano Colômbia</a>. Mas Chávez não ficou para trás e, uma vez que os Estados Unidos se recusaram a vender-lhe armas, buscou o mercado bélico russo. Assim, os Andes estão presenciando uma corrida armamentista em uma atípica Guerra Fria pós-Guerra Fria. Isso afeta diretamente os interesses brasileiros, uma vez que o país não almeja aumentar gastos em armamentos por não apresentar anseios belicosos, mas, simultaneamente, não pretende perder o posto de maior poder bélico da América Latina - o que lhe permite buscar a tão sonhada cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.</p>
<p align="justify">O estopim da crise, dessa vez mais sério, foi a incursão militar colombiana em território equatoriano para atacar guerrilheiros das FARC-EP que haviam cruzado a fronteira. Correa foi fulminante: chamou Uribe de mentiroso, cortou relações diplomáticas e destacou as Forças Armadas para fecharem a fronteira com a Colômbia. Chávez logo aproveitou e fez o mesmo, fechando a Colômbia em duas frentes de movimentações militares. Ainda por cima, chegou a mencionar a possibilidade da guerra.</p>
<p align="justify">Os jornais do mundo todo estamparam a crise diplomática sul-americana em primeira página. Alguns chefes de governo e de Estado se manifestaram. Por sua vez, as diplomacias brasileira, argentina e chilena (os três países mais importantes e politicamente pacificados no subcontinente) se demonstraram tímidas e a iniciativa permaneceu nas mãos de Chávez e Correa, com reação à altura de Uribe.</p>
<p align="justify">A Organização dos Estados Americanos (OEA), ante a inércia diplomática e a escalada militar, convocou sessão extraordinária e de urgência. Esta reunião irá demonstrar claramente o papel dos litigiosos, das diplomacias neutras (Brasil, Argentina e Chile)  e, principalmente, as intenções norte-americanas frente à crise. Uma possibilidade é que os Estados Unidos queiram repassar a liderança do processo conciliatório ao Brasil, uma vez estarem atolados no Afeganistão e no Iraque e pelo fato do Brasil já ter mostrado ser uma boa alternativa, como no caso do Haiti. O presidente haitiano Jean-Bertrand Aristide foi derrubado com aval norte-americano, após o que a ONU ocupou "humanitariamente" o país, com o Brasil liderando as tropas. Se essa iniciativa norte-americana se concretizar  antes do Brasil mostrar interesse em encabeçar as negociações, os governos mais esquerdistas (Chávez, Correa, Morales) podem acusá-lo  de subordinação ao Império e rejeitar-lhe legitimidade para conduzir as negociações. Assim, o discurso moderado demais do chanceler brasileiro Celso Amorim pode ter sido uma tática equivocada. A meu ver, ele deveria ter sido mais propositivo, sugerindo um encontro dos chanceleres do Equador e da Colômbia em Brasília, isolando Chávez e colocando a diplomacia brasileira em destaque. O isolamento de Chávez se justifica pelo fato da Venezuela não ter sido diretamente envolvida no conflito original e, ademais, por ter representado um papel belicista ao invés de conciliador.</p>
<p align="justify">Uma guerra ou  uma corrida armamentista não interessam à comunidade sul-americana, uma vez que desviam vultosos recursos numa região que, aos trancos e barrancos, vem recuperando a capacidade estatal de intervir na vida social, o que se convencionou chamar de pós-Consenso de Washington. Melhor seria a ampliação do crédito no âmbito do Banco do Sul, o fortalecimento do Mercosul em detrimento de tratados bilaterais com os Estados Unidos e a vitória democrática do povo colombiano sobre o governo de Uribe, sem intervenções externas e respeitando o princípio da não-ingerência. O próprio Morales tem reclamado das ligações dos separatistas da rica província de Santa Cruz com agentes norte-americanos. Não seria legal se a esquerda fizesse o mesmo e acreditasse na capacidade de cada povo responder às suas necessidades sociais, econômicas e políticas?</p>
<p align="justify">É bom ficar de olho. O jogo de War começou e nem todos os jogadores têm a mesma chance. No War real, a sorte não se decide nos dados.</p>
<p align="justify">&#160;</p>
<p align="justify">"A crise atual pode ser explicada rapidinho." Realmente, eu menti. Admito. O post não tem graça e não é artístico, eu sei. Mas é importante... Mas alguém se importa com coisas importantes?</p>
<p align="justify">&#160;</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[O declínio da esquerda tradicional e o futuro da Contestação Crítica - comentários a partir da saída de Fidel]]></title>
<link>http://framos.wordpress.com/?p=38</link>
<pubDate>Sat, 23 Feb 2008 03:00:49 +0000</pubDate>
<dc:creator>framos</dc:creator>
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<description><![CDATA[
.

A expressão &#8220;declínio da esquerda&#8221; pode remeter à falsa impressão de que o iníc]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div align="center"><img src="http://www.primeiralinha.org/fidel-bandeira1.jpg" height="140" width="191" /></div>
<div align="center">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">A expressão "declínio da esquerda" pode remeter à falsa impressão de que o início desse processo se deu a partir da queda do <a href="http://framos.wordpress.com/2008/01/28/uma-saudade-nostalgica-dos-muros/">Muro de Berlim</a> e da dissolução da União Soviética. Na verdade, a esquerda começou a se desintegrar a partir da própria ascensão do stalinismo. A partir daí, as correntes socialistas se viram às voltas com uma Realpolitik empobrecedora e castrante da criatividade filosófica e cultural que necessariamente devem acompanhar um movimento de contestação. Ademais, o stalinismo significou o fim do "movimento" leninista em nome de uma institucionalização brutal do socialismo meramente "científico". A "ciência" falou mais alto que os demais aspectos da realidade social. E olha que Gramsci já tinha falado que era preciso haver liberdade no socialismo e na revolução e que a cultura era tão importante quanto o Partido e as "determinações econômicas". Weber ia dizer a mesma coisa, mas pelo lado capitalista da Guerra Fria intelectual. Ninguém deu bola pro coitado do Gramsci, acusado de revisionismo, que morreu sozinho e triste no cárcere.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">A partir daí, o socialismo (marxismo-leninismo, maoísmo, trotskismo) significou Realpolitik, ou seja, a resposta clara e pronta contra o sistema capitalista que precisava ser combatido. A poesia, o cinema, a literatura, a "teoria" tinham que ser "engajadas" no pior significado que o termo pode assumir: pré-prontos, enlatados, manipulados, sem sal e sabor estético algum. Desde as cavernas os seres humanos são estéticos, o que se prova pelas pinturas rupestres. O capitalismo soube usar essa necessidade humana ao extremo, engendrando a sociedade do espetáculo. O socialismo, por sua vez, quis abafar a estética em nome da revolução. Quando, na verdade, a revolução precisava ser, ela mesma, também estética. De que adiantaria o socialismo, se não fosse belo? Não por acaso, as massas fugiam da Alemanha Oriental rumo à zona de prosperidade capitalista no lado Ocidental. É melhor a enganação estética do que o deserto do real.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">Lutar contra o capitalismo, contra os governos capitalistas, contra a moral burguesa, contra o pensamento acadêmico burguês, contra o prazer burguês, contras as piadas burguesas... Era muita coisa para destruir em um sistema que funcionava perfeitamente bem (no sentido funcional, não em sentido moral). E pior: tudo isso deveria ser substituído por fórmulas prontas e rígidas impostas por inteligências verticais (comitês centrais). O capitalismo era mais estimulante: pregava o self-made-man, dizia que você deveria ser dono de si, que ninguém podia lhe roubar a liberdade (ainda que efetivamente roubasse). O socialismo dizia: submeta-se à direção, seja abnegado, renegue tudo. O problema do socialismo é que se tornou um deserto de realidade extrema. Se tornou chato. Isso quando o capitalismo inventou a sociedade do ócio e do entretenimento para aproveitar e lucrar com o tempo livre conquistado pelos trabalhadores e classes médias ascendentes a partir da redução e regulamentação das jornadas de trabalho. Para os capitalistas, lazer após o trabalho. Para os socialistas, luta após o trabalho. Não era difícil prever o que a maioria escolheria. Ninguém pensou (porque não quiseram ouvir Gramsci) que se deveria aliar lazer e luta, luta e lazer.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">A culpa talvez tenha sido do gigantismo da vontade. Nunca um sistema organizador da realidade social (cidades-estado rurais-comerciais, feudalismo, capitalismo etc) foi substituído por outro de forma racional e pré-programada. Para se ter idéia, o termo capitalismo só passou a ser amplamente usado no século XIX, quando já estávamos há muito sob sua hegemonia. Não consta nos registros históricos passeatas no século XVI com slogans "Revolução Capitalista Já!". Mas consta que os burgueses buscaram aliança e distância do Estado quando preciso fosse, consta o nascimento de um sentido burguês da vida etc, mas tudo paulatinamente, sem pressa.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">O socialismo errou por tentar ser total, o que só poderia desembocar em totalitarismo. Alocou-se autoritariamente em sistemas diretivos centralizados o monopólio da criatividade, quando esta deveria emanar livremente de todos. Tentou-se impor a resposta universal do materialismo, quando, não raro, as pessoas queriam dar risadas com uma comédia. Mas isto seria burguês ou dominação "pão e circo" do sistema. Mas não tinha que ser necessariamente assim.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">O stalinismo contaminou imperceptivelmente até seus opositores de esquerda, ao ser o crupiê, ou seja, aquele que ditava as regras do jogo de tal forma que, até para se opor, era preciso se igualar. Qualquer que fosse o tipo de marxismo abraçado, a discussão era pragmática: ganhar sindicatos, organizar passeatas, mobilizar estudantes e operários etc. Mas e a reflexão sobre a vida? E o humor?  E o jovem Marx da Ideologia Alemã? Nada disso importava. A pobreza conceitual e espiritual dominou aqueles que, de início, representavam a emancipação. E eles nem perceberam. Não perceberam que suas bandeiras deixaram de empolgar. Não perceberam que já não despertavam emoções. Quando ruiu o muro de Berlim e a União Soviética, o que ruía, na verdade, eram os fantasmas de sonhos passados e os pesadelos presentes.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">Nesses últimos dias, Fidel Castro renunciou ao cargo de Comandante-em-chefe de Cuba, após 49 anos ininterruptos no poder. Não quero aqui tecer os prós e contras de seu longo governo, pois no fim das contas, acho que dá empate. Por mais que <a href="http://italy.indymedia.org/uploads/2001/05/viva-fidel.jpg">alguns exagerem na admiração do ícone</a>.  De qualquer forma, uma coisa é certa: sua saída fez bem menos barulho do que sua entrada em cena junto com Che Guevara e Camilo Cienfuegos na marcha sobre Havana em 1959.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">A saída de cena de Fidel representa o encerramento completo de um ciclo histórico de contestação baseado no socialismo "científico". Enquanto Fidel se mantinha em cena,  a queda de Muro de Berlim e a dissolução da União Soviética pareciam incompletas. China e Vietnã já tinham se decidido por um capitalismo de Estado e a Coréia do Norte vive em um isolamento tão brutal que pouco se lembra da sua existência. Mas outros ciclos virão e espero que sejam mais abertos à filosofia (acadêmica e popular), à arte, à criatividade, à utopia em detrimento do realismo gulaguiano. Política não se pode fazer sem realismo, é verdade. Mas emancipação não se pode fazer sem sonho. É preciso que a nova contestação combine equilibradamente os dois pólos. Racionalização e subjetivação, como fala Alain Touraine. Estrutura e mundo da vida, como ensina a Sociologia pós-positivista.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">Por isso, a contestação só não basta. Não basta apenas criticar o Outro, o Mal, o Sistema, o Capital. É preciso também criticar cada tentação autoritária, cada saída fácil. Assim, a Contestação só pode, neste novo milênio, ser Crítica. Daí minha proposta da Contestação Crítica. Alguns podem ainda chamá-la de socialismo. Isso é o de menos. O que interessa é o espírito da coisa e não sua nomenclatura.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">A Contestação Crítica, por sua vez, deve ter sua casa no Clube da Política, ou seja, numa renovada Ágora que não assuste os indivíduos que deseja agregar, mas que, ao contrário, saiba inserir os elementos que cada indivíduo ou grupo valorizam e com o qual tenham identidade, respeitados os limites democráticos e do bem comum. A Contestação Crítica deve ser o substituto dos partidos centralizadores do marxismo ortodoxo, mas de forma a despontar em cada canto do globo e de formas distintas, sem a atrofia por vanguardas iluminadas. A Contestação Crítica será cada insurreição espontânea e/ou organizada contra a opressão (material e simbólica) em todos os seus moldes. O Clube da Política, por sua vez, deverá ser a vida cotidiana de cada um de nós.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">Retira-te em paz, Fidel! Lutaste bastante. Mas agora é hora de outras tentativas por outras pessoas em um novo tempo.</div>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Entre o Pelô e Amsterdã]]></title>
<link>http://framos.wordpress.com/?p=37</link>
<pubDate>Sat, 23 Feb 2008 01:25:57 +0000</pubDate>
<dc:creator>framos</dc:creator>
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<description><![CDATA[Quem assistiu seu Valera hoje viu uma cena muito explorada pelo &#8220;jornalista&#8221;: um casal d]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Quem assistiu <a href="http://www.tvitapoan.com.br/balancogeral/">seu Valera</a> hoje viu uma cena muito explorada pelo "jornalista": um casal de turistas sendo roubado na parte não restaurada do Pelourinho. O ladrão leva o colar de ouro da senhora. O roubo foi tão tranquilo e honesto que o ladrão pára e lança: "Dando bobeira, andando com corrente de ouro no Pelourinho... Aqui não é Amsterdã, não...". Tudo filmado por um cinegrafista amador. As palavras do ladrão foram exaustivamente repetidas.</p>
<div align="justify"></div>
<p align="justify">Seu Valera achou o fato um absurdo porque demonstrou a insegurança que ronda os turistas em um dos principais cartões postais da cidade do Salvador.  Ele sugeriu delicadamente ao governador, dando tapas na mesa, que comprasse um colar novo na HStern e desse à infeliz.</p>
<div align="justify"></div>
<p align="justify">Para seu Valera, a questão é externa: segurança dos turistas. Para o honesto ladrão, que ainda se preocupou em ser pedagógico com a turista <strike>imbecil</strike> inocente, a questão é interna, pois <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Amsterd%C3%A3o">Amsterdã</a> absolutamente não é aqui. Lembro que alguém da cultura já tinha dito que aqui é o Haiti.</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[De Vargas à Wagner]]></title>
<link>http://framos.wordpress.com/?p=29</link>
<pubDate>Tue, 19 Feb 2008 16:03:30 +0000</pubDate>
<dc:creator>framos</dc:creator>
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<description><![CDATA[No início do governo Vargas, em 1933, Wilson Batista, famoso compositor de samba da época, redigiu]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>No início do governo Vargas, em 1933, Wilson Batista, famoso compositor de samba da época, redigiu a seguinte letra:</p>
<div align="center">
<address><i><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">                                             Com meu chapéu de lado, tamanco arrastando,</span></i></address>
<address><i><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">                                                     Lenço no pescoço, navalha no bolso</span></i></address>
</div>
<div align="center">
<address><i><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">                                                    Eu passo gingando, provoco e desafio</span></i></address>
</div>
<div align="center">
<address><i><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">                                                          Eu tenho orgulho de ser vadio</span></i></address>
</div>
<address>. </address>
<address> </address>
<div align="justify">Após o golpe do Estado Novo, com a implantação do regime ditatorial de Vargas em 1937, o governo investiu pesado na valorização do trabalho através do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), do sindicalismo oficial e pelego, da legislação trabalhista etc. A partir daí, valia mesmo prestar atenção no lema "aos amigos, pão; aos inimigos, pau". Wilson Batista, que não era bobo nem nada, mudou o tom do samba do crioulo que não é doido. Em 1940, ele escreve:</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="center">
<address><i>Quem trabalha é quem tem razão</i></address>
<address><i>Eu digo e não tenho medo de errar</i></address>
<address><i>O bonde de São januário</i></address>
<address><i>Leva mais um operário</i></address>
<address><i>Sou eu que vou trabalhar</i></address>
<address>. </address>
</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">Muito tempo depois, besta continua sendo coelho. Na era carlista, Ivete Sangalo parou o trio Madeirada em frente ao camarote onde estavam Paulo Souto, César Borges, Antônio Imbassahy e ACM Neto e mandou aqueeeele beijo, disse que eles são lindoooos,  que a Bahia está uma maravilha e os parabenizou pelo Carnaval belííííssimo. Esse ano, porém, os agraciados foram Jaques Wagner (PT) e João Henrique (PMDB), ambos opositores ao carlismo que conseguiram galgar ao poder depois de deixar claro às elites que nada mudariam.</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">Quem disse que Carnaval não é momento para se pensar em política? Não é momento para a <a href="http://framos.wordpress.com/2008/01/09/dos-lideres-ou-como-surgem-as-opinioes-de-massa/">massa</a> pensar em política! Mas essa nunca pensa em política mesmo...</div>
<div align="justify">.</div>
<div align="justify"></div>
<div align="justify">PS. Teve beijinho pra Imbassahy também, uma vez que ele perdoou as dívidas dos grandes blocos de Carnaval nos últimos dias de seu governo, já sabendo da vitória de João Henrique. Alegação: os grandes blocos de Carnaval não têm fins lucrativos.</div>
<div align="justify"></div>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[A Justiça é cega?]]></title>
<link>http://framos.wordpress.com/?p=28</link>
<pubDate>Tue, 19 Feb 2008 12:55:10 +0000</pubDate>
<dc:creator>framos</dc:creator>
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<description><![CDATA[Victor Nunes Leal, em seu clássico trabalho Coronelismo, enxada e voto, faz uma belíssima análise]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Victor Nunes Leal, em seu clássico trabalho <i>Coronelismo, enxada e voto</i>, faz uma belíssima análise da tradição mandonista e coronelista da política nacional. Ao longo do livro, ele traz exemplos de como tal estrutura sócio-política se dá no cotidiano e como as pessoas comuns lidam e respondem a ela. Já era famosa a sabedoria popular que ele consagrou: "aos amigos, pão; aos inimigos, pau". Mas descobri no seu trabalho, outra sentença ainda mais profunda e explicativa da desgraça nacional:</p>
<p align="center">"Aos amigos, Justiça; aos inimigos, Lei."</p>
<p align="justify">Essa diferenciação entre Justiça (auxílio, liberdade) e Lei (repressão, regulação, violência) é a mais clara face da Injustiça e Desigualdade que assolam o país. É como costumo dizer: a Justiça é cega, mas lê em braile. Assim, sabe reconhecer muito bem aqueles que devem ser acolhidos e aqueles que devem ser enxotados como bestas. Obviamente, as bestas tem nome: pobres e/ou negros e, às vezes, até membros da classe média. Assim, a fórmula política de sucesso poderia ser ainda mais clara:</p>
<p align="center">"Tem dinheiro? Justiça!</p>
<p align="center">  Não tem? Lei!"</p>
<p align="justify">Isso explica desde o Cansei até a ausência das políticas públicas e sociais do Estado em regiões de baixa renda, onde, de quando em vez, aparece o <a href="http://www.youtube.com/watch?v=FGIUETq9-SM">Caveirão</a>.</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[À César o que é de César, à África o que é da África]]></title>
<link>http://framos.wordpress.com/?p=27</link>
<pubDate>Tue, 19 Feb 2008 00:15:39 +0000</pubDate>
<dc:creator>framos</dc:creator>
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<description><![CDATA[Bush prometeu capitais para a China, produtos industrializados para o Brasil etc etc.
Em visita à ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Bush prometeu capitais para a China, produtos industrializados para o Brasil etc etc.</p>
<p align="justify">Em visita à África hoje, prometeu milhões de mosquiteiros para combater a febre amarela e a malária.  Isso mesmo: mosquiteiros... Das duas uma: ou Bush tem acordo com alguma indústria de mosquiteiro e está tentando ampliar mercados ou os mosquiteiros são usados e doados pelas associações beneficentes do nobre povo estadunidense para ajudar o continente esquecido.</p>
<p align="justify">Mas o que eu daria (quase) tudo pra saber é: o que Bush estava pensando enquanto participava de uma <a href="http://www.msnbc.msn.com/id/23219193/displaymode/1176/rstry/23200795/rpage/2/">dança típica da Tanzânia</a>? <strike>Tenho quase certeza que ele pensou: "Que selvagens! Basta uns mosquiteiros para eles dançarem..."</strike></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Mão Branca, Getúlio Vargas e Getúlio Marginal]]></title>
<link>http://framos.wordpress.com/?p=26</link>
<pubDate>Mon, 18 Feb 2008 17:52:25 +0000</pubDate>
<dc:creator>framos</dc:creator>
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<description><![CDATA[Passei nove dias sem postar e a visitação ao blog caiu consideravelmente. Seus miseráveis!  Acham]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Passei nove dias sem postar e a <a href="http://framos.wordpress.com/2008/01/28/uma-saudade-nostalgica-dos-muros/">visitação ao blog</a> caiu consideravelmente. Seus miseráveis!  Acham que é fácil manter um blog?</p>
<p align="justify">Mas vamos ao que importa.</p>
<p align="justify"> A <a href="http://desciclo.pedia.ws/wiki/Bahia">Bahia</a> é um estado bizarro e cheio de bizarrices. A TV local não tem jornalismo, a não ser programas sensacionalistas que exploram narcisisticamente o sofrimento e a dor humanas.</p>
<p align="justify">Hoje, o <a href="http://www.seligabocao.com/index_a.php">Se Liga, Bocão</a> conseguiu se superar. Mostrou uma senhora de idade com úlcera nas pernas e o apresentador, o Bocão, ficou perguntando se doía e se ela acreditava na ajuda de Bocão. Só para ouvir: "Abaixo de Deus, só o Bocão!". Aí ele perguntou se quem cuida de úlcera é ortopedista ou cirurgião plástico.</p>
<p align="justify">Também teve uma mãe que foi em busca de internação do filho dependente químico. Bocão demonstrou-se ainda mais ignorante. Perguntou se o rapaz ficava dando chilique, se roubava, se batia nela. E a mãe: "Não, ele é tranquilo." Desarmou, assim, em sua simplicidade, a charlatanice televisiva. Mas Bocão insistiu: "Você cheira a mão dele? Você cheira? - e - Já pegou ele drogadão, lá, assim, aéééreoooo?" Ela disse categoricamente que não. O único problema é que ele estava devendo ao traficante e foi jurado de morte.</p>
<p align="justify"> Depois, ou antes, o programa mostrou três assaltantes num posto policial. O repórter era o Mão Branca, figura caricata que só mostra as mãos cobertas por uma luva branca. Aí ele perguntou a um assaltante chamado Getúlio se ele sabia quem foi Getúlio Vargas. O assaltante sinalizou timidamente que não conhecia o infeliz. Mão Branca disparou sem hesitar: "Conhecer História do Brasil você não sabe, mas assaltar sabe, né?".</p>
<p align="justify">Conhecer História do Brasil... Pois é. Parece que ele não conhece porque simplesmente não quis. O <a href="http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI2370852-EI5030,00.html">Timothy Mulholland</a> não tem culpa alguma, afinal de contas, a decoração da casa do Reitor não pode ser feita a facão e os mais de 470 mil reais estão justificados.  A TV também não tem culpa, que fica passando Se Liga, Bocão.</p>
<p align="justify">Claro que a mídia não manipula pura e simplesmente. As pessoas vão atrás desses programas sensacionalistas sabendo da exposição pública que sofrerão. Mas em um país onde o <a href="http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u371051.shtml">poder público</a> e os serviços estratégicos, como a comunicação e a educação, são relegados a último plano, recorrer a <a href="http://framos.wordpress.com/2008/01/09/dos-lideres-ou-como-surgem-as-opinioes-de-massa/">líderes</a> messiânicos pode ser a última cartada de indivíduos e grupos acometidos pelo desespero.</p>
<p align="justify">E que venha o povo!</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Extra: revolta em Salvador!]]></title>
<link>http://framos.wordpress.com/?p=22</link>
<pubDate>Sat, 02 Feb 2008 14:41:29 +0000</pubDate>
<dc:creator>framos</dc:creator>
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<description><![CDATA[Às vezes me sinto um autista. Ou então a imprensa exagera as coisas. Fato do qual, talvez, nem Car]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Às vezes me sinto um autista. Ou então a imprensa exagera as coisas. Fato do qual, talvez, nem CartaCapital (única revista semanal que ainda consigo ler) consiga escapar.</p>
<p>É que tomei um susto ao saber por uma revista nacional que <a href="http://www.cartacapital.com.br/481/a-revolta-da-periferia">a cidade na qual moro passa por uma revolta ou rebelião social</a>.  Acho que depois que comecei a estudar Relações Internacionais deixei de me ligar às questões locais.</p>
<p>Talvez a CartaCapital tenha pecado por aquilo que nas Ciências Sociais dão os difíceis nomes de "falta de neutralidade axiológica", "falta de objetividade", "normativismo" ou "engajamento científico". Ou seja (é uma maravilha esse negócio de "ou seja", ou seja, uma explicação depois de algo que a gente não entende, tipo "moral da história"), passou nas páginas da revista aquilo que ela desejava que acontecesse, superdimensionando as consequências do acontecimento.</p>
<p>A periferia daqui não se encontra em revolta social alguma, mas sim no Carnaval, espremida entre camarotes, cordas de bloco e tropa de choque - e todos felizes para sempre...</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Uma saudade nostálgica dos muros]]></title>
<link>http://framos.wordpress.com/?p=20</link>
<pubDate>Mon, 28 Jan 2008 20:31:26 +0000</pubDate>
<dc:creator>framos</dc:creator>
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<description><![CDATA[O ruim de ter blog é que é preciso sempre atualizá-lo. Caso contrário as pessoas entram, vêem t]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>O ruim de ter blog é que é preciso sempre atualizá-lo. Caso contrário as pessoas entram, vêem tudo lá paradão e não entram mais. E no meio de bilhões de bits de informação, quem passa (ou repassa) mais conteúdo fica na frente. Assim, é preciso escrever freneticamente e sem parar. Quis dar um tempo do meio acadêmico, no qual temos que escrever artigos como Henry Ford produzia carros, porque estava cansado de produzir industrialmente coisas padronizadas e sem criatividade. Mas aqui no mundo libertário da rede mundial, as coisas também não se diferenciam muito. Aí a gente entende o que a Sociologia quer dizer com "estrutura": podem haver diferenças (às vezes radicais), mas no fim das contas, a lógica acaba por ser a mesma. Obviamente a internet também contribuiu para modificar a mesma estrutura da qual se originou, pois o processo social é permeado por mudanças e conflitos e está longe de ser estático. Sartre esboçou uma boa solução para este dilema no âmbito existencial, mas podemos trazê-la sem muitos problemas para o âmbito estutural: "não importa o que fizeram de você, mas o que você faz do que fizeram de você". Acho que a frase dele era mais ou menos assim. Não tenho certeza agora. Mas vocês podem procurá-la <a href="http://www.google.com">aqui mesmo na internet</a>, sem tirar o traseiro da cadeira.</p>
<p>Enfim, tudo isso foi um desabafo e não tem nada a ver com o que vou escrever. É que fico puto por ter de sair de minha soneca de depois do almoço para vir atualizar o blog.  As pessoas deveriam voltar aqui sempre, mesmo sem haver atualizações. Recebi hoje mesmo um e-mail de um amigo meu reclamando das pessoas que exigem novidade em tudo. Concordo plenamente. Mas como preciso dos meus leitores, cedo à ordem opressora! Sim, seus sanguessugas, vocês vão ler um material novo hoje!</p>
<p>Então vamos lá.</p>
<p>Há cerca de um mês atrás estive em minha terra natal - Itabuna - para rever meus avós. Toda vez que vou lá, fico trancado na casa deles, fazendo-lhes companhia - o que me agrada bastante. Não costumo visitar outros parentes nem perambular pela cidade. Então, nos momentos em que não há nada para fazer (e esses momentos são muitos), fico na varanda olhando as coisas, o que me lembra <a href="http://www.horizonte.unam.mx/brasil/drumm6.html">aquele poema de Drummond</a>. O ócio me faz reparar em detalhes, como a formiga que carrega um pedaço de folha que talvez tenha quatro vezes o seu peso ou na irregularidade do meio-fio - o que me levou a divagar sobre como são pintadas as faixas que dividem as pistas. Isso não tinha nada a ver com a paisagem em frente, pois a rua da casa de minha vó não tem faixa divisora. Enfim. Em determinado momento reparei em um muro de um terreno baldio. (Acho que não era terreno baldio - talvez seja os fundos de uma casa ou algo do tipo.) No muro havia uma pintura desgastada, mostrando claramente ter sido pintada há muitos anos. E em letras garrafais: RENATO COSTA 40. Era apenas mais uma pintura de muro para campanha política. Vejo essas coisas que enfeiam as cidades todos os dias. Mas esta pintura particularmente me tocou.</p>
<p>Meus pais nunca foram lá muito politizados, mas de uma forma ou de outra, sempre mantiveram contato com a política. Tenho uma vaga lembrança da inauguração de um grande colégio em Itabuna (eu devia ter uns seis anos) e minha mãe me levou para ver as autoridades presentes: o governador, o prefeito, o senador ACM! Fiquei emocionado e em êxtase, mesmo sem saber muito o porquê. Mas a confusão era contagiante. As pessoas estavam realmente emocionadas naquele calor de lascar - como eu não estaria?</p>
<p>Anos depois (eu já tinha uns doze), aconteceram eleições municipais que mexeram com a cidade. Meus pais, avós, tios, irmãos, primos, todos estavam envolvidos de corpo e alma na campanha deste tal de Renato Costa. Íamos à todos os comícios nos bairros, levávamos bandeiras e eu ficava emocionado quando ele apertava minha mão (os adultos normalmente não se importam em falar com as crianças ou fazem de modo rídiculo, tratando-as como idiotas e fazendo gracinhas sem graça). A parte que eu mais gostava era quando soltavam os fogos ao som do jingle: "é de Renato Costa, que a gente gosta, pra trabalhar em Itabuna, com mais amor". Aquilo soava como um hino.</p>
<p>Dez anos depois, Itabuna continua a mesma merda de sempre. Os muros sempre foram importantes para a política, desde o grande muro da China até o outro, lá em Berlim. Hoje, em tempos de espetáculo, resta-nos os muros sem graça das propagandas políticas. Ninguém sequer se preocupa em apagar as suas mensagens. Estas se propagam no vácuo enquanto o tempo - a borracha infalível - é o único preocupado em apagar lentamente a hipocrisia e o cinismo.</p>
]]></content:encoded>
</item>

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